Economia

Nobel da Economia: «as restrições orçamentais vão existir sempre»

Lars Peter Hansen Reuters/Claudio Bresciani/TT News Agency

Lars Peter Hansen, o «Nobel da Economia» de 2013, avisa: a disciplina orçamental veio para ficar e os países não devem adiar reformas, sob pena de perderem credibilidade.

O que pensa da lógica dos programas de austeridade em curso em vários países europeus, incluindo Portugal?

Penso que se os países europeus quiserem fazer parte do euro é importante manter as contas do estado em ordem. Tem sido um desafio ter uma união monetária sem algum tipo de união fiscal que lhe corresponda e isso tornou tudo mais difícil, especialmente para alguns países.

Se olharmos para a situação de Portugal, há evidências que mostram que está a dar a volta e que fez bons progressos no lado orçamental. Penso que seria perigoso não continuar esse percurso. Julgo que a opção mais inteligente será manter esse compromisso. Se olharmos para as exportações, e de alguma forma também para o investimento e para o consumo, parece que agora deu a volta e que há boas razões para seguir em frente.

Mas a quantidade de austeridade pode ter sido mal calculada.

O programa da troika provocou muito mais recessão e desemprego do que o previsto no início e o FMI admitiu mesmo que existiram erros de cálculo.

A troika não estava preparada para desenhar estes programas?

A crise financeira e os consequentes desafios para o euro surpreenderam muita gente.

Muitas decisões políticas tiveram de ser tomadas por intuição, por tentativa e erro.

E países como Portugal tiveram de colocar as contas em ordem muito rapidamente, incluindo instituições financeiras, e ao mesmo tempo fazendo reformas estruturais. E dadas as pressões que enfrentaram, tiveram um desempenho muito bom. Mas é possível que uma abordagem mais ponderada tivesse sido benéfica para todos.

Portugal termina o resgate dentro de dois meses.

Para o cidadão comum, a vida é agora mais difícil. Há mais desemprego, mais recessão. Dito de forma simples: as pessoas têm menos dinheiro.

Será que alguma vez regressaremos à vida que tínhamos antes da troika? Quanto tempo poderemos demorar a recuperar?

A isso não consigo responder. Acho que Portugal acabará por regressar a uma trajectória saudável de crescimento. Há razões para esperarmos que isso acabe por acontecer.

A recuperação de uma crise financeira, numa variedade de países, incluindo os Estados Unidos, foi muito lenta, muito demorada.

É difícil para mim dizer, de uma forma optimista, que a recuperação será rápida. Mas acho que acabarão por recuperar a vida que tinham. Quando isso acontecer, talvez as contas públicas estejam em ordem e talvez possam ter um crescimento forte no futuro por vários anos.

Baixar o rácio da dívida para 60% do PIB - uma exigência europeia - pode levar muito tempo, há quem fale em duas ou três décadas.

Vamos ter 20 ou 30 anos de austeridade e apertos orçamentais?

No que diz respeito a desafios orçamentais, há sempre algum tipo de constrangimento. Temos de ter cuidado com o equilíbrio entre as receitas e as despesas.

Há sempre restrições, e há sempre a tentação de pensar: «vou esperar que as coisas melhorem e consertá-las nessa altura». São afirmações simpáticas, mas é difícil torná-las credíveis para os mercados e para investidores estrangeiros, que podem sempre dizer: «no futuro também podem arranjar desculpas para não acertar as contas».

A não ser que queiram sempre evitar apertos no orçamento.

As restrições vão existir sempre e haverá sempre decisões difíceis sobre a racionalidade da despesa e sobre a carga fiscal equilibrada.

Por isso, de alguma forma não sei se alguma vez poderão evitar a disciplina fiscal.

Agora que o resgate está a terminar, qual é a melhor opção? Uma saída limpa, sem rede de segurança, ou uma saída apoiada pela União Europeia?

Não sou um perito nesse tema, não sei o suficiente sobre o caso para dar uma opinião informada

Então em tese: para um país que está sob resgate, qual a melhor forma de sair dele?

A longo prazo quanto mais conseguir lidar com os acontecimentos de forma independente, e não precisar de ninguém, melhor.

O melhor é garantir que se tem força para que o resgate não tenha de acontecer de novo.

Não conseguimos antecipar todas as adversidades que podem acontecer. E podem acontecer grandes crises, fiscais ou de outro tipo, que podem levar os países a precisar de apoio.

Mas acho que potencialmente ter mais autonomia pode ser bom.

Hugo Neutel