Miguel Poiares Maduro

A verdade sobre as mentiras

Se vos disser que ao longo dos debates para as legislativas os diferentes líderes políticos fizeram pelo menos 34 afirmações manifestamente falsas estarei a ser populista ou a alertar para os riscos do populismo? Este número resulta dos fact checks realizados pelo Polígrafo, o órgão de comunicação social mais especializado em fact checking, ao longo dos diferentes debates. Está longe de ser um número certo, mas vários outros órgãos de comunicação social foram realizando fact checks que comprovam este padrão de comportamento.

Miguel Poiares Maduro

As ideias improváveis também devem ser debatidas

Os debates televisivos têm sido dominados por aquilo que já classifiquei de pontuação artística. Atribuem-se classificações e declaram-se vencedores e vencidos, sem sabermos bem com base em que critérios. É pela qualidade das ideias e propostas que apresentam? Pelo seu poder argumentativo? Como se determina este de forma independente face à nossa maior ou menor adesão aquilo que se argumenta? Ou é pela presumível eficácia na conquista do eleitorado? Mas se é esta, como se mede e a qual eleitorado se referem? Esta transformação dos debates numa espécie de competição desportiva não me parece ser de grande utilidade.

Miguel Poiares Maduro

A imprevisibilidade das eleições e o papel do Presidente

No seu discurso de ano novo o Presidente da República pediu previsibilidade após as próximas legislativas. Compreende-se a preocupação do Presidente com os riscos de uma eventual instabilidade política, se bem que, ao contrário do que se julga, Portugal nem seja dos países com mais instabilidade política na Europa (entendida como alterações frequentes de governo) e não pareça existir uma correlação clara entre instabilidade política e crescimento ou estagnação na Europa. Alguns dos países mais desenvolvidos na Europa ​​​​​​​têm níveis de instabilidade política bem mais elevados que os nossos, mas isso não afeta o seu desenvolvimento e crescimento. Isso deve-se, provavelmente, a beneficiarem de uma cultura política assente em instituições públicas capacitadas e independentes que asseguram a qualidade da governação para lá dos ciclos políticos mais curtos.

Miguel Poiares Maduro

Um passageiro e um ministro

Depois de resistir a tantos escândalos, foi quase com surpresa que recebemos a notícia da demissão do Ministro Eduardo Cabrita. Parece bastante claro, pelas primeiras declarações do Ministro após ser conhecida a acusação do Ministério Público ao seu motorista, que nem isso teria sido suficiente para o levar a demitir-se. Nesse momento, ele voltou a procurar apresentar-se como alguém totalmente estranho ao acidente que provocou a morte do trabalhador Nuno Santos. Era um "mero" passageiro do seu motorista e houve, na sua opinião, um atravessamento indevido da estrada. Estas afirmações chocaram o país pela falta de empatia para com o trabalhador morto e o próprio motorista e por insistirem na tese de que é totalmente estranho ao assunto, transferindo toda a responsabilidade para o motorista e a própria vítima.

Miguel Poiares Maduro

Tantos escândalos e nada

Na última semana, terminei a minha crónica sobre o papel do Comité Olímpico Internacional no escândalo relativo ao desaparecimento da tenista chinesa Peng Shuai, perguntando quantos escândalos desportivos serão necessários até finalmente fazermos algo para impor um mínimo de escrutínio e boa governação nas organizações desportivas. Estava longe de imaginar os acontecimentos desta semana. No sábado assistimos a uma página negra do futebol com o jogo entre o Benfica e a B-SAD a ter lugar, mesmo se esta equipa, devido à Covid, apenas poder alinhar com 9 jogadores (dois dos quais guarda-redes). Todos parecem criticar o que se passou, mas ninguém assume responsabilidade por um momento que nos deveria envergonhar a todos, independentemente do escândalo internacional que causou. Isto, na mesma semana em que tiveram lugar mais buscas relativas a uma investigação criminal que parece envolver a grande maioria dos clubes portugueses e também os seus responsáveis (atuais ou passados) e intermediários do futebol. Não conhecendo nada sobre os processos em causa não me pronuncio sobre eles, mas direi que dois dados alimentam as suspeitas em torno do nosso futebol. Por um lado, a concentração de poder e os fracos mecanismos de escrutínio e prevenção de conflitos de interesse nos clubes e sociedades desportivas. Por outro lado, o facto de um país e uma liga desta dimensão darem origem ao quarto maior volume de receitas com transferências no mundo. O nosso futebol devia ser tratado de acordo com a importância económica que tem, quer ao nível das condições que lhe devem ser oferecidas, quer ao nível da correspondente exigência a que devia estar sujeito.

Miguel Poiares Maduro

O que aconteceu aos valores olímpicos

Muitos de vós terão ouvido falar, nos últimos dias, do caso que envolve a tenista chinesa Peng Shuai. A tenista, uma das estrelas do circuito internacional de ténis, deixou de ser vista em público após ter acusado, numa rede social chinesa, um ex-vice primeiro-ministro chinês de a ter violado. O que escreveu foi imediatamente apagado e a tenista desapareceu. Perante o clamor internacional e o protesto de inúmeras tenistas, governos e organizações não-governamentais, um jornal, controlado pelo governo chinês, divulgou fotos da atleta e um comunicado, alegadamente escrito por ela, em que esta dizia estar bem. Sendo impossível apurar a veracidade da notícia ou sequer se a atleta estaria em condições de falar com liberdade, isso não diminuiu os protestos internacionais. Sucederam-se os apelos ao boicote dos Jogos Olímpicos de Inverno que irão ter lugar na China em Fevereiro.

Miguel Poiares Maduro

Os 50 anos da Sedes e a reforma da política

Sem bons cidadãos não existe uma boa democracia. Isso exige participação política, mas também, em termos mais amplos, participação cívica. Uma boa democracia alimenta-se de um ecossistema assente numa cidadania ativa e responsável. Esta comunidade de cidadãos interessados e participantes na coisa pública é o que, frequentemente, designamos de sociedade civil. Portugal é, reconhecidamente, um país com uma sociedade civil frágil e pouco autónoma. Uma das poucas exceções celebra este ano 50 anos. A SEDES (de que sou membro, ficando assim feito o registo de interesses) é uma das poucas associações cívicas que tem, ao longo dos anos, tido uma participação ativa no espaço público português, independente dos Partidos. Os 50 anos coincidem com uma fase de grande dinamismo incutido pela liderança de Álvaro Beleza e, no Conselho Científico, Abel Mateus. A SEDES tem vindo a preparar inúmeras propostas em domínios estratégicos para o país que deveriam merecer mais atenção e debate. Na semana passada foi apresentado o relatório do Grupo de Trabalho sobre a Reforma do Sistema Político, de que fui um dos coordenadores com Henrique Monteiro, João Bidouin e Luis Archer.