Em Podence não há só chocalheiros - também há "Caretas"

Para evitar que a tradição morra, já não são apenas os rapazes de Podence que se mascaram de Caretos e vão chocalhar as raparigas. Na aldeia transmontana, também já há raparigas a celebrar o entrudo chocalheiro.

Na aldeia de Podence, no concelho de Macedo de Cavaleiros está, segundo a população, o carnaval mais genuíno do país. É o entrudo chocalheiro onde os rapazes se vestem com fatos coloridos feitos de mantas, máscaras e muitos chocalhos. São os caretos! Representam imagens diabólicas e misteriosas que fazem todo o tipo de tropelias. Saltam, gritam e, como manda a tradição, chocalham as raparigas solteiras, numa espécie de ritual erótico, batendo com os chocalhos nas ancas delas. A tradição perde - se no tempo.

Ouça a reportagem de Afonso de Sousa em Podence

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Esta terça-feira de Carnaval é o dia principal dos caretos de Podence saírem à rua e no meio deles vai andar um, ou melhor, uma careta chamada Ana Sofia. "Desde pequenina que vestia o fato de careto e fui sempre vestindo ao longo dos anos. Comecei por vestir os fatos que eram do meu avô e que passaram de geração em geração".

Hoje, com 21 anos, veste-se mais a sério porque, diz, "tenho no sangue aquele poder de ser "careta" que já vem de família. Sou neta dum homem que era careto, sou filha dum homem careto e adoro. É uma grande sensação que uma pessoa sente quando estamos por detrás da máscara com o fato vestido e aqueles chocalhos a poder chocalhar as pessoas. Chocalho tudo, homens e mulheres. Ninguém sabe que sou menino. Quando se quer beber levanta-se um bocadinho da máscara porque ninguém pode saber que eu sou menina". E o que é que dizem os homens Ana Sofia? " Gostam, por acaso, gostam. Estão sempre a dizer-me: - Vai-te vestir, vai-te vestir!".

Também o Tomás José de 12 anos vai vestir o fato. Há cinco que o faz. É dos mais novos. "Acho que é uma tradição muito bonita", diz, ao mesmo tempo que confessa que quer vestir o fato nos anos que aí vêm e sempre que puder porque também gosta de "chocalhar as miúdas".

A tradição, que se perde no tempo, esteve quase moribunda nos anos 70 por causa da emigração e da falta de gente. Hoje está no seu auge. António Carneiro, presidente da Associação dos Caretos gostava que fossem só homens a seguir a tradição, mas à falta deles "é um bocado contra os meus princípios mas mais vale que as coisas aconteçam do que não aconteçam". Com elas ou com eles, este é o mais genuíno carnaval do país, acrescenta, "se não for o principal é dos principais. É muito autêntico, não há aqui estrangeirismos. É um carnaval tradicional com muita cor, com muita alegria e muito vivo".

Também por aqui se diz que, como as culturas, as tradições não são melhores nem piores, são diferentes e os Caretos de Podence estão mais vivos que nunca. Com o Tomás, a Sofia e muitos outros a tradição promete manter-se anualmente e continuar a fazer do entrudo chocalheiro de Podence o mais puro e verdadeiro do país.

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