Sociedade

Quando cantar a lotaria é uma missão para ajudar quem precisa

Ricardo Gonçalves/ Global Imagens

A Lotaria Clássica do Natal é uma das mais aguardadas na sala de extrações da Santa Casa. Este ano, a lotaria conta com novos pregoeiros para cantar os números da sorte.

Na sala de extrações da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) afinam-se os últimos detalhes para a Lotaria Clássica do Natal. Apesar de ser um ensaio, as esferas estão alinhadas, a girar, tal como se fosse o dia de andar à roda.

Os pregoeiros começam a cantar os números. Tudo tem de estar a postos para a extração mais esperada do ano.

"É a lotaria mais acarinhada pelo público e que cria sempre uma grande expectativa, as pessoas pegam nas frações, estão a ver. É muito bonito. E já aconteceu estarmos aqui na sala e sair um prémio grande e criou aqui um grande burburinho, uma alegria tremenda", conta Margarida Boura, pregoeira há 32 anos.

Margarida Boura é funcionária da SCML há 34 anos. Fez parte do primeiro grupo de mulheres a fazer este trabalho na Misericórdia, trazendo juventude e inovação à extração.

Na sala de extrações - um espaço centenário nos serviços centrais da SCML - segue-se um ritual com luzes e momentos sincronizados entre os pregoeiros. A dicção e a projeção de voz também são ensaiadas para que os números da sorte se percebam claramente. Mas nem sempre as coisas correm de acordo com o guião.

Margarida recorda uma vez que deixou escapar a bola para rapidamente recuperá-la.

"De vez em quando as esferas eram oleadas e a bola estava com óleo e escorregou. Mas aquilo correu muito bem porque a bola não caiu cá para baixo, caiu ali naquele palco e como é borracha saltou. Quando eu senti que a bola ia saltar, baixei-me, apanhei-a e fui para a frente e cantei na mesma. Até deu azo a risos e algumas pessoas bateram palmas", lembra.

Para Margarida, cantar os números da sorte vai muito além de um trabalho. Defende que é preciso "sentir a lotaria, vestir mesmo a camisola e sentir que estamos aqui por uma boa causa".

Pedro Esteves ainda está a aprender a arte de cantar a lotaria. Prepara-se para anunciar os números da sorte pela primeira vez. Foi escolhido para pregoeiro num concurso interno que decorreu este ano. "Assim que recebi o email não pensei duas vezes e candidatei-me".

Há quase duas décadas que não havia concurso para pregoeiros da lotaria. Candidataram-se 52 funcionários da Misericórdia. Passaram sete, que se juntam agora aos dez que cantam a lotaria todas as semanas.

Pedro Esteves confessa que "estava muito nervoso na entrevista porque sabia que ia ser avaliado e vinha do zero, não sabia nada".

Os ensaios ajudaram a acalmar o ansiedade de Pedro Esteves que, agora, aguarda o dia da primeira extração em que vai participar. "Quando estiveram aqui todas as câmaras, quando a sala estiver cheia, aí vai ser mais difícil."

Margarida Boura que conhece todos os detalhes deixa conselhos aos novatos. "Agarrem esta função com muita humildade, dedicação. Eles são o veículo de transmissão entre o apostador que vai mudar tudo na sua vida e as pessoas que estão a precisar de nós no dia-a-dia. Portanto, se eles agarrarem isto com essa dedicação e com esse carinho, vão cá estar tantos anos quanto eu."

Apesar de ser a mais esperada, a extração da Lotaria Clássica do Natal não vai poder ter casa cheia devido à pandemia mas os pregoeiros garantem que é com a emoção de sempre que vão cantar os números em direto na televisão, para ver se alguém tem a sorte de arrecadar o primeiro prémio: 12 milhões e 500 mil euros. Anda à roda a 26 de dezembro.

Redação