Saúde

Há apenas um pediatra nas urgências do Garcia de Orta. "Chegou a altura de responsabilizar os políticos"

Lisboa, 03/02/2014 - Urgências hospitaliares - Hospital Garcia de Orta ( Leonardo Negrão / Global Imagens ) Leonardo Negrão / Global Imagens

O bastonário da Ordem dos Médicos alerta para as condições de risco das urgências pediátricas no hospital Garcia de Orta, em Almada, onde o serviço tem funcionado com apenas um médico pediatra.

A urgência pediátrica do Hospital Garcia de Orta, em Almada, está em risco de fechar durante a noite. O alerta é dado pela Ordem dos Médicos, depois de o hospital ter perdido nove pediatras, no espaço de um ano.

Ouvido pela TSF, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, avisa que não podem ser apenas os médicos a assumir a responsabilidade.

"Nunca aconteceu nenhum político ser responsabilizado por não dar as condições adequadas ao funcionamento de um serviço de urgência. Acho que começa a chegar a altura de responsabilizar os políticos", defendeu Miguel Guimarães.

Para assegurar o funcionamento das urgências pediátricas, a lei exige dois especialistas de pediatria ou, em alternativa, um especialista em pediatra e um interno nos últimos anos de formação.

Tem sido recorrente o hospital funcionar com apenas um pediatra de serviço, o que leva o bastonário da Ordem dos Médicos a classificar a situação como urgente.

"Num hospital que tem o movimento que este tem - que recebe, por dia, cerca de 130 crianças - no serviço de urgência de pediatria (que dá também apoio às áreas de internamento e de berçário ao fim de semana), é óbvio que a existência de um único pediatra coloca em causa a segurança clínica", indica Miguel Guimarães, em declarações à TSF.

"Não quero que nenhuma criança não tenha acesso ao melhor tratamento possível quando recorre ao hospital", disse o bastonário.

Perante o atual cenário, o bastonário da Ordem dos Médicos considera que encerrar o serviço de urgência pediátrica é a melhor solução para garantir a qualidade dos cuidados e apela a uma intervenção urgente do Ministério da Saúde para resolver a situação no Hospital Garcia de Orta.

"Se há um serviço a funcionar, que tem regras perfeitamente estabelecidas, e essas regras não são cumpridas, quem tem poder político - a começar nas administrações [dos hospitais] e indo até ao Ministério da Saúde] tem que ter responsabilidades nesta matéria".

Administração do hospital admite risco de fechar portas

"O risco existe", diz o presidente do Conselho de Administração do Hospital Garcia de Horta, reconhecendo a possibilidade de encerramento da urgência pediátrica durante o período da noite.

Em declarações à TSF, Daniel Ferro explica que, mesmo com todos os esforços que têm sido feitos, a saída dos nove pediatras pode vir a ditar o fecho do serviço, que tem funcionado com os restantes a profissionais a trabalhar "em sobrecarga".

O presidente do Conselho de Administração do hospital espera a entrada de cinco novos pediatras na instituição nos próximos meses. Mas recuperar os nove pediatras perdidos para o privado pode demorar, na melhor das hipóteses, um ano.

"Temos previstos cerca de cinco novos especialistas, dois dos quais iniciarão funções dentro dos próximos dias. Os outros três, esperamos que se consigam com o concurso que será iniciado em abril", explicou Daniel Ferro. "Gostaríamos de repor os nove médicos a curto prazo, mas isso não é possível, atendendo ao nível de formação de especialistas que está a correr. Dentro de um ano, é possível."

Notícia atualizada às 11h58

*com Rita Carvalho Pereira e Guilhermina Sousa

Joana Carvalho Reis*