História

O último Imperador que morreu como um homem simples

Pu Yi, da Casa de Aisin Gioro da Dinastia Qing, foi coroado Imperador da China em 1908, com dois anos e dez meses. Uma vida extraordinária que terminou a 17 de outubro de 1967, há exatamente 50 anos

Pu Yi acabou os dias como um homem comum, um simples jardineiro em Pequim, mas nada foi simples na vida do último Imperador da China que subiu ao trono com quase três anos de idade.

Em 1908, Pu Yi era pouco mais do que um bebé quando é retirado à mãe e levado para a Cidade Proibida. Com a morte da Imperatriz, Pu Yi seria coroado Imperador da Dinastia Qing, à frente dos destinos do país desde 1644.

Na Cidade Proibida, o pequeno Imperador foi educado sem contacto com o mundo exterior, rodeado por centenas de eunucos, como um prisioneiro numa prisão de luxo, envolvido em protocolos rígidos e regras pouco flexíveis, moldadas por tradições milenares.

No entanto, fora das portas do Palácio Imperial, a China inquieta-se. Estava em marcha a Revolução Xinhai ou Revolução Hsinhai, a primeira revolução chinesa, que acaba com um sistema imperial de dois mil anos e instaura a República.

Pu Yi tinha então seis anos e viu a Imperatriz regente ser obrigada a abdicar do poder, a 12 de fevereiro de 1912. A nova ordem permitiu ao pequeno Imperador manter o título, mas passou a ser tratado como um monarca estrangeiro, com direito a um subsídio do Estado, mas impedido de deixar os limites da Cidade Proibida.

Nesta prisão de luxo, 1919 marcou um ano de mudança para Pu Yi, agora um adolescente de 13 anos. Foi nesse ano que chegou ao Palácio Imperial Reginald Johnston, um tutor escocês que abre o mundo ao jovem Imperador e que se torna seu amigo e confidente.

Em 1924, Pu Yi foi obrigado a deixar para trás, pela primeira vez, os portões da Cidade Proibida quando as tropas do Kuomintang, Partido Nacionalista Chinês, ocupam Pequim. Numa autobiografia publicada 40 anos depois, Pu Yi descreveu como chorou ao deixar o Palácio Imperial e jurou regressar um dia como Imperador.

Pu Yi refugiou-se na embaixada japonesa em Pequim e, um ano depois, entrou disfarçado num comboio rumo a Tianjin, onde se instalou no enclave japonês da cidade com a família e empregados.

No entanto, para o Japão, Pu Yi não era mais do que um trunfo precioso que pretendiam usar para conquistar a Manchúria, uma das regiões chinesas mais ricas, o que acaba por acontecer em 1931. Pu Yi regressa ao trono, que ocupa entre 1932 e 1945, mas não era mais do que um Imperador-fantoche, uma marioneta, para os japoneses.

Esta situação termina em 1945, quando o Japão é derrotado na II Guerra Mundial, devolvendo a manchúria a China. Pu Yi torna-se um criminoso de guerra e é deportado para a Sibéria. Da prisão, chegou a escrever a Estaline para evitar um regresso à China, mas seria entregue aos comunistas chineses em 1949 que o colocam num "campo de reeducação" até ao final dos anos 50.

Na década de 60, um novo capítulo. Pu Yi foi autorizado por Mao a instalar-se em Pequim, onde se torna jardineiro no jardim botânico e mais tarde bibliotecário. Foi nessa altura que escreveu uma autobiografia intitulada "De Imperador a Cidadão".

Pu Yi morreria em 1967, aos 61 anos, vítima de um cancro renal. Casado várias vezes, com duas imperatrizes e três concubinas, não deixou filhos. Em plena Revolução Cultural, Pu Yi acabou os dias como um homem comum com uma história extraordinária.

A sua história chegaria ao grande ecrã em 1987, pela mão do realizador Bernardo Bertolucci, que foi o primeiro cineasta ocidental autorizado a filmar na Cidade Proibida.

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