Sociedade

Levante-se o Réu. Mistério de canos serrados

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Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. Relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide

Algemado, tatuado, musculado, contrariado, entrou Nuno no tribunal. A polícia tinha-o ido algemar cedo a casa, no bairro: há uma semana, faltara à primeira sessão do seu julgamento. Nuno, um homem de boas respostas sem saída:

— Levei vacina... Tive uma pneumonia e uma anemia. E pensei que isto era em Outubro mais tarde.

Nuno prescindiu de ouvir a acusação. A juíza, então:

— Confessa os factos, isto corresponde à verdade?

— Sim, corresponde à verdade.

— Então porque é que tinha isto consigo?

— Isso há aí um equívoco. Aquilo não era meu.

OUÇA AQUI O LEVANTE-SE O RÉU

Suspiro da juíza. Os suspiros da magistratura variam de intensidade, mas sempre interessantes. Querem, por exemplo, dizer “pensava despachar isto, que era uma limpeza, mas afinal...”

— Então, se calhar não corresponde à verdade, disse a juíza.

— Não, não. Quando apareceu a polícia... eu moro ali naquele bairro. Eu tinha-me chateado com dois amigos meus por causa da dívida de uma mota, que eu quero pagar, e como tomo medicamentos para os nervos, eu sou medicado no centro de saúde e no hospital de Santa Maria e fui ao jardim com um rapaz que...

— Olhe, não se perca nos pormenores, que não são importantes. Eu quero é perceber o que é que aconteceu, ´tá bem? O resumo da sua vida depois a gente já vai falar sobre ele.

— Eu estava ali a descansar no jardim, é uma praça antiga...

— Então e os senhores agentes, quando chegaram ao pé de si, o que é que fizeram?

— Ahhh, que eu estava detido, que eu estava preso, aparecem com uma arma na mão e...

— Então!, interrompeu a juíza, mas não há uma varinha de condão, nem há um saquinho mágico...

— Veio um agente pela escada... Vêm sete ou oito, ou 12 agentes, não sei, aquilo foi... entraram por todo o lado.

— Pois, foi uma força de intervenção rápida.

— Um dos agentes veio do meu lado esquerdo com a arma na mão, a dizer que aquilo era meu, é teu, é teu!, mas não era.

— Então quando chegaram os senhores agentes, o senhor não tinha a arma atrás de si. Não corresponde à verdade...

— Não, não, não, respondeu Nuno.

— Mas que interesse é que tinham os senhores agentes em mentir? Nós tivemos aqui os agentes, um deles contou que em momento anterior tinha havido a denúncia de uma ameaça com arma de fogo, dando a descrição de uma pessoa que correspondia ao senhor pela roupa que vestia, e quando chegaram, o senhor estava a tentar esconder alguma coisa atrás das costas e, quando foram verificar, tinha ali uma caçadeira de canos serrados!

— Não estava ao pé de mim.

— Tem alguma coisa contra estes agentes, há alguma coisa que estes senhores agentes tenham contra si?

— Sotôra, eu não vou por esse caso. Eu vou falar a verdade, porque tenho que falar a verdade.

— Não, não tem que falar a verdade, o senhor é o único que não tem de falar a verdade.

— Eu sempre nasci ali sotôra... havia outro rapaz...

— E porque é que o abordaram a si e não a ele?

— Eu até perguntei na esquadra porque é que me levaram a mim e não o levaram a ele.

— Estou esclarecida, ressuspirou a juíza.

E virou-se para a procuradora, que também não quis procurar nada ao homem, estava bem esclarecida. E o resto do julgamento foi de facto o resumo da vida de Nuno, e foi como colocar num estendal de rua as suas ceroulas, os filhos daqui e dali, as pensões de alimentos esmifradas ao cêntimo, a fuga aos impostos numa oficina de motas clandestina — justificada por já estar com muita idade, aos 40 anos — e a juíza aqui não suspirou, gritou:

— O senhor não é mais velho do que eu!

E, para acabar, o grande mistério, a dúvida visível nas tatuagens retesadas do pescoço de Nuno: que estranha doença dos nervos, velhice, anemia, pneumonia, lhe fez crescer ao fundo das costas, como furúnculo, uma caçadeira de canos serrados?

O autor escreve de acordo com a anterior ortografia

Rui Cardoso Martins