"Com 50 anos sinto que tenho de remar tudo de novo." Criolo, o artista que "é de tudo um pouco" em palco

Hélder Fruteira
Criolo é um dos artistas mais inovadores e influentes da música brasileira contemporânea e regressa a Portugal para apresentar o novo espetáculo "Criolo 50" em cinco palcos nacionais. Em entrevista à TSF, o artista conta como “respira música” e em palco é “de tudo um pouco”, numa altura em que celebra 50 anos.
Conseguir chegar aos 50 anos é um presente, é uma dádiva. Celebrar as amizades, celebrar esse presente que é respirar música, aprender música todos os dias. É um show que eu celebro, cada fase da vida e cada fase musical.
E como é que o faz em palco? É assim tão nítida cada fase ou é tudo embrulhado?
Eu acho que é tudo um pouco misturado. Eu não faço uma linha do tempo musical, por exemplo, músicas de 2002, depois músicas de 2004, 2006... Até chegar hoje. Não, eu vou misturando. A gente conversa entre si como consegue fazer uma apresentação que tenha um começo e meio fim, que tenha uma dinâmica que seja agradável ao público, que seja agradável ao ouvinte, uma dinâmica musical que seja atraente e que traga um bem-estar às pessoas, que gostem desse fio condutor.
O Criolo é um dos MCs mais importantes do Brasil. É filho de cearenses, mas cresceu e vive em São Paulo. Nessa cidade grande descobriu primeira magia das palavras e só depois, com o rap, percebeu que podia dar voz a tudo o que queria dizer?
Eu acho que sempre falta. Sempre tem aquilo que eu não consegui expressar corretamente e sempre tem aquilo que eu ainda também não percebi. Então eu acho que sempre fica faltando alguma coisa. Mas tudo que foi feito, foi feito com intensidade do coração, com sentimento, com respeito a todos sempre, com carinho a quem está vivendo aquela rotina do que é sobreviver nesse terceiro milénio, nesse mundo globalizado, onde a gente consegue construir coisas incríveis, mas também tem muita coisa que poderia ser melhorada e ainda não melhorou.
Imagino que tinha muitas outras influências musicais, mas o rap acabou por ser o seu caminho.
Sim, o rap me acolheu sem preconceitos. O rap é uma energia que faz com que as pessoas se encontrem e se fortaleçam. Então, por mais que exista o samba muito forte na minha alma, na minha vida, o forró e todas as estruturas musicais que vêm do nordeste do país, o rap se tornou um grande aliado de comunicação na minha vida.
Mas nunca quis ficar só nesse lugar.O samba aparecia no “Convoca o Seu Buda”, depois homenageou o Tim Maia com o Ivete Sangalo, depois gravou mesmo um álbum só de sambas (o “Espiral da Ilusão”)... Mesmo o samba também não é só festa, o samba também já foi marginal.
As pessoas que faziam samba no Brasil eram perseguidas e tidas como pessoas que não mereciam o respeito da sociedade. As pessoas eram perseguidas, eram presas, mas isso tudo era por conta dessa questão cultural de onde quem faz o samba. Hoje o samba é uma celebração máxima da cultura brasileira.
Já gravou com nomes como Emicida, Gal Costa, Ney Matogrosso, Ivete Sangalo, Milton Nascimento, até aqui com Amar Andrada, Dino Santiago, com Amar Freitas, com Jaros Macalé...É um caminho muito rico do Criolo com nomes grandes da música. O Criolo fez com que o rap não fosse tão olhado de lado no Brasil?
Eu acho que o rap me trouxe a força, a energia, o rap me apresentou para o mundo musical do Brasil. Então todas essas pessoas de alguma forma abraçaram o rap que eu oferecia a elas. O rap foi a chave que abriu as portas desses grandes mestres da música brasileira.
E vai ouvindo novos Mc's, vai descobrindo hoje novos nomes?
Aqui tem muita gente boa. Toda a hora aparece muita gente boa. (…) Recentemente, tem o lançamento, em Lisboa, de um álbum dirigido pelo Dino de Santiago, que é um artista magnífico. Ele fez um trabalho com jovens, tem um trabalho de poesia, de música... eu tenho escutado esse disco sem parar. É um álbum muito forte, muito intenso. Então acho que tem sempre muita gente maravilhosa, é um prazer ter a oportunidade de citar esses jovens, de falar com gente incrível, fazendo coisa legal.
Do álbum “Nó na Orelha”, que é de 2011, já levam quase 15 anos. Nessa altura, queria mesmo parar?
Sim, era um álbum de despedida, que nem álbum seria.
Um amigo meu chamado Ricardo, da Matilha Cultural, me deu a oportunidade, me estendeu a mão e falou: “Grave essas canções então, já que você vai parar. Grave o que você quiser gravar, fique à vontade.” E aí ele chamou o Marcelo Cabral, um produtor musical incrível. O Marcelo Cabral convidou o mestre Daniel Gajamé e juntos, começaram a ouvir as músicas, tudo que eu trazia na minha pequena mochila musical e criaram o “Nó na Orelha”.
Mas você parava e fazia o quê? Dedicava-se à produção? Tinha outros planos?
Não, não, subemprego. Trabalhar no farol, trabalhar vendendo... Eu trabalhei vendendo roupa de porta em porta, eu trabalhei vendendo doce na praça, no trem, no ónibus, trabalhei com venda de temperos, a gente comprava tempero, montava aquelas packs de temperos e ia batendo de porta em porta, oferecendo também nos bares, nas lanchonetes, nas casas esses temperos. Trabalhei com venda de produto de limpeza, a gente fazia o produto de limpeza também, e vendia na garagem de casa. Fases diferentes, momentos diferentes da vida.
Nem sempre o êxito cultural, nem sempre o êxito das estruturas de conceção de saberes está aliado ao êxito económico. Sempre converso com as pessoas, a pessoa fala: “Que bom que você deu certo, né?” Aí eu fico pensando que a gente não pode misturar as coisas. Uma coisa é você sentir que a sua arte faz bem para você, sentir que a sua arte pode trazer um sorriso para uma outra pessoa, então deu certo. Não necessariamente vai dar certo economicamente. Se puder dar certo economicamente, melhor ainda, mas é só para não misturar, porque às vezes a gente coloca um jovem, um menino, uma menina jovem que está na luta como uma pessoa fracassada.
Mas a verdade é que o “Nó na Orelha” acabou por ser um sucesso. Isso mudou também a sua perspetiva na altura?
Mudou tudo, porque o que era para ser uma despedida se tornou num novo recomeço, onde eu tive que aprender tudo de novo. E lhe confesso, hoje ainda me sinto num segundo recomeço. Ao fazer 50 anos de idade, sinto que eu tenho de aprender tudo de novo, de remar tudo de novo e de aprender tudo de novo.
“Criolo 50”, o espetáculo que Criolo traz a Portugal, narra a trajetória do artista, nos seus 50 anos de vida e confirma-o com uma identidade madura, sofisticada e inovadora - sem perder o vínculo com as suas origens no Hip-Hop.
