Uma equipa de investigadores identificou uma nova estirpe do vírus da sida em gorilas selvagens no sul dos Camarões, entre os quais parece ser endémica, indica um estudo publicado pela revista científica britânica Nature.
Como estes animais continuam a ser caçados tanto pela sua carne como para tratamentos médicos tradicionais, os investigadores advertem para o perigo que isso representa para a saúde dos humanos.
Ricardo Camacho, responsável pelo Laboratório de Virulogia do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, explicou à TSF que esta descoberta indica um «potencial» perigo para os humanos porque os «gorilas estão ali e continuam a ser caçados e a carne a ser consumida».
Já se sabia que três dezenas de espécies de primatas africanos são portadores de vários vírus de imunodeficiência e que nos chimpanzés da parte ocidental da África central, nomeadamente nos dos Camarões, foi identificado um vírus aparentado com o causador da sida nos humanos (VIH-1), sendo que os primatas não humanos não desenvolvem a doença.
Ao examinarem várias centenas de excrementos de grandes símios recolhidos em regiões remotas dos Camarões, Martine Peeters e Eric Delaporte, do Instituto de Investigação para o Desenvolvimento (IRD) e da Universidade de Montpellier-1 (França), e colegas de outros países descobriram, para sua surpresa, que seis amostras provenientes de gorilas continham também anticorpos ao VIH-1.
Outra surpresa foi constatar, na análise do material genético extraído das fezes, que o vírus do gorila é próximo de um dos três grupos do VIH-1, o grupo 0, cuja origem era até agora desconhecida.
Os chimpanzés desta parte de África, a bacia do Congo, constituem o reservatório natural dos grupos M (o mais frequente) e N (muito raro).
Para Martine Peeters, os vírus destes dois últimos grupos são «muito claramente resultantes de uma transmissão do chimpanzé ao homem» (por contaminação de sangue a sangue, numa mordedura sofrida por um caçador ou um ferimento no esquartejamento da carcaça). Pelo contrário, é menos evidente a origem do grupo 0.
«Não se pode excluir que os chimpanzés infectados com o VIH-1-grupo 0 tenham contaminado o homem e o gorila independentemente, ou que o gorila, depois de ter sido contaminado pelo chimpanzé, tenha contaminado o homem», segundo esta bióloga.
De qualquer forma, o facto de os gorilas infectados viverem a mais de 400 quilómetros uns dos outros sugere que não se trata de casos isolados e que o vírus poderá estar amplamente espalhado nestas populações de símios.