Ex-assessor militar admite que nunca falou com António Costa sobre Tancos

Na comissão parlamentar de inquérito, o vice-almirante José Monteiro Montenegro disse ainda não ter conhecimento de um memorando entregue ao primeiro-ministro sobre a recuperação das armas.

Foi assessor no gabinete de António Costa durante dois anos, mas, ouvido na comissão parlamentar de inquérito ao roubo de material militar em Tancos, o vice-almirante José Monteiro Montenegro disse esta terça-feira aos deputados que, enquanto conselheiro na área militar, nunca aconselhou o primeiro-ministro sobre o caso nem recebeu do chefe do Governo qualquer indicação.

"Nunca tive qualquer tipo de conversa sobre Tancos com o senhor primeiro-ministro. Isso nunca aconteceu", disse o militar na reserva, que, logo no arranque da audição, tinha alertado os deputados para o pouco contacto que tinha tido - pelo menos de forma oficial - com dados que lhe permitissem aprofundar a conversa sobre o furto que ocorrido em junho de 2017 nos Paióis Nacionais: "Apenas tive três contactos diretos. Nas audições na comissão de Defesa Nacional; numa reunião do primeiro-ministro com o ministro da Defesa, a 11 de julho; e através do relatório Tancos 2017, do ministério da Defesa".

Ao longo da audição, o vice-almirante - que disse encarar o furto como um "choque" e uma "injustiça" para o Exército - assinalou que soube do furto e das notícias do reaparecimento do material furtado pela comunicação social e que, após o sucedido, o importante para o gabinete do primeiro-ministro foi, com "celeridade e eficácia", tomar todas as medidas necessárias para que algo de semelhante não voltasse a acontecer e para a salvaguarda do material.

"Num mês, milhares de toneladas foram transferidas de Tancos para outros paióis, essa foi a ação tomada pelo ministro da Defesa. A partir daí, foi deixado o problema de resolver o caso do furto, dos autores e da recolha de material para as autoridades judiciárias. Estando isto na posse das autoridades, faz-me sentido que o primeiro-ministro não quisesse interferir com as autoridades judiciárias e órgãos de polícia criminal", sublinhou o vice-almirante José Monteiro Montenegro, que, novamente questionado pelos deputados sobre alegadas trocas de impressões com António Costa, notou: "Fiquei na expectativa de que o gabinete [do primeiro-ministro] quisesse alguma coisa de mim, não tomei qualquer ação de iniciativa própria".

Perante as afirmações do antigo assessor militar do primeiro-ministro - que disse ainda presumir que o chefe do Governo estivesse "confortável com a informação que teria" - e o reiterar da confirmação de que o vice-almirante não teria tido qualquer tipo de conversa com António Costa, os deputados do PSD e do CDS-PP não pouparam nas críticas.

"Ou o primeiro-ministro não o ouvia ou o senhor não cumpria o seu papel. Isto vem dar razão a quem acusa o Governo de ter assessores a mais. O primeiro-ministro nomeou três assessores para esta área, enquanto o anterior tinha apenas um. Não consigo compreender como é que, perante um processo tão complexo e com armas potencialmente perigosas, há um afastamento da assessoria militar", lamentou a social-democrata Fátima Ramos.

Pelo CDS-PP, foi António Carlos Monteiro a tecer duras críticas, após ouvir as afirmações do oficial na reserva. "O que é que estiveram aqui a fazer? O assunto deixou o país preocupado, mas, pelos vistos, até de férias se vai - como foi o primeiro-ministro - e não se deixa sequer uma instrução sobre este assunto".

Ex-assessor tem "dúvidas" de que Costa soubesse de memorando

Na comissão parlamentar de inquérito, o ex-assessor militar do primeiro-ministro, garantiu ainda que não teve conhecimento de qualquer memorando da Polícia Judiciária Militar sobre uma eventual encenação da recuperação do material furtado de Tancos, considerando o vice-almirante José Monteiro Montenegro que essa informação não deve ter chegado ao gabinete de António Costa.

"Não tive conhecimento, não me chegou às mãos. Também não há conhecimento desse memorando na assessoria jurídica do primeiro-ministro, portanto, eu duvido muito que tenha chegado ao gabinete do primeiro-ministro", disse, depois de confrontado com informações de que um memorando sobre a forma como terá sido recuperado o material militar terá mesmo chegado ao Governo e ao gabinete do primeiro-ministro.

Por agora, o memorando também não chegou ainda aos deputados da comissão parlamentar de inquérito, que aprovaram, no entanto, um requerimento entregue pelo CDS-PP em que é solicitado o acesso ao documento onde alegadamente estão informações sobre a encenação em torno da recuperação do material e que terão sido entregues pelo major Vasco Brazão, inspetor da PJM, ao então chefe de gabinete do ministro da Defesa, o tenente-general Martins Pereira.

Na reunião da comissão parlamentar de inquérito foi também rejeitada a proposta do CDS-PP para uma segunda audição dos generais Faria de Meneses e Antunes Calçada, com o objetivo de esclarecer os motivos por detrás da sua demissão e as divergências com ex-Chefe do Estado-Maior do Exército. Outro dos pontos votados, mas favoravelmente, foi o pedido de audição do antigo Ministro da Administração Interna, Rui Pereira, tendo sido deixadas cair as audições do antigo ministro da defesa Aguiar-Branco e dos atuais ministros da Administração Interna e da Justiça, Eduardo Cabrita e Francisca Van Dunem.

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