"Uma Vida na Linha" - História(s) dos guardas de passagem de nível

Já foram, nos anos 60, quase 1700, mas hoje só há 98 guardas de passagem de nível. E não vão passar muitos anos até que deixem de existir. Quem são estas mulheres e, muito poucos, homens?

Quem nunca teve de parar perante uma cancela fechada? Até que o comboio passasse a bandeira vermelha, enrolada, sinal de que a passagem estava livre, não baixava e não íamos a lado algum. Ficávamos ali, à espera. Depois a mulher, era quase sempre uma mulher, rodava aquela manivela grande que levantava as cancelas e a vida retomava o ritmo normal. Ela seguia para uma casa pequena e de aspeto muito humilde, quase sempre de madeira, e nós íamos à nossa vida.

O recurso ao pretérito perfeito não é premonição nem pressa, os guardas de passagem de nível têm o fim anunciado. Sim, ainda há alguns, 98, para ser preciso. 94 mulheres e quatro homens. Mas a própria Infraestruturas de Portugal (IP) admite que "a guarda de passagem de nível no futuro não fará sentido".

"Uma vida na linha" procura contar a história daquela mulher que tantas vezes viu ao lado da casa de madeira, ou de bandeira na mão, fizesse chuva ou sol, calor ou frio. Fosse dia ou noite. São relatos de um outro tempo, onde os abrigos não tinham casa de banho, nem sequer água, mas também de como hoje isso faz parte do passado. A IP tem dormitórios, instalações sociais, onde várias guardas, mulheres e homens, passam as noites em que não conseguem ir a casa. A "verdadeira" e não aquela emprestada.

Numa viagem entre S. João da Madeira, Arcozelo, Bombarral e Lisboa, entre a Linha do Vouga e a do Norte, Irene, Maria, Rosa e José contam como é estar em casa, de folga, e sonhar "que as cancelas estão abertas e o comboio está a passar". Ou como apesar, ou precisamente por isso, de trabalharem na linha compraram toda a vida casas próprias junto ao caminho-de-ferro. Ou ainda como "está na hora de ir embora" porque caso contrário qualquer dia já não dá para subir ao primeiro andar da casa que se construiu com o dinheiro ganho.

São histórias de uma vida dura, solitária, de grande responsabilidade e muito poucas vezes reconhecida. Mas são também relatos de amor. Amor e dedicação a uma profissão, a um modo de vida.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de