"A nossa maneira de falar é fazer teatro." Os netos de Gungunhana sobem a palco em bando

Manuel de Almeida/ Lusa
O grupo de teatro O Bando estreia esta quinta-feira a peça "Netos de Gungunhana", que faz uma reflexão sobre colonialismo, racismo, poder e os líderes de fachada.
Sufaida Moiane está vestida de negro, com um pano de capulana à cintura. Um colar de pequenas colheres enquadra-lhe o rosto. A atriz moçambicana conta que o último imperador do Estado de Gaza vive no imaginário dos moçambicanos. "Todo o mundo sabe quem foi Gungunhana, mesmo quem não foi à escola".
Todos têm uma versão diferente desta memória. "Há esta coisa de ser herói mas ao mesmo tempo é tirano, é amado por uns e por outros não", conta a moçambicana antes de entrar para um dos últimos ensaios de "Netos de Gungunhana", uma peça de teatro inspirada na trilogia de Mia Couto "As Areias do Imperador".
João Brites, encenador e cenógrafo, explica que a obra do escritor moçambicano "tem descrições muito pictóricas e, portanto, não é uma narrativa puramente literária ou poética. Ele desenvolve muitas imagens que nós criamos".
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A narrativa gira em torno da mais pequena forma de sociedade: a família. Imani, 15 anos, é o elemento dominante da peça. João Brites explica que a família do espetáculo é igual a algumas famílias que existem hoje. "Os filhos escolhem percursos políticos ou militares completamente inesperados e que os próprios pais não percebem. E esta família tem estes dois filhos nestes territórios que são contrários e tem uma filha, Imani, que é tradutora e intérprete e acaba por ser uma espécie de ponte entre os mundos".
O encenador conta que o espetáculo é uma forma de refletir sobre o colonialismo e o racismo. "Foi muito discutido aqui, entre nós, a questão da cor da pele". E a resposta artística para falar deste tema sensível não tardou em chegar: os atores negros fazem de brancos e os atores brancos fazem de negros.
João Brites confessa que o tema "criou uma certa celeuma porque, neste momento, existe uma tendência que é um bocadinho um tabu, que eu compreendo que é uma correção das injustiças brutais que têm sofrido os povos de pele mais escura ao longo de milénios".
Alice Stefânia, brasileira, também faz parte do elenco da peça. Veio de Brasília para pensar o colonialismo. "No Brasil, começou um momento com os últimos governos, com as políticas sociais de entendimento da necessidade de uma reparação histórica com alguns povos que, infelizmente, está em vias de ser interrompida. A gente não sabe o que é que vai acontecer agora mas é uma discussão que é sempre importante", detalha
Os artistas também exploraram o campo dos sotaques com o intuito de dignificá-los. E aproveitam para elevar a língua portuguesa contra o "inglês imperialista". "O inglês permite estarmos em contacto com o mundo todo e acabou por ser a língua onde nós mais nos ligamos e comunicamos uns com os outros e ainda bem que é. De qualquer maneira, não podemos ficar alheios a que está a incutir-se uma maneira de pensar", justifica João Brites.
O Bando no São Luiz
O grupo de teatro O Bando deixou o Vale de Barris em Palmela e, por estes dias, faz casa no São Luiz. João Brites e o resto do bando estão por Lisboa mas não perderam os hábitos de tribo adquiridos ao longo de 40 anos.
Às 19h00, fazem pausa no ensaio para jantar. Sopa, carne guisada, arroz e feijão-verde. Há vinho e água. E, no fim, todos lavam a loiça. "Isto também é uma maneira de nós estarmos juntos, discutir o espetáculo - à mesa também se discute. Isto são horas intensivas de trabalho" explica Brites e acrescenta que o grupo tem "uma espécie de paixão por uma maneira de gritar, de dizer coisas, de falar. Mas a nossa maneira de falar é fazer teatro".
Nesta espécie de tribo, a chegada de atores do Brasil e de Moçambique cai como uma luva no ambiente do grupo. "O Bando é quase uma utopia para nós do Brasil porque realmente é uma maneira de estar no mundo, enquanto artistas, enquanto pensadores. É uma maneira que nos inspira muito", confessa Diego Borges, ator brasileiro que integra o elenco.
Raul Atalaia, ator que coopera com o Bando há muitos anos, conta que o confronto com outras realidades e o contacto com outros artistas tem sido um dos segredos do Bando. "Aquilo que somos nunca chegou para nós. Precisamos sempre de ser mais", remata.
Por estes dias estão em Lisboa mas é na base de operações em Vale dos Barris, Palmela que o Bando voa realmente. O sítio é especial para os atores do grupo e para quem os visita porque "naquele vale as vozes ecoam de outra maneira", conta Brites.