A peça de Bertolt Brecht, «Mãe Coragem e os Seus Filhos», está de regresso aos palcos portugueses 14 anos depois de ter sido apresentada.
A CTA, Companhia de Teatro de Almada, apresenta a partir desta quarta-feira a peça «Mãe Coragem». Escrita em 1939, mas alterada já no pós-guerra,
"Mãe Coragem e os Seus Filhos" é uma alusão à relação entre
o negócio e a guerra, à sobrevivência de uns e à morte de
outros.
A narrativa passa-se durante a Guerra dos Trinta Anos, no século XVII, mas poderia passar-se noutro conflito qualquer. Afinal, foi a actualidade do texto de Brecht que motivou o encenador da CTA, Joaquim Benite, a pô-lo em cena.
Joaquim Benite diz que descubriu a «Mãe Coragem nas reportagens televisivas da Bósnia, da Croácia, do Kosovo, com as suas filas de
refugiados famintos, de soldados atípicos, com os seus
relatos de perseguições, mas também com os seus tráficos de
armas, o mercado negro e o contrabando das pequenas
quadrilhas", realça o encenador.
A intemporalidade da peça é, também, visível nos
figurinos de Sónia Benite. As roupas das personagens é
dos nossos dias e não do imaginário seiscentista, onde a narrativa se situa.
Por sua vez, a cenografia, feita pelos arquitectos Graça
Dias e Egas Vieira, é simples, não tem adornos, é crua,
como é qualquer teatro de guerra. As cores dominantes são o preto (morte) e vermelho (sangue).
Neo-Realismo em Palco
As letras das canções, trauteadas pelos actores,
reflectem, de certo modo, a violência da guerra. Tal como a
música, tocada ao vivo, da autoria de Paul Dessau,
compositor alemão que colaborou também com Brecht em "O
Círculo de Giz Caucasiano" ou "A Boa Alma de Setsuan".
Mãe Coragem/Anna Fierling, a personagem central da
peça que há 14 anos foi interpretada por Eunice Muñoz e
agora é representada por Teresa Gafeira, (na foto) concentra dois
sentimentos conflituosos: o de vítima/mãe e
pactuante/sobrevivente de guerra.
Trata-se de uma mãe que tenta proteger os seus três
filhos e não consegue, porque está demasiado ocupada em
sobreviver à guerra, vendendo mercadorias aos soldados, e no fim acaba por perder todos os filhos.
Com tradução dos escritores Ilse Llosa (texto) e
Jorge de Sena (canções), "Mãe Coragem e os Seus Filhos"
estará em cena no Teatro Municipal de Almada, nos próximos
dois meses.