Sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki: a história não pode repetir-se

Em defesa da paz e do fim das armas nucleares, dois sobreviventes das explosões de Hiroshima e Nagasaki estão a percorrer o mundo para partilhar a sua história. Temem a Coreia do Norte e os EUA.

Mise Seiichiro tinha 10 anos no dia em que as bombas caíram em Nagasaki. Estava em casa, a tocar órgão, quando um clarão mudou a forma de ver a vida.

"Nesse dia o alerta de bombardeamentos foi suspenso, naquela altura as grandes cidades do Japão, como Nagasaki, tinham sido bombardeadas pelos aviões norte-americanos chamados B29 e as pessoas estavam escondidas em casa, ou tinham ido para o campo, era um ambiente de alguma tranquilidade. Eu estava a tocar órgão e imitei o som de uma avião B29, o avião que bombardeava as cidades, e o meu avô chateou-se comigo e disse para eu parar de fazer aquele barulho porque podia assustar as pessoas. Eu estava a fechar o órgão quando vi lá fora uma luz muito forte, era a bomba atómica, aquela luz durou cerca de 2 minutos".

Nunca mais nada ficou igual. Quando o Japão entrou na Segunda Guerra Mundial Mise Seiichiro estava no primeiro ano da escola primária, as lições do professor ajudaram-no a que hoje possa contar a sua história ao mundo.

"Na escola ensinaram-me que em caso de um bombardeamento devíamos usar o dedo indicador para tapar o ouvido e usar os restantes dedos para tapar os olhos e deitarmo-nos no chão e eu assim fiz. Tapei os olhos e os ouvidos assim que vi aquele clarão fiz logo isso e depois comecei a ouvir um barulho muito forte, era vento da bomba... eu aguentei... o vento continuava, mas eu aguentei e só pensava que ia morrer. Mas depois parou e quando olhei vi que estava tudo destruído".

A destruição da cidade de Nagasaki espelhava o impacto que as explosões tiveram na saúde de milhares de japoneses.

"Eu não fiquei com problemas de saúde, mas a bomba explodiu de manhã e à tarde quando eu saí de casa começou a chover. Era uma chuva negra, que tinha água contaminada pela radiação e a minha pele ficou coberta por aquela água. Talvez por causa disso eu não tive problemas, mas a minha família teve. O meu avô morreu de cancro do pulmão, outro familiar com cancro de pele e outro morreu com cancro do intestino e há um outro que faleceu com cancro, e acredito que tenha sido por causa disso. Lembro-me ainda que nos anos 60 quando o Japão organizou os jogos olímpicos eu ia casar, mas havia o boato de que quem se casasse com vitimas da bomba atómica ia ter filhos com problemas de saúde e eu fiquei muito preocupado, assim como todas as outras vitimas, e quando o meu filho nasceu fui logo ao hospital para saber se o meu filho tinha os 10 dedos.

Uma realidade também conhecida por Tsuchida Kazumi. Tem 76 anos, quando se deu o ataque a Hiroshima tinha apenas 4 anos.

"Lembro-me que era dia e a minha mãe tinha-me mandado ir buscar leite com uma outra vizinha e no caminho apanhei a bomba atómica e eu estava a 2km e meio do centro da explosão. Sei que desmaiei, mas depois não me lembro de nada. Quando acordei já estava tudo escuro, vi coisas queimadas na rua, uma nuvem grande, vi fogo. Mas consegui voltar a casa onde estava a minha família. Por sorte toda a minha família sobreviveu. Vi as árvores do jardim queimadas, mas consegui sobreviver. O meu pai estava noutro sítio, a 1,5 km do epicentro da explosão e ele consegui regressar a casa, mas estava muito ferido e nos dias que se seguiram ficou com a pele roxa e parecida com uma teia de aranha. Passados dois dias morreu.

As memórias são poucas.

"Eu tinha 4 anos quando isto aconteceu e não me lembro de muitos pormenores, o que sei é através do que a minha mãe me contava. Duas horas depois da explosão, num raio de 2 km e meio, tudo estava queimado, muitas pessoas fugiram do epicentro da bomba e já não conseguiam ver nada estava tudo preto e queimado, nem conseguiam saber se era homem ou mulher. Dizem que houve um grupo de estudantes que fugiram e quando passavam por casa da minha mãe tinham muita sede e a minha mãe deu-lhes água. Ela ainda recorda a cena de estar a dar água a pessoas completamente cobertas de negro".

Memórias que não se apagam e que fazem crescer a preocupação quando ouvem notícias sobre os testes balísticos da Coreia do Norte.

"Sinceramente, esta é uma grande preocupação para os japoneses e penso que para todo o mundo. Também é preciso perceber que país é a Coreia do Norte, nós não temos muitas informações, que tipo de pessoa é o Kim Jong-un, neste momento está a fazer vários ensaios para lançar mísseis e a preocupação, sinceramente é se estes ensaios não correm bem e atingem o Japão, que está muito próximo. Essa é a minha maior preocupação"

A posição do presidente dos Estados Unidos, que em campanha defendeu a adoção de armas nucleares, também merece críticas de Mise Seiichiro "O que sofremos e o que pensamos durante 72 anos é que a paz não vai ser criada através de armas nucleares. O presidente do Estados Unidos sempre disse que o país está em primeiro, à frente de tudo, mas na minha opinião a paz é que está em 1º lugar".

Com receio de que possa existir uma terceira Guerra Mundial e de que aquilo que viveram há 72 anos possa ser esquecido, este sobrevivente de Nagasaki sublinha que as armas nucleares são cada vez mais potentes.

"A minha maior preocupação é saber que hoje em dia as armas nucleares têm centenas de vezes mais potência do que as usadas em Nagasaki e Hiroshima. Imaginemos se alguém utilizar isto, pro exemplo, para Portugal. Temos que ter medo. É preciso abandonar este tipo de armas, com a máxima urgência e com todo o empenho".

Mise Seiichiro e Tsuchida Kazumi chegaram a Portugal a bordo do "Barco da Paz", no dia 15 de junho vão ser recebidos na sede das Nações Unidas. O "Barco da Paz" é um projeto promovido pela associação Iniciativas para o Desarmamento Nuclear, esta manhã estiveram no Porto.

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