Timisoara: uma crónica de José Luís Peixoto

Timisoara: uma crónica de José Luís Peixoto

Em silêncio, os carros passam lá longe, sobre a ponte. Regressam a casa, terminam esta sexta-feira, terminam a semana. Há sempre alguma coisa que termina no outono e, por isso, esta hora é natural, a sua temperatura e o seu ritmo são adequados. Deixei a Praça Unirii, sob o olhar de edifícios elegantes e a indiferença de pombos atarefados com pequenos dilemas. Atravessei as ruas do centro, cruzei-me com gente, luz filtrada pelo céu, vitrinas de lojas a apresentarem produtos e, ao mesmo tempo, na longa superfície do vidro, a refletirem gente e luz. Escolhi o corredor longo e retilíneo […]

Lugar à janela: uma crónica de José Luís Peixoto

Lugar à janela: uma crónica de José Luís Peixoto

É uma viagem sem turbulência. Olho pela janela e, lá em baixo, vejo a Mongólia, planícies imensas de uma única cor. Este voo entre Chengdu e Amesterdão saiu à hora marcada, sem atraso, no início da manhã. Ao andarmos para trás na diferença horária, contra o tempo, resistindo‑lhe com os motores gigantes deste avião gigante, faremos toda a viagem durante o dia. Somos centenas de pessoas, uma maioria de chineses a falar alto. Se continuássemos sempre nesta direção, se o combustível nunca acabasse, talvez conseguíssemos contrariar a passagem do tempo para sempre, talvez nunca envelhecêssemos e, por consequência, nunca evoluíssemos. […]

Taiyuan: uma crónica de José Luís Peixoto

Taiyuan: uma crónica de José Luís Peixoto

Nunca tinha ouvido falar em Taiyuan, não sabia como se pronunciava. Nunca tinha ouvido falar dessa cidade com quase cinco milhões de habitantes, capital da província de Shanxi, nunca tinha ouvido falar dessa província. As Festas do Barco do Dragão ocupam três feriados e, no último dia, um domingo, eu precisava de viajar entre Pingyao e Pequim. As multidões são um dos aspetos que impressionam a maioria dos estrangeiros que visitam a China. Os olhos enchem-se de gente de todas as idades, os ouvidos acostumam-se ao rugido permanente de centenas ou milhares de vozes misturadas. Nesse domingo de junho, os […]

Uma taça cheia de manhã: uma crónica de José Luís Peixoto

Uma taça cheia de manhã: uma crónica de José Luís Peixoto

A Praça Aristóteles era como uma taça cheia de manhã. O céu, imenso sobre o mar Egeu, entornava-se nas fachadas brancas da praça. A partir do interior desse céu, nasciam pombos, atravessavam o ar impregnado de sal e desciam até às pedras do chão, procuravam migalhas, contornavam pernas de gente que ia a algum lugar ou que, talvez, apenas aproveitasse o tamanho daquele anfiteatro diante do mar, aquela liberdade. Eram também assim as crianças que corriam, sozinhas ou em grupos revolteados, pedalavam em pequenas bicicletas, trepavam à estátua de Aristóteles e sentavam-se a seu lado, paradas a olhar para a […]

O outro lado: uma crónica de José Luís Peixoto

O outro lado: uma crónica de José Luís Peixoto

São manchas de cores limpas. As formas do que existe lá fora desfazem-se no vapor que embacia o vidro, como se as cores tivessem extravasado os contornos, demasiado baixos, incapazes de conter aquela força líquida. Aqui, deste lado, há mulheres de biquíni, são muito loiras. Os seus cabelos molhados parecem uma massa lisa e descolorida. São mulheres bonitas nas suas diversas idades: avós que falam raramente, que se exprimem numa língua de consoantes afiadas; mães de família, talvez quarenta ou cinquenta anos, com um sorriso brando, a apreciarem este tempo de folga; e mulheres casadas ou solteiras, com ou sem […]

«O meu filho mais velho fez a barba pela primeira vez»: uma crónica de José Luís Peixoto

«O meu filho mais velho fez a barba pela primeira vez»: uma crónica de José Luís Peixoto

Fazer a barba em Las Vegas Cheirava a 7-Eleven. A luz era demasiado branca e, por isso, mostrava todas as pequenas sujidades mal varridas, esquecidas em cantos, entre armários e parede. O chão refletia as lâmpadas em grandes poças de luz; por isso, iluminavam a partir do teto e a partir do chão. Metade dos americanos estavam bêbados. Tentei interessar o meu filho mais velho pela compra das lâminas de barbear. Mesmo naquele pequeno 7-Eleven, todos os produtos existiam em meia dúzia de opções, pelo menos – é assim a América. Mas já era quase meia-noite – cedo para alguns, […]

Dois homens nus: uma crónica de José Luís Peixoto

Dois homens nus: uma crónica de José Luís Peixoto

Às segundas‑feiras, há pouca gente nos banhos públicos de Tbilisi. Explicaram‑me que, na secção dos homens, as maiores enchentes são nas manhãs de sábado e de domingo. Há muitos georgianos que gostam de curar as ressacas com água sulfúrica, vapor e massagens. Hello, disse‑me a mulher da receção, falando mais com o sorriso do que com essa palavra. Então, digitando números numa calculadora, explicou‑me que o banho, numa divisão individual, e a massagem completa ficaria em 85 lari. Aceitei e segui‑a por corredores a cheirarem a enxofre, passando por salas de tetos redondos, côncavos, interiores dos telhados em semiesferas que […]

Antuérpia: uma crónica de José Luís Peixoto

Antuérpia: uma crónica de José Luís Peixoto

Caminho pelas ruas com a minha nova máquina fotográfica. São ruas de casas altas, telhados bicudos e flamengos. Passo por gente a falar outra língua. Não entendem as minhas palavras e por isso quase acredito que não entenderiam os meus pensamentos. Agrada-me imaginar que consigo ver mas que ninguém me vê a mim, pertenço a um mundo fora do mundo. Olho em volta: a rua, as sombras. Lá ao fundo, uma estátua parada; lá mais ao fundo, aproxima-se a noite e a chuva. Escolho detalhes e aponto-lhes a máquina: um cão sozinho no passeio. E, logo a seguir, no quadrado […]