Estreia a obra da primeira árabe nomeada para um Óscar de Melhor Filme Estrangeiro

É o mais recente filme da libanesa Nadine Labaki, "Cafarnaum". A TSF entrevistou a realizadora que acredita que "a fonte do mal no mundo é a infância sem amor".

Quando foi exibido no Festival de Cannes, no ano passado, "Cafarnaum" deixou a plateia emocionada e num aplauso que demorou 15 minutos. A terceira longa-metragem de Nadine Labaki, depois de "Caramel" (2007) e "E Agora, Onde Vamos?" (2011), acabaria por vencer o Prémio do Júri no prestigiado festival francês.

Entretanto, depois de um longo percurso internacional, perdeu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro para "Roma" de Alfonso Cuáron, também concorrente na mesma categoria dos Óscares da Academia. O vencedor será conhecido a 24 de fevereiro mas a realizadora libanesa, em entrevista à TSF, considera que tudo o que tem acontecido já é uma vitória.

Com esta nomeação, Nadine Labaki tornou-se também a primeira realizadora árabe a ser nomeada para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Antes dela, apenas a cineasta egípcia Jehane Noujai tinha sido nomeada, mas na categoria de Melhor Documentário, em 2013.

Porquê "Cafarnaum", a cidade bíblica?

Esta cidade foi amaldiçoada por Jesus, foi a cidade onde ele fez alguns dos seus primeiros milagres, mas também foi amaldiçoada. E, mais tarde, ao longo da história, o termo começou a ser usado, principalmente na literatura francesa, para significar "caos" e foi por isso que escolhi "Cafarnaum". Mas ao mesmo tempo, simbolicamente, é também uma cidade de milagres. Por isso, para mim, toda esta aventura foi uma mistura entre caos e milagre, encontrar milagres no caos todos os dias.

Li que o seu marido lhe deu um quadro para escrever as ideias que ia tendo para o filme. Ainda se lembra do que escreveu?

Uma das palavras mais importantes foi "trabalho infantil". No quadro ia pondo todos estes temas de que eu queria falar no filme. Escrevemos trabalho infantil, tráfico de crianças, casamento infantil, trabalho doméstico, absurdo das fronteiras, absurdo de ter de ter um papel para provarmos que existimos, burocracia. Todos esses temas... migrantes, crise dos refugiados... A certa altura olhei para o quadro e pensei o que era óbvio: "Cafarnaum", é um completo caos.

Apesar desse caos ser geral, decidiu focar-se na infância, nas crianças. Porquê?

Porque, sabe, eles não pediram para que isto acontecesse. Um adulto pode ser responsável pelas suas decisões, pelo seu destino às vezes, mas uma criança não é responsável e está a pagar o mais alto preço pelos nossos erros e falhas e a maioria nem pediu para estar cá. Durante a minha pesquisa, inspirou-me muito o que essas crianças me diziam. Elas costumavam dizer-me "não sei porque nasci, não pedi para estar aqui", "porque é que nasci se ninguém me ama, se ninguém cuida de mim, se vou ser espancado, abusado, violado". Acho que esta é grande questão, porque se queremos criar um mundo melhor, é por aqui que tem de começar esse trabalho, com as crianças. Acredito piamente que a fonte do mal no mundo é a infância sem amor e temos de ter cuidado com o que estas crianças se vão tornar. E não estamos a falar de centenas ou milhares, mas de milhões de crianças em todo o mundo que estão a viver naquelas condições, desprovidas dos seus mais básicos direitos e estas crianças estão a crescer zangadas e às vezes já desprovidas de emoções, já não sentem nada. Estão tão traumatizadas, tão abusadas, que já não sentem nada. O que vai ser dessas crianças quando crescerem?

Falta o mais básico, o amor...

Não, elas não conhecem o amor e isso é o mais importante. Eu fiz muita pesquisa enquanto preparava o filme e uma vez cruzei-me com uma imagem que mostrava o cérebro de uma criança amada e de uma criança sem amor e podemos ver uma enorme diferença a nível biológico. O cérebro de uma criança amada é como uma grande e bonita bola e o cérebro de uma criança sem amor está mirrado como uma maçã podre. Por isso, mesmo biologicamente, o amor tem um enorme impacto.

No filme todas estas questões têm um rosto: Zain. Quando o encontrou sabia que era o seu protagonista?

Zain é um refugiado sírio e viveu no Líbano nos últimos oito anos, em circunstâncias muito difíceis. Ele vivia numa daquelas favelas, como as que vemos no filme. Quando o conhecemos ele tinha 12 anos e nunca tinha ido à escola. A minha diretora de casting viu-o na rua porque fizemos o casting na rua, não é como nos castings normais em que as pessoas vêm ter connosco para uma audição, nós é que vamos à procura. E nenhum deles é ator, são pessoas que vivem situações semelhantes às das suas personagens. E o Zain estava na rua, a brincar com os seus amigos, e assim que a minha diretora de casting o viu percebeu que ele era uma criança especial. E ele é especial, é um rapaz milagre. Quando vi a entrevista dele, soube. Porque ele cresceu nas ruas, é muito duro, muito esperto, sábio, é como um adulto. Ele é como o vemos no filme. Zain é o Zain e por isso mantivemos o nome dele, até porque não queria que ele sentisse que estava a interpretar ou se estava a tornar outra pessoa. Ele tinha de ser ele próprio no filme.

Com a exceção da cena do tribunal, é tudo muito real no filme, quase um documentário. Não podia ser de outra forma?

Sim, estava destinado a ser assim porque eu queria captar, o mais possível, a realidade do que está a acontecer. Senti que não tinha o direito de apenas imaginar a história ou o que se passa, eu queria estar como se estivesse a espreitar pelo buraco da fechadura, tornar-me uma testemunha do que está a acontecer, e é por isso que foi rodado de uma forma muito documental. A cena do tribunal é a única parte ficcional do filme
e é muito simbólica porque nenhum miúdo pode alguma vez processar os pais por lhe terem dado a vida. Mas simbolicamente foi muito importante porque eu precisava de traduzir a raiva daquelas crianças que eu via. Quando elas me diziam "não sei porque nasci", é como se eles tivessem esta noção de Justiça.

Os dois primeiros filmes que fez são otimistas mas este é completamente diferente. Sentiu a necessidade de contar estas histórias? E depois de o fazer, mudou-a enquanto realizadora, mas também como mulher e mãe?

Sim, completamente. Já não sou a mesma pessoa. Claro que estas histórias sempre me tocaram e emocionaram, sou realizadora e uma observadora, sei o que se passa, mas vivê-lo tão profundamente durante quatro anos da minha vida - porque passei estes quatro anos a fazer este filme, a pesquisar e depois disso a filmar durante 6 meses - e estar tão imersa nesta realidade todo este tempo, filmar naquelas favelas, a viver ali... E depois, obviamente, voltamos à nossa vida, dormimos numa cama quente e não podemos voltar a ser a mesma pessoa. Isto fica connosco, não nos deixa, ficamos com a sensação de que não temos o direito de viver normalmente, de apreciar nada. Mas penso que o que ajuda é pensar que pelo menos estou a tentar fazer alguma coisa. Criámos uma fundação e estamos a tentar ajudar as famílias que estão no filme. Todos os miúdos estão agora na escola, nenhum está nas ruas, o que é um grande salto, um grande passo. E estamos a tentar. É muito difícil convencer os pais a não mandar as crianças outra vez para a rua, é difícil criar outro ambiente, outra cultura, mas estamos a tentar.

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