Viajar em contramão. Eles trocaram o sofá por uma mochila

Deixar o conforto de casa para correr atrás da aventura e do desconhecido? Mostramos-lhe três casais que fizeram ou vão fazer das suas viagens pontos de viragem nas próprias vidas. Ao longo dos próximos meses, a TSF também vai embarcar numa destas aventuras, sem olhar para o relógio, a bordo da autocaravana da Carolina e do Pedro.

O pequeno André mal tinha cidadania e já era cidadão do mundo. Os pais, Carolina Quina e André Carvalho, partiram, em 2017, para uma aventura como a de "Os cinco" pela Ásia, Austrália e Nova Zelândia, com os três filhos pequenos. A rotina de um emprego de 16 anos pesava, o chão de Portugal tornava-se escorregadio demais para a vontade firme de guardar mundo nas mãos de Leonor, de oito anos, de Pedro, com cinco, e do bebé, André como o pai, chegado há poucos meses. Ter os pés na Terra levou-os a vender a casa e deixar a vida, povoada das trivialidades de primeiro mundo, em suspenso.

"Qual foi o país de que tu gostaste mais?", pergunta Carolina à filha. A resposta vem pronta: "Não sei, eu gostei de todos". E a mãe lá insiste. "Mas diz-me um, escolhe um." Leonor não sabe, talvez da Austrália. "E tu, Pedro?", interroga a matriarca. "Eu gostei mais... Já não me lembro bem de como se diz, mas é o... a Tailândia, sim! E também foi... a Tailândia e o Vietname", lá atira o filho do meio. Pedro tem dificuldades em lembrar-se dos nomes, porque foram as experiências que mais lhe ficaram na memória. Se pudesse, voava de novo, desta vez, para uma "viagem de um ano".

Pedro não soube contabilizar, mas, da última vez, passou oito meses entre montanhas, praias, lagos, barreiras de coral e florestas de países distantes. "Foi uma aprendizagem para os três [filhos], porque mesmo o mais pequeno, que não se recorda de onde esteve, fala quase diariamente em ir apanhar o avião para as outras casas, como ele diz", graceja Carolina Quina.

O roteiro começou na Tailândia, onde permaneceram durante um mês e meio. Depois, palmilharam a Austrália, desde Melbourne e a zona sul, até Great Ocean Road, pela estrada fora até chegar a Sidney, na costa este, e mergulhar em Byron Bay, a grande barreira de coral. Seguiram-se três semanas na Tasmânia, para aprender que também a terra pode pintar-se de muitas cores.

Para André Carvalho, agora com 41 anos, todos deveriam usufruir de uma experiência de descoberta semelhante. A oportunidade de levar "uma vida descomprometida nos confins da Nova Zelândia", onde a autocaravana foi a casa que lhes abriu caminho, faz parte de um espólio de memórias que a família eterniza no blogue Blue Olive .

Bali, na Indonésia, é outra das páginas vivas e digitais de uma história de perder o norte para ganhar o sul. Seguiram-se o Vietname, por três semanas, Hong-Kong, Macau e o Japão, país do sol nascente, e na linha do horizonte perdiam-se as contas às dezenas de milhares de euros investidos para perder o apego à terra e ganhar amor às novas raízes.

André Carvalho e Carolina Quina chegaram ao país mais populoso do mundo de metro. Para lá das fronteiras, conheceram uma China sem muralhas. "Os nossos filhos são os três muito loiros. Na rua, numa zona mais rural, as pessoas faziam filas para tirar fotografias com eles. Muitas vezes, eles tinham de se esconder, porque já não aguentavam", conta Carolina Quina à conversa com a TSF, feliz por constatar que os filhos passaram a ver o mundo de uma forma diferente. É preciso uma vila para criar uma criança, um país, um mundo, e o mundo também pode ser uma grande sala de aula.

"Só a Leonor estava em idade escolar na altura, no terceiro ano letivo, e fez ensino doméstico durante a viagem. Fomos acompanhados por uma professora, e tentámos ir seguindo o programa. Não vou dizer que foi fácil, mas acho que ela aprendeu mais diariamente com as coisas que fizemos durante a viagem do que com os livros", conclui a mãe.

Tomar os sentidos à Ásia em contramão

Leonor Matos e Manuel Bastos, ambos com 23 anos, namoram há mais de cinco. Tinham consciência de que não ia ser fácil. "Já sabíamos que não ia ser pera doce para nós, enquanto casal. O cansaço também foi um desafio, porque, por vezes, ficávamos mais implicativos", admite Manuel Bastos à TSF.

Prometeram que não iriam ser os dois contra o mundo, mas os dois a sós com o mundo, a amar, tal qual o verso de Cesariny, "Como a estrada começa". Partiram do Porto em setembro de 2018, porque os cursos de ciências da comunicação e de gestão não lhes bastavam: para mudar, é preciso conhecer.

"Demos por nós a sentir-nos pequeninos. A sensação de pequenez também aumenta numa multidão de um bilião de pessoas", sublinha Manuel Bastos, já regressado ao microcosmos português, bem menor que o universo que a Ásia lhes revelou. "Se queremos mudar o mundo, temos de começar por um país assim", completa o viajante que passou pela Índia, e também pela Tailândia, Myanmar e Laos.

No Laos, nem a barreira linguística calou os afetos entre o casal e as comunidades locais. "Fomos convidados para uma aldeia remota, sem eletricidade, sem pavimento nas ruas, sem saneamento. As casas eram todas de palha, como há centenas de anos", reaviva Manuel Bastos. Mas os rostos emoldurados por uma paisagem subdesenvolvida não são postais antigos para enviar aos amigos. Foram guardados em fotografias e no blogue Em Contramão , como recordação dos tempos sem tempo que os dois viveram.

Na Índia, as vivências variaram como uma tapeçaria oriental de várias cores, entre os tons terra e as tonalidades esfumadas. "Nova Deli foi logo o primeiro choque cultural, para além da poluição e do ar irrespirável. Na Índia não há planeamento urbano, não há passeios. As ruas são muito estreitas e são ocupadas por motas e carros", explica Manuel Bastos, que não deixou que as recordações da viagem de 110 dias saíssem ofuscadas pelas buzinas estridentes e pelas constelações de gente.

O charme dos lugares mais baratos e escondidos conquistou Leonor Matos e Manuel Bastos, que, entre os dois, gastaram 40 euros por dia, numa odisseia em contramão, mas sempre no sentido certo. "Fomos com o sabor da maré. Tínhamos uma rota definida, mas não seguimos à risca", assume o estudante de 23 anos, que quer fazer da experiência um desafio ao esquecimento e à ignorância através do voluntariado e da passagem de testemunho. "Temos tentado mostrar como foi o nosso percurso nos jardins-de-infância, centros culturais, para que as crianças percebam como é a vida do outro lado do mundo", conta à TSF o namorado de Leonor Matos.

A mudança de vida que cabe na mochila

A Pingu, autocaravana de Carolina Calçada e Pedro Cerqueira, já está a postos. Vai carregada de roupa, mantimentos e expectativas. Casados há um ano, querem atravessar países para desafiar as próprias fronteiras. "Para nós, esta viagem de seis meses vai ser um ponto de viragem. Quando regressarmos, não queremos continuar na vida que tínhamos. Queremos fazer desta viagem uma coisa positiva para que depois comecemos a concretizar alguns objetivos, como o de ter filhos, abrir uma empresa...", adianta Carolina Calçada à TSF.

A professora de educação física e o proprietário de um stand automóvel estão juntos desde os 15 anos, mas o processo de decisão não foi adolescente. Os Mochileiros, como se intitulam no Instagram e no Youtube , prepararam as famílias de ambos e delinearam um roteiro onde o improviso também é ponto cardeal. "Uma das grandes vantagens de viajar de autocaravana é que tudo o que é planeado pode ser tornado em improviso. Os planos são flexíveis, porque podemos deslocar-nos a qualquer altura. Não temos hotéis marcados, não temos viagens marcadas, por isso podemos estender ou encurtar estadias", explica Pedro Cerqueira, que revela ser o mais aventureiro.

O conta-quilómetros começa a contar já em abril, quando partem para uma descoberta em solo europeu que se estende dos países nórdicos às águas do Mediterrâneo. "Saímos em direção ao norte de Espanha. Queremos percorrer os Picos da Europa e os Pirinéus. Seguimos para Normandia, no norte de França, e vamos para o Reino Unido. Depois, visitamos a Escócia e percorremos a North Coast 500, uma estrada no extremo norte escocês. Descemos, em maio, para fazer a costa mediterrânica: sul de França, Itália, Eslovénia, Croácia, Albânia, Sérvia, Montenegro, e talvez a Grécia", delineia o marido de Carolina Calçada.

Os Mochileiros vão andar sobre rodas numa viagem em que perder as coordenadas pode significar reencontrar direções. A TSF vai acompanhar as odisseias do casal de Vila do Conde, para trazer o longe até perto de si.

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