Cultura

A livraria que se inspirou no Mosteiro da Batalha

Artur Machado / Global Imagens

Para contar a história da Lello, é preciso recuar mais do que os 110 anos deste edifício. José Manuel Lello, bisneto do fundador, é o cicerone das memórias. O engenheiro que desenhou a livraria foi o primeiro presidente da Câmara do Porto do regime republicano.

Emblemático, imponente e ao mesmo tempo acolhedor, o edifício da Lello guarda histórias de arte e de republicanismo. Estamos em 1881. "O meu bisavô e o irmão resolveram sair do Douro, onde eram lavradores abastados, e vir para cidade do Porto, onde abriram uma livraria", conta José Manuel Lello.

Instalaram-se mais abaixo, perto da rua do Almada e no fim da década de 90, compraram a Chardron, uma grande casa editora do Porto.

Em 1904, compram este terreno e o projeto de construção é entregue ao engenheiro Francisco Xavier Esteves, que, em menos de dois anos, faz a Lello no estilo neogótico, um estilo pouco vulgar no Porto: "Faz-se um elogio desse estilo como sendo o mais durável e mais bonito e uma comparação ao Mosteiro da Batalha, ou seja, não havia grande modéstia, mas a intenção de fazer algo de extraordinário e completamente diferente".

Nasceu um espaço de letras e de artes feito pela vontade fervilhante de um grupo de republicanos.

Xavier Esteves foi deputado, foi ministro e foi o primeiro presidente da Câmara do Porto no regime republicano. Afonso Costa, um dos grandes responsáveis pela implantação da República, estava aqui no dia da inauguração e Guerra Junqueiro foi o primeiro a assinar o Livro de Ouro da Lello, onde deixou uma dedicatória. José Manuel Lello cita de cabeça: "Aos meus amigos e correligionários irmãos Lello que fizeram esta grande obra pelo progresso e pela democracia". Eram "assumidamente amigos e correligionários".

Outro republicano, Aurélio Pais dos Reis, conhecido como o pioneiro do cinema em Portugal, fotografou a festa de inauguração há 110 anos. Esta escadaria, "fantástica", não escapou à lente.

Sobe-se por uma só parte e depois ela divide-se em dois: tem duas saídas para o piso de cima. "Tivemos a sorte de Xavier Esteves ser uma das primeiras pessoas a trabalhar em ferro e em betão armado, o que permitiu que esta escadaria tenha só três pontos de apoio (um em baixo e um de cada lado em cima), o que permite que ela tenha este aspeto etéreo", sublinha o bisneto do fundador. Parece que está "a voar".

A escadaria é o coração da Lello, onde o olhar também se perde no vitral do teto e em todos os elementos de arte déco da livraria, em cada pormenor, em cada curva das madeiras, em cada página dos livros que parecem ganhar vontade de saltar das estantes

Barbara Baldaia