Só no centenário do seu nascimento é que Berlim pediu finalmente perdão a Marlene Dietrich, considerada uma «traidora» por parte de muitos alemães, por combater o nazismo durante a II Guerra Mundial.
Andre Schmitz, chefe da chancelaria do Senado da capital alemã, ao depor uma coroa de flores no túmulo da actriz falecida em 1992, afirmou que as manifestações de hostilidade a que Marlene Dietrich foi sujeita, quando regressou a Berlim, depois da II Guerra Mundial, «são uma vergonha para a cidade».
«Ela voltou tarde a casa e voltou tarde aos corações dos berlinenses», afirmou Schmitz, lembrando que, até no dia do seu funeral Marlene foi hostilizada. «Pedimos-lhe perdão por tudo isso».
«Ela nunca atraiçoou a verdadeira Alemanha»
A actriz emigrou em1930 para os Estados Unidos, três anos antes de Hitler chegar ao poder. Muitos alemães nunca lhe perdoaram o facto de ter cantado para soldados norte-americanos durante a II Guerra Mundial, e de ter desembarcado mais tarde na Alemanha «ousando» envergar um uniforme do US-Army, considerando-a sempre uma traidora.
O representante do Senado berlinense lembrou, durante a homenagem, que o regime nazi tentou conquistar as suas simpatias, sem nunca o conseguir. «Ela preferiu o difícil caminho da emigração, mas nunca atraiçoou a verdadeira Alemanha, tornando-se uma aliada dos que lutaram contra a barbárie», disse Schmitz.
O Senado de Berlim hesitou durante muitos anos em dar o nome de Marlene Dietrich a uma rua da sua cidade natal, o que só viria a acontecer em 1997, ano em que o centro da nova Potsdamer Platz passou a chamar-se Marlene-DietrichPlatz.
«A mulher do Século»
O chefe de estado alemão, Johannes Rau, presidiu à cerimónia e colocou uma cora de flores no túmulo da sua compatriota, considerando-a «uma extraordinária artista».
A cantora alemã Ute Lemper, uma herdeira do estilo Dietrich, colocou hoje rosas na campa de Marlene e disse também que a saudosa intérprete de «O Anjo Azul», o seu primeiro grande êxito, inspirado num romance de Heinrich Mann, «foi a mulher do Século, e já era tempo de Berlim lhe pedir perdão».
O burgomestre de Berlim, Klaus Wowereit, recordou a forte personalidade de Marlene, afirmando-se «um grande admirador da sua irreconciliável recusa do nacional-socialismo».
Marlene morreu sozinha no seu apartamento dos Campos Elíseos, em Paris, a 6 de Maio de 1992, após o longo isolamento a que se votou, renunciando totalmente às aparições em público.