Corpo e voz de mulher, mas não o era. As dificuldades de quem procura a verdadeira identidade

Se hoje há adultos que marcham com bandeiras com as cores do arco-íris, ontem eram crianças a descobrir a sua identidade. Para os casos mais difíceis, a Casa Qui é um porto de abrigo.

Esta entrevista decorreu num jardim, ao ar livre, porque fechado já ele esteve durante tantos anos, preso a um corpo que não era seu e que não queria.

Não quer revelar o nome, mas destapou algo mais importante: a sua história, os momentos que diz que lhe "chegam para uma vida".

Nasceu homem num corpo de mulher. "Era doloroso", por isso guardou só para si o que sentia, durante anos. Quando finalmente ganhou coragem para assumir quem era, fê-lo em jeito de carta, "sabia que não ia ter voz para dizer uma palavra que fosse". A mãe leu essa carta e aceitou, mas essa aceitação só durou três meses.

"Em junho, acho que as coisas mudaram porque o meu irmão não aceita, então ela foi pela cabeça dele e expulsaram-me de casa. E eu tive que sair. Entretanto tive que voltar [para casa da mãe], ela insistiu para eu voltar, eu não queria, não faz sentido, ela expulsou-me de casa, mas voltei. Decidi voltar e fazer de tudo para sair em breve".

O próximo passo foi procurar ajuda. E é aí que surge a Casa Qui, como a alternativa económica de encontrar apoio psicológico. "Eu estava a precisar imenso de ajuda psicológica. Eu estava um caos. De zero a 10, eu era um sete, quase um oito de caos", revela.

A Casa Qui ajudou-o na fase de coming out, de assumir quem se é realmente. Até então "só navegava na internet porque ninguém fala disto".

"Achavam que eu queria ser travesti"

No entanto, essa não foi a fase mais difícil do processo. Esbarrar com a realidade do pós-coming out foi o mais doloroso. "Achavam que eu queria ser travesti, a minha mãe perguntou-me "Queres tirar o peito?", comparou a minha transição a uma doença, chamaram-me toxicodependente e disseram que esta ideia foi-me posta na cabeça pelos outros."

Até iniciar o processo de transição os sorrisos eram artificiais, porque "sentia que os meus amigos não me viam como um deles, lá está: para eles eu tinha um corpo feminino e uma voz feminina, então tinha de ser isso obrigatoriamente. E não era. Por exemplo, no dia em que me veio a menstruação pela primeira vez eu só me lembro de perguntar a mim próprio "Porque é que os meus amigos não têm isto, e eu tenho?", conta.

O receio de ser maltratado pela sociedade era constante, admite que ainda o é. "Tinha medo de não ser aceite e que as pessoas me maltratassem. E, muitas vezes, isso aconteceu."

No processo de transição, a espera por uma intervenção no Serviço Público é demorada. A marginalização por parte da sociedade, em simultâneo com esta longa espera para poder mudar o exterior para o que já se é por dentro, pode levar ao desespero. E o desespero pode dar origem a decisões irreversíveis.

"O suicídio na comunidade é tão normal que assusta. Muitos já ponderaram essa hipótese. É horrível, eu sei. Por exemplo, um amigo meu que se suicidou, a família só o apoiou [a transexualidade] quando ele já estava num caixão. E isso não faz sentido, têm é de nos apoiar enquanto estamos aqui".

Apesar adjetivar a sociedade de preconceituosa reconhece que há exceções. Viu essas exceções porque criou no Facebook uma página em que pedia doações de dinheiro para poder fazer as operações para se tornar verdadeiramente um homem. Sorri ao dizer que utilizou o online para fazer um peditório para ser ele próprio. "E, felizmente, estou a ser acompanhado no privado, que é muito mais rápido. No dia que tudo isto acabar, mais do que felicidade, eu vou sentir alívio."

A Casa Qui

Rita Paulos, diretora da Casa Qui, uma Associação de Solidariedade Social especializada em questões de igualdade de género, orientação sexual ou expressão sexual garante que são muitos os casos que lhe passam pelas mãos. "Uns mais complicados do que outros, mas na origem dos problemas está muitas vezes o preconceito. E o preconceito é transversal", afirma.

Rita Paulos já trabalha na área da juventude LGBTI há praticamente 20 anos, reconhece que o dia-a-dia não é inclusivo. "São pequenas coisas, por exemplo, reconhecer os afetos e a diversidade que existe; bastava perguntar ao jovem "tens alguém?", em vez de especificar o género, e até mesmo na informação de práticas sobre sexo seguro, as práticas são transversais, logo é preciso incluir todos", esclarece.

E se sociedade não é inclusiva e manifesta preconceito é, no entender de Rita Paulos, porque há desconhecimento sobre este tema. E o desconhecimento comprova que "não há formação para lidar com crianças e jovens LGBTI. E o que nós [especialistas no tema] temos de fazer é justamente garantir que quem está no terreno a trabalhar estas questões tenham as ferramentas e as competências para isso".

A Diretora da Casa Qui garante que a formação é essencial, porque lidar com crianças e jovens LGBTI requer outro tipo de cuidados, "não é como outra questão qualquer. Muitas vezes há a ideia que são crianças como outras quaisquer, mas não. Há muitas especificidades, a abordagem sobre certos temas pode ter de ser um bocadinho diferente daquilo que se costuma fazer com outros grupos."

Graças ao apoio dado pela Casa Qui, são muitos os jovens que hoje sabem lidar consigo mesmos. Rita Paulos reconhece isso, mas afirma que "não salvamos ninguém, o que fazemos é procurar as ferramentas para ajudar aquela criança ou aquele jovem para ficar numa situação de segurança e de bem-estar. E tudo isto num processo de autonomia, de empoderamento."

Ainda assim, o papel da família, indica Rita Paulos, é essencial e insubstituível nestes casos. "É preciso não esquecer que a família é, geralmente, a base do afeto. E a rejeição por parte da família pode ser das coisas mais dolorosas que pode acontecer a uma pessoa."

Ao longo de 20 anos de carreira, Rita Paulos constata ainda que nos casos mais graves de desespero "basta um adulto estar lá presente e mostrar que apoia para fazer toda a diferença. As pessoas que não subestimem o poder que podem ter como uma figura de referência. E pode ser um psicólogo; uma psicóloga; um professor; uma professora; um amigo; um tio; uma avó que, no meio daquele caos, agarre a criança ou o jovem e ajude a sair daquele inferno."

A TSF leu algumas das mensagens que alguns jovens LGBTI escreveram sobre o que estão a sentir:

- "Contei aos meus pais que a pessoa com quem vivo há alguns anos é a pessoa de quem gosto. Eu sabia que ia ser complicado, mas foi devastador. Desde insultos, intenções de me prender e ameaças de morte."

- "Em relação aos meus pais, esta questão sempre foi vista como uma vergonha, um nojo e como se eu fosse a ovelha negra da família. A Casa Qui tem sido essencial para saber lidar com os insultos."

- "Sou um rapaz trans de uma zona pequena, tive ajuda da Casa Qui no meu coming out. Tenho orgulho de ser Trans e agora sou feliz."

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