Biologia

Rato-gafanhoto é insensível a veneno de escorpião e come-os (vídeo)

A descoberta, publicada na revista Science, tem potencial para ajudar no desenvolvimento de novos analgésicos e antídotos contra o veneno de escorpião.

De um lado está o Onychomys torridus, um pequeno roedor que não vai além dos 12,5 centímetros e mais parece um peluche inofensivo. Do outro, o Centruroides sculpturatus um escorpião de cor amarela, de sete centímetros e que tem uma das picadas mais dolorosas e que pode até ser mortal.

Na luta entre os dois, estranhe-se, mas quem ganha é o rato e tudo por causa da evolução da espécie.

De acordo com um estudo publicado pela revista Science, o pequeno roedor desenvolveu uma insensibilidade aos efeitos da picada deste escorpião, o que lhe permite alimentar-se deste aracnídeo.

Este traço biológico do pequeno rato-gafanhoto norte-americano tem o potencial de não só ajudar os investigadores a desenvolver novos tratamentos contra a dor, mas também ajudar na criação de antídotos contra este tipo de escorpião.

Segundo explica o estudo, é raro assistir-se a este tipo de evolução que neutraliza o mecanismo da dor que permite proteger o corpo de agressões externas ou identificar doenças.

Para perceber como é que este mecanismo funciona, os investigadores estudaram o efeito do veneno do escorpião noutras espécies de ratos desprovidos deste mecanismo biológico.

O veneno deste tipo de escorpião contém neurotoxinas poderosas que atuam sobre o sistema nervoso central e no sistema cardio-vascular, provocando contrações musculares intensas e insuficiência respiratória.

Os testes revelaram que as toxinas do veneno do escorpião ativam alguns recetores da dor nos ratos, como em todos os mamíferos, fazendo-os reagir à dor. No entanto, no rato-gafanhoto essas toxinas neutralizam os mesmos receptores.

Os investigadores detetaram que o rato-gafanhoto tem um recetor, resultante de uma mutação, que produz um tipo de aminoácido capaz de se ligar à toxina do veneno e neutralizar todos os outros neurónios recetores da dor.

Mais do que à dor da ferroada do escorpião, o rato -gafanhoto parece ficar imune, temporariamente, a qualquer tipo de dor, adiantam os investigadores. Isto permite ao rato não só vencer o escorpião numa luta mas tornar-se no seu predador.

De acordo com Ashlee Rowe , uma das autoras do estudo, esta capacidade do rato-gafanhoto é uma exceção e, por isso, levanta questões.

Afinal, a dor é um mecanismo de defesa que nos permite evitar estímulos que, em última análise, podem levar à morte. E «se estes roedores não respondessem à dor em geral, não sobreviveriam muito tempo no ambiente natural», lembra a investigadora.

Adianta a cientista que se se compreender melhor a forma como a toxina interage com os recetores da dor, essa informação pode ser usada como base para a criação de uma nova classe de analgésicos.