Miguel Carvalho: "Preocupa-me a força com que a narrativa do Chega já entra nas escolas"

Miguel Carvalho no programa "A Escuta do Mundo", da TSF
Ana António / TSF
O jornalista Miguel Carvalho esteve à conversa com Nuno Artur Silva no programa "A Escuta do Mundo", da TSF, a propósito do livro "Por Dentro do Chega"
Miguel Carvalho explica que decidiu escrever o livro para compreender o fenómeno do Chega, as suas origens e o tipo de pessoas que encontrou no partido. "Sempre quis perceber o fenómeno por dentro", afirma, sublinhando que o contacto direto com o terreno lhe devolvia em 2019 uma realidade oposta da ideia - então dominante - de que o Chega seria um fenómeno passageiro.
Para Miguel Carvalho, o sucesso do livro prende-se precisamente com esse desconhecimento ainda muito grande sobre o fenómeno e sobre a forma como cresceu e se consolidou. A obra vai já na sétima edição e soma cerca de 30 mil exemplares vendidos desde o lançamento, em setembro.
Ao longo da investigação, Miguel Carvalho procurou separar claramente o aparelho político do Chega do seu eleitorado. No livro, descreve um universo muito mais diverso e complexo do que aquele que inicialmente esperava encontrar. "Há muita gente que adere ao Chega por se identificar com três ou quatro temas e rejeita profundamente outros", explica. O jornalista afirma ter encontrado pessoas oriundas de espaços políticos muito distintos, desde o Ergue-te ao MRPP, uma diversidade que o surpreendeu. Mas o que mais o inquietou, porém, foi a força com que a narrativa do Chega já entrou nas escolas e nas faculdades. "Esse é, para mim, o tema mais assustador", admite.
O jornalista sublinha que "90% do livro é o Chega a falar de si próprio", garantindo que partiu para o terreno sem preconceitos. Reconhece que o jornalismo vive hoje um afastamento real em relação ao país: "As pessoas revoltam-se contra os jornalistas e, em alguns casos, têm razão", afirma, apontando tanto um jornalismo "populista e justiceiro" como um jornalismo "elitista e fechado na sua bolha".
Miguel Carvalho defende que o contacto permanente com o terreno - que marca o seu percurso desde o início dos anos 90, com reportagens sobre saúde, educação e política local - lhe permitiu antecipar sinais que outros ignoraram. "Havia recalcamentos e ressentimentos que eu já pressentia há vários anos", que foram ignorados pelos responsáveis políticos.
Chegam-lhe diariamente mensagens de leitores, incluindo pessoas que saíram do partido ou que ainda têm dúvidas, muitas delas a partilhar fotografias com o livro: "Imaginava que pudesse passar a linha de converter os convertidos e a verdade é que está a chegar a outras paragens", conclui.
"A Escuta do Mundo" é um programa de Nuno Artur Silva, para ouvir às quartas-feiras depois das 13h00, com repetição aos sábados depois das 11h00. Sempre em TSF.pt e nas plataformas de podcast.