Rangel, o homem que mudou o jornalismo português

Emídio Rangel fica para sempre ligado à história da TSF e da rádio em Portugal. Mudou a forma de fazer jornalismo, num caminho que seria depois feito na televisão.

Nos 20 anos desta estação, diria que a TSF foi «a vitória do sonho. A vitória daqueles que acreditavam que o pântano em que vivíamos não era lugar de destino», porque era preciso dar voz à liberdade. Palavras de Emídio Rangel, à conversa com a jornalista Teresa Dias Mendes, na última entrevista que deu em abril, a propósito dos 40 anos da Revolução dos Cravos.

Na altura, em 1974, Rangel ainda vivia em Angola. Estava por acaso, em Lisboa, de férias, onde na noite de 24 de abril se tinha deitado tarde, depois de ver o filme «A Golpada», no Cinema São Jorge.

A rádio, a paixão da rádio, tinha começado cedo. Aos 18 anos, Emídio Rangel começou a trabalhar no Rádio Clube de Huila, em Angola. Passou depois por Luanda, na Rádio Comercial de Angola, onde foi chefe dos serviços de produção.

Mas em 1975, é obrigado a fugir da guerra, debaixo de morteiros. Em dois dias, reveza-se na condução com dois irmãos, até chegar a Windoek, na África do Sul.

É preso pela policia sul-africana, declarado persona non-grata e posto num avião a caminho de Frankfurt. Aterra em Lisboa em Agosto de 1975 e, para garantir o sustento, começa por vender enciclopédias, até concorrer a um lugar na antiga RDP, onde entra nos quadros.

Aqui, foi repórter na Assembleia da República, enviado especial nos países africanos de língua portuguesa, sub-chefe de redação, deixando a marca em dois magazines de informação: Praça Pública e Ver, ouvir e contar. Um deles, o Praça Pública, recebeu o 1º prémio da rádio no concurso "À descoberta de Portugal".

Soma-se ainda o prémio Gazeta - sobre a Ereira, uma vila perto de Coimbra que ficava isolada no Inverno - e o prémio Reis de Espanha, sobre a lixeira da Bobadela.

A rádio não tinha segredos para Emídio Rangel. É no inicio dos anos 80 que começa a batalha de Rangel, por novas estações de rádio. A 29 de fevereiro de 1988, começam as emissões regulares da TSF, a rádio que acelerou o tempo da notícia e mudou o estilo da informação.

Emídio Rangel venceu a guerra das rádios locais, mas perdeu a batalha por uma Ordem dos Jornalistas.

E da rádio passa para a televisão. Primeiro na SIC, onde esteve quase 10 anos, como diretor de informação e programação. Depois, na RTP, de onde diz ter sido saneado politicamente, apesar de ter confessado no livro «Jornalismo em Liberdade», que se sentiu como peixe na água.

Mesmo debilitado pelo cancro, em abril deste ano, o velho leão, como também era conhecido, mantinha-se determinado nas convicções. Firme na defesa de um código de ética e um jornalismo de verdade.

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