A força de paz da ONU admitiu hoje que o número de elementos armados das milícias em Timor-Leste pode ultrapassar uma centena de elementos, um valor que poderá ser ainda mais elevado.
O porta-voz da força de paz da ONU (PKF), coronel Nymo, admitiu hoje que o número de elementos armados das milícias em Timor-Leste pode ultrapassar uma centena de elementos, um valor que corresponde a uma duplicação relativamente a estimativas da última semana, que apontavam para a presença de 50 a 60 elementos, integrando «quatro ou cinco grupos».
Instado pela agência Lusa a explicar o aumento no número de elementos armados, Nymo confirmou, apenas, que este total correspondia a elementos detectados pela PKF, admitindo que na prática o número de milícias armados poderá ser «mais elevado».
«É impossível dizer ao certo quantos são ou exactamente qual é o seu objectivo. Pode ir desde visitas para avaliar o estado da situação em Timor-Leste até ao pior cenário que seria estarem a colocar-se em posições para desencadear um ataque coordenado», considerou Nymo.
Ao mesmo tempo, o porta-voz confirmou que um dos grupos armados, que poderá ter entre 25 e 30 elementos, terá já chegado à zona de Cassa, o que corresponde a uma penetração a cerca 50 quilómetros da fronteira.
Nymo clarificou ainda informações anteriores, confirmando que o incidente entre militares fijianos e um grupo armado ocorreu durante as primeiras horas da manhã de quinta-feira e não na noite de quarta-feira.
Segundo indicou, os soldados fijianos tinham detectado os quatro homens armados a meio da noite de quarta-feira, tendo-os mantido sob observação até às primeiras horas da manhã, altura em que se aproximaram do grupo tentando obrigá-los a depor as armas que traziam.
«Foram desafiados, responderam erguendo as suas armas e os soldados fijianos responderam disparando tiros sobre as suas cabeças. O grupo fugiu do local», confirmou.
«Não estamos aqui para matar»
Instado a explicar a razão que levou os soldados de paz da ONU a não dispararem directamente sobre os alegados milicianos, Nymo afirmou que as tropas internacionais «não estão aqui com a principal função de matar pessoas», admitindo, em seguida, que «em várias outras ocasiões», soldados da força de paz da ONU «deixaram fugir» elementos armados, visto não estar previsto nas «regras de contacto» o uso de «força mortal».
«As regras notam claramente que a força pode ser usada, e que será usada quando for necessária, mas sempre em proporção à ameaça. Esta situação não foi considerada suficiente para justificar uma resposta», afirmou.
Afirmando que as «regras de contacto» impedem que a PKF conduza «operações de caça ao homem», Nymo referiu, ainda, que a estratégia actual se centra no uso de «posições de bloqueio» para tentar deter os elementos armados «sem ter que disparar».
Nymo acrescentou, também, que nesta fase a PKF está a avaliar a possibilidade de colocar efectivos que estão actualmente na ponta leste da ilha em posições «estáticas» mais próximo da fronteira, reforçando assim as tropas internacionais que já estão naquela região.
Forças de paz demasiado brandas?
Os comentários de Nymo surgem numa altura em que se intensificam as críticas à força de paz da ONU por não adoptar medidas suficientemente duras, enquanto os observadores consideram que o facto de as tropas internacionais não reagirem directamente aos ataques, constitui um sinal permissivo para as milícias.
Pressionado intensamente sobre este aspectos, Nymo admitiu que as tropas internacionais no terreno apenas se limitam a cumprir instruções da comunidade internacional a quem cabe qualquer decisão sobre uma alteração nas «regras de contacto» ou nas instruções dadas aos soldados da paz.
Nymo rejeitou ainda rumores de que haveria milícias infiltradas em Díli, afirmando que apesar de um aumento preventivo na intensidade das operações na capital timorense. «Não há qualquer indicação» que confirme isso, disse.
«Tem havido rumores de que até 300 milícias estariam em Díli. Uso esta oportunidade para garantir que não há qualquer indicação de que estão milícias activas na capital timorense», considerou.
Segundo o porta-voz, os grupos de milícias activos em Timor-Leste limitam a sua presença à zona da fronteira e «possivelmente» a algumas regiões dos distritos de Ermera e Ainaro, zonas sob comando de tropas portuguesas.