Na era digital, ainda há quem prefira relógios mecânicos: António e Diogo dedicam-se a "ressuscitá-los"
Autor: David Alvito
Ao entrar no atelier, é como se entrássemos no mundo do coelho da "Alice no País das Maravilhas". Os sons dos relógios recebem-nos e acompanham-nos ao longo do trajeto do pequeno, mas acolhedor, estabelecimento na Baixa de Lisboa. São eles que nos levam numa verdadeira viagem pelo tempo, comandada pelos ponteiros.
Numa altura em que os relógios digitais e os smartwatches estão cada vez mais presentes nas casas e nos pulsos de milhões e milhões de pessoas, existe ainda um pequeno nicho que continua a manter os relógios mecânicos. Aqueles que durante anos e anos nos ajudaram a ler o tempo. Mas todas essas peças, compostas por centenas de pequenas partes, precisam de manutenção e reparação.

É aí que entra o trabalho de António Desidério. O relojoeiro português formou-se na Casa Pia, passou pela Suíça e regressou à capital para fundar o atelier RPN e trabalhar com estes relógios mecânicos e automáticos. Revela que o trabalho que desenvolve passa por "reparar as marcas mais sonantes da alta relojoaria".
"Os relógios mais antigos, os que pertenciam ao avô, que estão lá na gaveta perdidos e que precisam de ser ressuscitados. Temos essa possibilidade. Normalmente, muitos esses relógios têm peças que estão gastas ou partidas e já não existem essas peças. E aí nós temos uma outra possibilidade, que é, através do torno, acabar, melhorar, afinar, fazer peças, adaptar peças para os tais relógios que, de outra forma [já não trabalhariam], porque já não há peças", explica.

Hoje em dia, os relógios de quartzo, digitais ou de ponteiros, e os relógios inteligentes já fazem parte do dia a dia da generalidade das pessoas. O preço mais acessível e a multiplicidade de funções tornam estes objetos mais apetecíveis. No entanto, garante António Desidério, clientes não faltam no atelier. "Temos muito trabalho e somos uma solução muito boa e reconhecida pelos clientes", destaca o relojoeiro.
Ao lado de António Desidério está Diogo Desidério. O filho seguiu as pisadas do pai na Casa Pia e também é relojoeiro. Passou igualmente pela Suíça e trabalha ao lado de António. É ele que nos explica o caminho que o relógio faz desde que entra no atelier até que é entregue ao cliente.
"Na manutenção do relógio, ao desmontar, é quando vamos solucionar os problemas. O relógio é desmontado na totalidade, ou seja, todos os componentes da caixa, sejam vidros, pulsadores, juntas. É tudo desmontado de A a Z. E no movimento a mesma coisa. Fazemos também o polimento dos relógios, caso os clientes o queiram. Temos todo o equipamento topo de gama para se fazer um polimento perfeito em superfícies arredondadas ou planas. No final, executamos um teste do sistema automático, para ver se o relógio tem autonomia dentro e fora da caixa. Depois é entregar ao cliente e esperar que ele fique contente", sublinha Diogo.

Mas desengane-se quem pensa que este é um trabalho rápido. Diogo Desidério revela-nos que a reparação de um "relógio vintage, às vezes, pode levar uma semana, duas semanas".
"Num relógio mais moderno, muitas vezes, o que acaba por demorar mais é a afinação final da marca. E o polimento leva muitas horas. Um Rolex assim simples, a reparação total, de A a Z, pode levar umas cinco a seis horas, se tudo correr bem", diz.

Mas este ofício está além do negócio. É o que nos revela António Desidério. "Isto dá muito trabalho, a pessoa tem que ter gosto. É esta coisa da paixão e esta paixão também se transmite ao cliente. Se o cliente às vezes também não pode pagar, ok, não paga. Está bem, é como é. Infelizmente, por causa dos timings, eu não consigo reparar todos. Ao fim ao cabo é a vontade de resolver. Isto pode dar a sensação que, por ser um atelier, não importa só a parte financeira, porque, em muitos destes trabalhos, eu perco semanas. E, às vezes, com esse tempo, eu reparava estes relógios mais recentes e ganhava dinheiro. Há um pouco aquela vontade de ajudar as pessoas, porque, eles vão-me pagar. Só que o que pagam não justifica. Isto é um prazer, pronto. Também já estou um pouco mais nessa fase, não é?", reconhece o relojoeiro.
Por isso, a questão sentimental de cada relógio é o que leva, muitas vezes, a que nada fique para trás. "Na verdade, há certos problemas que os relógios têm, que, ao olharmos, era mais fácil dizer que não, isto é uma dor de cabeça, não vou fazer. Mas, não, abraçamos o desafio e, no final, o objetivo é o cliente estar contente. É um desafio. E o cliente precisa. Jamais ninguém o vai fazer. A fábrica não aceita e ninguém vai fazer. E, para o cliente, é aquele valor sentimental, não é? É esse valor sentimental que está associado aos relógios. Nós sentimos isso e fazemos", frisa.
O homem sempre quis dominar o tempo e com o relógio pensou que esse domínio estivesse completo. Mas é precisamente o contrário. É o tempo que nos domina e é o relógio que nos leva. E, como o coelho da "Alice no País das Maravilhas", estamos sempre atrasados.
