Cultura

Manuel Alegre/Prémio Camões 2017: "A poesia como território de resistência"

O poeta diz que "talvez a crise atual necessite de novo da voz dos filósofos e dos poetas". O PM elogiou a "voz politicamente indomável". Alegre não quer pensar no Nobel porque "faz mal à cabeça".

Emocionado, na hora de receber o Prémio Camões, o maior galardão da língua portuguesa, Manuel Alegre defendeu que a literatura e a poesia possam representar a "resistência contra o pensamento único", num momento em que talvez se "necessite de novo da voz dos filósofos e dos poetas".

"Nesta era da globalização e de um novo bezerro de ouro, em que o poder financeiro impõe a sua hegemonia sobre a política, a democracia, a cultura e os próprios Estados, a literatura e, em especial, a poesia, podem ser ainda um território de resistência contra o pensamento único e de defesa da liberdade de escolha de cada povo", afirmou Manuel Alegre.

Na cerimónia no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, Alegre recebeu o prémio das mãos do primeiro-ministro, António Costa, do embaixador do Brasil em Lisboa, Luiz Alberto Figueiredo Machado, e do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes.

"Por mais estranho que pareça, o povo anda na rua a falar Camões. Fala nas ruas de Portugal. Mas também nas ruas do Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, Timor e São Tomé e Príncipe. Não tem consciência disso, não sabe que há um Acordo Ortográfico e também não precisa dele. Mas fala Camões, quero dizer: fala a Língua Portuguesa", disse Manuel Alegre.

O poeta e escritor lembrou que o Português "anda pelos cinco continentes, língua de diferentes identidades e culturas, em que as vogais, não têm todas a mesma cor. E em que as consoantes, como se sabe, em Portugal assobiam, na África cantam e no Brasil dançam".

Depois da cerimónia, o ministro da Cultura disse que a Academia das Ciências de Lisboa indicou para a lista do Nobel de Literatura os nomes de Agustina Bessa-Luís e Manuel Alegre, mas o poeta prefere não abordar o assunto.

"A minha amiga Sophia dizia não se devia pensar em prémios pois fazia mal à cabeça", ironizou Alegre.

No discurso de elogio a Manuel Alegre, o primeiro-ministro, António Costa destacou o histórico socialista como uma voz "politicamente indomável", porque "poeticamente livre".

"Para além e para aquém da resistência política que nesta obra se afirma, ela é, no entanto, antes e depois disso, uma obra de resistência poética. Daí a sua vibração, a sua veemência, a sua validade. Com os seus poemas e a voz que deles nasce, Alegre desafiou poderes, denunciou crimes, comunicou esperanças, deu notícias de júbilo e de tristeza, levantou ânimos, exaltou e empolgou multidões, unidas ou dispersas", argumentou António Costa.

O primeiro-ministro considerou ainda que "é em nome da liberdade" que Alegre "diz que continua a dizer sim e não", para acrescentar: "Mais vezes diz não do que sim", motivando sorrisos na sala do Palácio da Ajuda, em Lisboa.

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