Um estudo publicado hoje pela Universidade de Harvard diz haver provas suficientes para acusar vários dirigentes do exército birmanês por crimes de guerra e contra a Humanidade cometidos na ofensiva contra a guerrilha de uma minoria étnica.
O estudo centra-se nas operações levadas a cabo, entre 2005 e 2008, por duas unidades do exército birmanês contra a guerrilha da minoria karen no município de Thandaung, estado Kayen, no leste do país.
A investigação conclui que os soldados birmaneses «dispararam morteiros contra aldeias, contra civis que fugiam, destruíram casas, implantaram minas (...) e capturaram e executaram civis».
«O impacto sobre a população foi massivo. Dezenas de milhares de pessoas foram deslocadas durante essa campanha e muitas outras morreram», refere-se no documento publicado pela International Human Rights Clinic da Faculdade de Direito de Harvard e apresentado hoje em Rangum.
Os autores do estudo identificam como crimes de guerra e contra a Humanidade o ataque e deslocamento de civis, a destruição e apropriação de propriedade, pilhagem, execuções extrajudiciais, tortura, escravatura, violações e perseguição.
Segundo o documento, os crimes foram perpetrados em cumprimento de políticas e práticas militares com o objetivo «primordial de despejar civis de territórios considerados como estando sob controlo de grupos armados não estatais».
O estudo nomeia três dirigentes militares contra os quais entende haver provas suficientes para emitir um mandado de prisão.
Entre eles, figura o atual ministro do Interior, o major-general Ko Ko.
«É necessária uma ação urgente para assegurar que os que perpetraram crimes internacionais respondam diante da Justiça», conclui o estudo, em que se alerta que, «em algumas zonas do país, o conflito e os abusos continuam».
A organização Fortify Rights fez idêntica denúncia, afirmando que «o exército birmanês definiu como alvo, atacou e matou civis com impunidade» em zonas onde prosseguem os combates com outras guerrilhas nos estados Kachin e Shan.
Este grupo publicou hoje outra investigação em que documenta ataques contra civis por parte do exército birmanês na sua ofensiva contra a minoria kachin entre 2011 e 2013.
«O Governo da Birmânia quer que o mundo acredite que o seu historial de direitos humanos está acima da crítica, mas isso não é verdade», disse hoje o diretor executivo da organização, Matthew Smith, em comunicado.
«A visão romântica relativamente a uma mudança política de grande alcance não se coaduna com uma situação de continuados crimes de guerra e impunidade», acrescentou o mesmo responsável.
O governo birmanês assinou acordos de cessar-fogo com 14 guerrilhas de minorias num processo de reformas iniciado depois da última junta militar ter entregado o poder em 2011.