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Santos Silva acredita que ataque dos EUA na Venezuela teve "apoios locais" e acusa Trump de desprezar direito internacional

Augusto Santos Silva Foto: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens (arquivo)

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva não descarta a possibilidade de o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, sem qualquer resistência armada, ter tido ajudas dentro do regime venezuelano. Em entrevista à TSF, Santos Silva acusou Donald Trump de desperezar totalmente o Direito Internacional e classificou o Presidente norte-americano como um "autocrata que acha que o mundo se divide em grandes potências comandadas, cada qual por um líder autoritário".

Porque é que Donald Trump capturou Nicolás Maduro desta maneira?

Em primeiro lugar, porque despreza absolutamente o direito Internacional e acha que pode fazer tudo, incluindo coisas que o direito internacional expressamente proíbe, como esta captura de um Presidente de um país independente. Em segundo lugar, porque não tem o mínimo de coerência e ele próprio na campanha eleitoral tinha prometido aos americanos que trataria da "America First" e tinha criticado as intervenções externas dos Estados Unidos. Não tem feito outra coisa que não alimentá-las. Em terceiro lugar e mais perigosamente, porque Donald Trump é um autocrata que acha que o mundo se divide em grandes potências comandadas, cada qual por um líder autoritário, e que essas potências têm o direito de definir unilateralmente as suas zonas de influência e fazerem o que quiserem dentro dessas zonas de influência.

Mas, posto esta situação com a captura de Nicolás Maduro e da mulher, qual será o plano futuro que Donald Trump tem para a Venezuela?

Não sei. Eu diria que a intenção dele parece-me clara, que é ter na Venezuela uma transição, uma mudança de regime, colocando à frente do Governo pessoas que sejam os seus vigários em sítios técnicos, isto é, que actuem em seu nome e em estreita cumplicidade com ele. Sonharia ter uma espécie de um Milei 2 em Caracas. Para quê? Para que os recursos fabulosos que a Venezuela tem em petróleo, em ouro, em materiais críticos para a indústria estivessem sob comando indireto dos Estados Unidos. Isto parece-me ser a sua intenção, mas difícil de realizar. Eu creio que os Estados Unidos estão a meter-se num novo ateleiro. Creio que isto vai correr bastante mal aos Estados Unidos. Tenho a certeza de que esta sucessão de lances que Donald Trump tem protagonizado nas relações internacionais vai ter três consequências, todas elas muito negativas. Em primeiro lugar, vai mudar a relação entre adversários e aliados. Para os Estados Unidos, hoje a Rússia é, na prática, um aliado e a União Europeia é o mais feroz nos adversários. Tem uma segunda consequência que é deixar o terreno livre à China, designadamente no hemisfério sul. A China vai continuar, se Trump persistir durante muito tempo nesta sua política, a acumular Influência e prestígio junto dos países do Sul. E tem uma terceira consequência que é alterar por completo a maneira como se organizam as relações internacionais. Se Trump levar à sua avante na Venezuela, não vejo porque é que Putin não há-de levar a sua avante na Ucrânia ou Xi Jinping não há-de levar a sua avante reunificação fechada forçada da Taiwan. Tudo isso são coisas terríveis e, portanto, espero mesmo que Donald Trump não consiga os seus objetivos, porque isso significa um novo mundo, em que eu, pelo menos não gostaria nada de viver.

Augusto Santos Silva deduzo destas suas reflexões que Donald Trump não estará minimamente interessado na democracia na Venezuela, mas sim nas enormes reservas mundiais de petróleo. Mas para esta transição de regime, como diz, muito dependerá também da resistência das elites. A Venezuela é um país com muitos grupos paramilitares, com os generais nas principais empresas, também de petróleo. Que rumo terá ou para que lado penderá esta elite venezuelana e os militares que não estão na rua nesta altura?

Uma operação como aquela que foi conduzida esta madrugada pelos Estados Unidos precisa de ter pontos de apoio locais. É muito estranho que aviões norte-americanos e helicópteros, portanto, voando a baixa altitude bombardeiem, transportem tropas e executem uma operação de captura do Presidente em funções sem que tenha havido aparentemente nenhuma resistência armada na parte das forças armadas venezuelanas. Portanto, há certamente alguma cumplicidade no próprio interior do regime. Mas, por outro lado, a própria operação é bastante esquisita, embora o que se saiba ainda seja muito pouco. Aparentemente o presidente Nicolás Maduro e a sua mulher e o chefe de segurança foram capturados e transportados para os Estados Unidos. A Procuradora Geral americana promete-lhes a fúria, estou a citar literalmente, dos tribunais americanos. Como é que a atual administração de Trump fala de justiça, mas a vice-presidente está em funções e o ministro da Defesa venezuelano está em funções. (...) É muito cedo para fazer qualquer espécie de supervisão. Tudo isso é muito confuso.

*Com Maria Ramos Santos

Ana Cristina Henriques