Óbito

Vítor Crespo: Um marinheiro na Revolução de Abril

Vítor Crespo foi o único oficial da marinha que integrou o núcleo duro de comando do golpe militar do 25 de Abril. Na noite da revolução, Vítor Crespo foi um dos oficiais que coordenou as operações do levantamento militar a partir do quartel da Pontinha. Teve, naturalmente, a seu cargo, fazer a ligação com os operacionais da marinha que participaram no golpe. Fez parte do grupo de redação do programa do Movimento das Forças Armadas, e foi membro do Conselho da Revolução.

Vítor Manuel Trigueiros Crespo nasceu a 21 de março de 1932, em Porto de Mós. Concluído o ensino secundário, ingressou na Escola Naval, com o objetivo de seguir as carreira de oficial da marinha. Mal rebentaram as guerras coloniais, no início da década de 60, Vítor Crespo foi mobilizado para várias comissões de serviço, quer em navios da marinha, quer nas instalações do ramo sobretudo nas ex-colónias da Guiné, Angola e Moçambique. Como militar distinto, Vítor Crespo foi galardoado em 26 de setembro de 1970 como cavaleiro da Ordem Militar de Avis. Representou a marinha portuguesa em múltiplas ações da NATO.

Integrou desde a origem o movimento dos militares que arquitetaram o golpe militar. Na noite da revolução, Vítor Crespo chegou à Pontinha por volta das 22 horas e 30 minutos, fardado de branco, e apenas reconheceu Otelo Saraiva de Carvalho. Por instantes mostrou-se perplexo, ao deparar-se apenas com outros quatro oficiais (Hugo dos Santos ainda não havia chegado), ele habituado que estava a frequentar centros de operações da NATO, com imensas cartas militares e inúmeros meios, onde nunca havia menos de meia centena de oficiais, e ali confrontava-se com um dispositivo mínimo, e um mapa do Automóvel Clube de Portugal afixado numa prancheta.

Mas rapidamente o capitão-tenente Vítor Crespo ocupou o único lugar reservado à marinha no posto de comando do Movimento das Forças Armadas instalado no quartel da Pontinha. A partir daqui, Vítor Crespo coordenou as operações reservadas ao seu ramo, quer na prevenção reservada às embarcações que a partir do mar estavam atribuídas àquele ramo, quer para as unidades militares que já integravam previamente o movimento revoltoso, e as que foram aderindo depois de concretizado o golpe.

«Os blindados ainda estão na rua»

Consumada a operação militar na madrugada de 25 de Abril, Vítor Crespo manteve-se no posto de comando do MFA, e às 11 horas da noite desse mesmo dia - 24 horas após o início do golpe - continuou no seu posto, organizando os preparativos para uma reunião entre a Junta de Salvação Nacional, entretanto constituída, e oficiais que estiveram ligados à redação do programa do Movimento das Forças Armadas. Participaram nessa reunião o tenente-coronel Franco Charais, o major Vítor Alves, o capitão Costa Martins, e o capitão-tenente Vítor Crespo.

A essa hora eram já notórias as divergências entre o general António de Spínola, primeira escolha do movimento para presidir à Junta de Salvação Nacional, e os operacionais do golpe militar. Spínola fez saber, nessa reunião, que era preciso rever o programa do MFA, texto que ainda uma hora antes havia aceitado perante os demais oficiais superiores convidados para integrarem a Junta de Salvação Nacional.

A tensão crescia entre o grupo que participava nesta reunião quando, tomando a palavra, o capitão-tenente Vítor Crespo, voltando-se para o general António de Spínola, lhe diz, olhos nos olhos: «Os blindados e tropas ainda estão na rua; se for preciso continua-se com o golpe». Spínola percebeu a ameaça, e não insistiu mais na sua proposta...

A reunião prosseguiu os trabalhos, tendo aprovado ali mesmo os primeiros diplomas legais de destituição do regime deposto e de legitimação do poder revolucionário. Tratou-se da Lei n.º 1/74, que destituiu das funções o Presidente da República e o Governo, dissolveu a Assembleia Nacional e o Conselho de Estado, e determinou que todos os poderes atribuídos àqueles órgãos passassem a ser exercidos pela Junta de Salvação Nacional.

Proclamação da Junta de Salvação Nacional

Só às 2 horas da madrugada do dia 26 de abril foi lida aos microfones da rádio a proclamação da Junta de Salvação Nacional. Terminada esta proclamação, a cargo do general António de Spínola, todos os membros da JSN regressaram ao regimento de engenharia da Pontinha, para nova reunião com os representantes do grupo de redação do programa do MFA, neste caso Franco Charais, Vítor Alves e Vítor Crespo.

A reunião foi tensa, e só terminou às 7 horas, quando Vítor Crespo convenceu os seus dois colegas a aceitarem as exigências de António de Spínola e Costa Gomes em relação à retirada do texto inicial das referências ao futuro das ex-colónias, onde se consagrava o «claro reconhecimento dos povos à autodeterminação e independência», e foi anunciada a reorganização da PIDE/DGS no ultramar, que passaria a designar-se "polícia de informação militar".

Convocada uma conferência de imprensa para o quartel da Pontinha, às 7 horas e 30 minutos desse mesmo dia, o major Vítor Alves, acompanhado de Vítor Crespo e Franco Charais, deu a conhecer aos jornalistas a nova redação do programa do Movimento das Forças Armadas, que acolheu as alterações referentes à independência das ex-colónias e à nova designação e funções da PIDE/DGS nos territórios ultramarinos.

Depois do golpe militar, Vítor Crespo foi nomeado Alto Comissario e Comandante-Chefe em Moçambique, para onde seguiu mandatado para conduzir no terreno o processo de independência, daquela ex-colónia, e correspondente transferência de poderes, o que se concretizou a 25 de Junho de 1975, com a FRELIMO a assumir a condução política do novo país . Em 11 de Março desse mesmo ano Vítor Crespo passou a integrar o Conselho da Revolução, cargo que ocupou até à extinção daquele órgão. Entre setembro de 1975 e julho de 1976 foi ministro da cooperação do governo chefiado pelo almirante Pinheiro de Azevedo.

Ao longo da sua carreira, Vítor Crespo foi agraciado com múltiplas condecorações, nacionais e estrangeiras. Depois da revolução, a primeira que recebeu foi a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade em 24 de setembro de 1983, tendo sido de novo agraciado em 21 de novembro de 2005 com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Promovido a almirante, as suas últimas funções foram as de diretor da biblioteca da Marinha.

(Fontes consultadas em janeiro de 2014: citi.pt; caminhosdamemória.wordpress.com; wikipedia.org; 25deabril.org; petrinus.com.sapo.pt; ci.uc.pt)