Miguel Poiares Maduro

Quem mostra o cartão vermelho ao futebol

O futebol é muito mais que um jogo, é uma frase famosa. Esta semana confirmámos isso de formas muito diferentes. Ontem assisti com entusiasmo à vitória italiana no Euro, o país que aprendi a amar durante os mais de doze anos que lá vivi. O país que subitamente representava a Europa na final que muitos transformaram num novo referendo ao Brexit. Mas também um país que, tal como nós, aprendeu a perceber que os melhores cidadãos são, por vezes, aqueles que escolhem essa cidadania, como Jorginho por lá ou Pepe entre nós. O futebol ensina-nos estas boas lições, para lá do jogo. Mas também tem muito de mau para lá do jogo. Foi o que também confirmámos esta semana com o processo em redor de Luís Filipe Vieira.

Miguel Poiares Maduro

O que o Lisbongate revela da nossa democracia

Se há tema em que tenho insistido ultimamente é a fraca qualidade da nossa democracia. Não há dúvida que somos uma democracia, mas a nossa cultura política democrática tem sérios problemas. É o que os mais recentes indicadores internacionais revelam. Mas é também aquilo que nos ensina o escândalo desta semana. A entrega, pela Câmara Municipal de Lisboa, de dados pessoais de ativistas da oposição à embaixada e governo russos é, para além de tudo o resto, uma demonstração de quão incompleta é a nossa cultura democrática.

Miguel Poiares Maduro

Um silêncio ensurdecedor

Mais de uma semana depois da decisão do Juiz Ivo Rosa no âmbito daquele que é talvez o processo judicial mais importante da nossa democracia, e que expõe os problemas dessa democracia, há um silêncio que se estranha, mas que, infelizmente, nalguns se entranha. O primeiro-ministro não tem nada a dizer. Invoca que se deve deixar à justiça o que é da justiça. Eu não quero que António Costa decida se José Sócrates é ou não culpado. É verdade que a única coisa em que o Ministério Público e o Juiz Ivo Rosa parecem concordar é que José Sócrates é corrupto e vendeu (mercadejou na expressão do Juiz Ivo Rosa) o seu poder e influência enquanto primeiro-ministro. Divergem "apenas" (e este apenas é de enorme importância) sobre quem o corrompeu ou, por outras palavras, sobre a quem vendeu o seu poder e influência. Mas a avaliação judicial da conduta que os factos revelam está longe de estar concluída. Há, no entanto, um juízo ético que já podia e devia ter sido feito com base nos factos conhecidos. Era obrigação do primeiro-ministro tê-lo feito.

Miguel Poiares Maduro

Virtudes privadas e vícios públicos

Começo com uma das melhores cenas do filme "O Padrinho", de Francis Ford Coppola. Um homem, que até então tinha vivido sempre na legalidade e afastado da Máfia, pede ao Padrinho (a personagem de Marlon Brando) que faça justiça para a sua filha, matando os homens que a violaram e deixaram desfigurada. Quando pergunta a Brandon quanto dinheiro pretende para fazer isso, este ofende-se e responde-lhe: "Não te farei isso por dinheiro, far-te-ei isso por justiça e se me o pedes como amigo". O outro personagem pede-lhe então a sua amizade e Brandon conclui dizendo: "Um dia, e esse dia pode nunca chegar, posso vir a pedir-te um favor, mas, até esse dia, aceita o que vou fazer por ti como um ato de justiça". Esta cena revela que, ao contrário de como é frequentemente tratada entre nós, a corrupção raramente resulta de contrapartidas diretas. Ela resulta, muito mais frequentemente, de relações de dependência que se criam.

Miguel Poiares Maduro

Gastar mal, em vez de investir bem

No filme Fight Club, a certa altura, um dos personagens diz que "compramos coisas de que não necessitamos, com dinheiro que não temos para agradar a pessoas de que não gostamos". Esta frase veio-me à memória ao ler um artigo do Politico, o principal jornal europeu, que descrevia de forma embaraçante alguns dos gastos com que a presidência portuguesa da União Europeia pretende "agradar" à Europa. Esses gastos são apresentados como supérfluos e incompreensíveis, em particular, mas não apenas, no quadro de uma presidência que, em virtude da pandemia, irá ter poucas ou nenhumas reuniões presenciais. É importante dizer que não é incomum os países oferecerem pequenas lembranças simbólicas, como uma gravata ou um lenço, com o logo da sua presidência. O que chocou o jornal europeu foi, não apenas a dimensão dessas despesas, mas a sua natureza. Algumas são apresentadas como incompreensíveis: fatos para motoristas, por ex., quando é de supor que os motoristas do Estado já os têm. Outras são despesas supérfluas que, num contexto de crise económica e social, são difíceis de justificar. E existem ainda despesas que se tornaram totalmente desnecessárias face ao facto de a presidência ter deixado de ser, em boa medida, presencial.