As corredoras

Às cinco da manhã, já as corredoras saem dos intermitentes autocarros, aceleradas pela estafa que é o seu combustível diário. Estafa é a palavra mais ajustada ao modo como elas atravessam a noite. A palavra estafa parece conter a ideia de cansaço e a de corrida. As corredoras saem em magotes do 706 e precipitam-se para a outra margem, correndo sempre, numa diagonal à Estrada da Luz, em obstinada estafeta. Passa um motociclista insano desafiando radares, gritam-lhe um impropério e estugam o passo. Não podem perder o 750, que vai de Algés ao Oriente. Hão-de passar a Azinhaga das Galhardas e o Pote de Água. Não se demoram nos mistérios da toponímia. Em nada se demoram, salvo no afã de chegar. Não saberiam trautear a Canção da Paciência do Zeca, mesmo se "a vida não presta para sonhar". O mundo delas é um fio de ruas numa cidade vasta e escura. É no mais fundo dessa escuridão que acendem os dias, correndo para não perderem o 706 e, logo a seguir, o 750, números prodigiosos da sua sina. Lá vem ele, faça um braço o sinal de stop e vá, o outro, ao peito afagando alento.

Boris no aviário

A imagem de Boris mimando a galinha de Gales é uma frenética canção de embalar. Ele mima e acocora num momento em que os produtores de aves britânicos temem o ataque do frango clorado, o frango barrado com uma solução anti-microbiana considerada eficaz para travar bactérias como a salmonela. Mimar e acocorar são conjugações sinónimas. Lá está, nas fotos de aviário, Boris em acção, ora mimando galinhas poedeiras, ora de cócoras, pisando a palha com protecção de plástico azul.

De gola alta e colarinho branco

Mal o dia clareava, já os clientes madrugadores, cotovelos apoiados no balcão da pastelaria, faziam gala em aprimorar dichotes afogueados sobre o caso das golas. "Então, lá degolaram o padeiro..." disse um tipo sanguíneo com voz de trombone, presumindo que o gracejo o firmava em alcândora respeitável, do mesmo passo que os antecedentes profissionais do adjunto caído em desgraça lhe retirariam qualquer resquício de protecção civil. Da gola alta ao colarinho branco vai um palmo de língua afiada.

O dentro e o fora das palavras

Ando há uns dias a pensar no que poderei dizer ao meu neto Pedro, de 6 anos, se ele retomar comigo um diálogo que manteve recentemente com a mãe. Tendo ele interpelado três ou quatro vezes o primo mais novo usando a palavra "puto" ("ó puto, vem cá ver isto", "ó puto, chuta a bola para este lado", "ó puto isto", "ó puto aquilo"), a mãe observou que, estando para breve a entrada dele na escola, deveria acautelar o uso da expressão, quando estivesse com meninas. Porque, caso contrário, estaria a dizer uma palavra muito feia. Ele fez uma breve pausa e respondeu "Mas, por fora, não parece nada". Ele costuma perguntar, também, como é que uma dada palavra se tornou tão feia.

As perguntas

Uma professora da Póvoa de Lanhoso alertou o Iave para "um erro grave" na pergunta 6.2.1 do exame: "a pergunta não tem resposta". Quer isso dizer que a pergunta conduz a uma resposta que ainda pergunta? Antes fosse isso, pois isso nos conduziria a uma arte da pergunta. Isso nos conduziria a um ponto central da tese de José Tolentino Mendonça, no livro "O pequeno caminho das grandes perguntas": "Há um momento em que percebemos que as perguntas nos deixam mais perto do sentido, da abertura do sentido, do que as respostas".

Duas perguntas

O homem de Roda tem 80 anos, acaba de ficar despojado de tudo o que tinha, o fogo destruiu-lhe um camião, tratores, alfaias, os gestos sugerem que perdeu o sentido dos caminhos, corpo e alma abalroados na estrada de fogo. Fala com o repórter da SIC como se fossem vizinhos ou caminhantes, numa encruzilhada de pesadelo. O repórter regista, com um critério que não dispensa o pudor, os escombros daquela fala humana, tão digna no seu desamparo. A dado momento, como se declinasse um verbo de irremediável desolação, o homem formula uma das duas perguntas que me inquietam desde ontem: "Que hei-de fazer?". Três vezes, a paradoxal pergunta de um homem habitado pela sageza. "Que hei-de fazer?".