Lula da Silva vai concretizar o seu maior sonho no primeiro dia de 2003: ser presidente do Brasil. A cerimónia de posse não vai contar com o tradicional «smoking» e a verdadeira festa vai começar na rua, com o povo, da forma mais informal.
Uma festa em grande vai desfilar no primeiro dia do ano nas ruas de Brasília. Lula da Silva vai tomar posse da presidência brasileira, naquela que se espera ser a maior festa político-popular da história republicana. Prevê-se que, pelo menos, 500 mil pessoas se desloquem à capital do Brasil.
A festa é do povo
O Partido dos Trabalhadores (PT) gastou 400 mil euros (1,5 milhões de reais) no evento, que contará com diversos espectáculos populares, espalhados pela capital, desde Zezé de Camargo e Luciano a Zeca Pagodinho, passando pelo próprio ministro da Cultura do seu governo, Gilberto Gil.
Só em material promocional foram gastos 79 mil euros (295 mil reais) num milhão de autocolantes, 100 mil bandeiras, 100 mil viseiras, 160 mil lenços e 100 mil ventoinhas de papel, todos com as frases «Posse de Lula Presidente» e «Eu participarei dessa mudança», que serão distribuídos à população.
Cinco mil jornalistas brasileiros e estrangeiros já confirmaram presença, a rede hoteleira de Brasília esgotou e o parque de campismo teve de ser posto à disposição de todos. Para que o evento decorra tranquilamente, 12 mil agentes de segurança e 1500 bombeiros já foram destacados para o local.
Cerimónia informal
Depois dos espectáculos, que arrancam ao meio-dia (14:00 em Lisboa), Lula da Silva e o seu vice-presidente, José Alencar, seguirão da Catedral de Brasília para o Congresso, onde decorrerá a cerimónia de posse, na presença de chefes de Estado estrangeiros.
Jorge Sampaio comparecerá, ao lado de Hugo Chávez (Venezuela), Eduardo Duhalde (Argentina), Ricardo Lagoas (Chile), Alejandro Toledo (Peru), Jorge Batlle (Uruguai) e Gonzalo Sanchez de Lozada (Bolívia). Fidel Castro é outra das personalidades esperadas.
Mas, ao contrário do que sempre aconteceu, ninguém precisa ir de «smoking». Lula substituiu o traje formal pelo fato de passeio e optou por fazer outras inovações: o desfile de carro aberto após a cerimónia de imposição da faixa presidencial e o discurso do novo presidente em frente ao Palácio do Planalto.
Ano Novo, Novo Brasil
Com a entrada de Lula em cena, o Brasil deverá assistir a uma das mudanças mais radicais da sua História. Se o novo presidente levar avante o desafio das reformas constitucionais, que para alguns empresários brasileiros devem arrancar nos primeiros meses, muita coisa vai mudar.
Algumas das reformas previstas no Programa de Governo são:
Reforma política - introdução de um sistema de financiamento público para as campanhas eleitorais, o que contribuirá para eliminar a corrupção e diminuir o peso do poder económico.
Reforma da Previdência - introdução de uma gestão democrática, a cargo de um órgão quadripartido, composto por representantes estatais, trabalhadores, reformados e empresários; criação de um sistema de Previdência universal e público, igual para todos os trabalhadores do sector público e privado.
Reforma Tributária - isenção de pagamento à produção e às exportações; o ICMS será transformado em IVA (Imposto sobre o Valor Agregado)
Reforma Judiciária - clarificação dos processos judiciais, através do controlo externo do Poder Judiciário por um poder fiscalizador, composto por entidades representativas da sociedade, via Comissão de Justiça do Congresso.
Reforma do Trabalho - constituição de um grupo de trabalho, com data para começar e terminar o serviço, tanto para a Previdência Social, como para a Lei do Trabalho e para a estrutura sindical; diminuição da taxa de desemprego entre jovens, criando um Programa Nacional de Incentivo à contratação de jovens pelas empresas e de estagiários comunitários.
Reforma Agrária - actuar junto das comunidades e associações de pequenos agricultores de forma a desenvolver novas tecnologias e práticas apropriadas às suas actividades, apostando nos centros de pesquisa e de extensão agrícolas previstos no programa de crédito para os lavradores.
Recuperação da Economia Nacional - incentivar o sector bancário privado a apostar mais no financiamento das actividades produtivas; reduzir a distância entre as taxas de juros de captação e de empréstimos; incentivar a poupança doméstica de longo prazo; gestão mais transparente de fundos.
Combate à Fome - implementar uma política de apoio à agricultura familiar; ampliar o programa de merenda escolar, de forma a que essa alcance todas as crianças que frequentam escolas públicas.
Meio Ambiente - criar metas para melhorar os indicadores socio-ambientais, tais como o desflorestação, focos de calor, emissão de dióxido de carbono, esgotos e tratamento sanitário, abastecimento de água, qualidade do ar, acesso a bens naturais, consumo de energias e tecnologias limpas.