Sociedade

"Pedimos sempre a Deus que venham esses alimentos"

Nuno Brites/Global Imagens (arquivo)

Apesar de o governo pretender cortar o número de beneficiários do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC), há cada vez mais famílias a pedir ajuda no Centro Porta Amiga da AMI, em Almada.

O telefone de Lucas Vieira toca todos os meses, quando o cabaz de alimentos está pronto para ser levantado, no Centro Porta Amiga da AMI (Assistência Médica Internacional), em Almada. Desempregados, Lucas e a mulher fazem alguns biscates, que não chegam para sustentar, sem apoios, o casal e as quatro filhas. Desde 2019, recebem o cabaz alimentar do Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC). O leite, o queijo e os cereais "para as meninas" são os alimentos que mais apreciam, mas a somar às tostas, latas de atum, sardinha e cavala, alguns produtos frescos e até um frango congelado, Lucas não podia estar mais grato. "É um cabaz completo", que já permite poupar muito nas compras. "O dinheiro vai para a água, luz, renda, televisão. E assim vamos vivendo, um dia de cada vez."

A família é "muito organizada", elogia Maria da Luz Cachapa, directora do Centro Porta Amiga da AMI, em Almada. Desde 2019, o Centro duplicou o número de beneficiários de POAMPC, de 60 para 120. Mas o apoio alimentar chega também através de empresas e, no total, este centro da AMI distribuiu no ano passado, 2673 cabazes alimentares por 327 famílias.

Maria da Luz Cachapa nota que há "cada vez mais pessoas a procurarem os nossos serviços e a pedirem ajuda". Por isso, embora compreenda a decisão do governo em reduzir o número de beneficiários do POAPMC, a título pessoal, considera que "todo o apoio é pouco". A directora do Centro Porta Amiga, em Almada, confirma que em alguns meses, há alimentos em falta nos cabazes. "Por exemplo, o leite. Houve um tempo que não veio, mas já foi reposto", garante. As falhas são explicadas pela impugnação de concursos públicos, por parte de alguns fornecedores. "É uma questão que transcende a própria segurança social", destaca a responsável.

Nos últimos meses, o cabaz de Lucas Vieira deixou de incluir a sardinha e a cavala, mas a família tem algumas reservas. "Não é muito, mas dá para sobreviver", assegura Lucas, que não consegue dar tudo o que desejaria às filhas. Por isso, quando Helena, a filha mais velha, manifestou vontade de ter um iPhone, quando completasse 18 anos, Lucas pediu ajuda aos irmãos. No dia do aniversário, a surpresa não poderia ter sido maior. "Elas (as filhas) sabem que não temos capacidade" e quando Helena abriu a caixa com o telemóvel, "a miúda começou a chorar", conta Lucas emocionado e assumidamente um "pai babado". "Somos uma família feliz (...) gerimos bem as coisas" e às refeições, "pedimos sempre a Deus, para agradecer que venham esses alimentos para nos ajudar". O sonho de Lucas também é simples: "Encontrar um emprego." Gostava de trabalhar para a câmara municipal de Almada, a "varrer ruas. Ser cantoneiro era uma coisa que eu gostava", conclui com um sorriso.

* A autora não escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico

Cristina Lai Men