Cinema

Praça Paris: o Brasil que espreita por cima do ombro

O filme Praça Paris, de Lúcia Murat, estreia esta quinta-feira em Portugal.

"É um filme sobre o medo, sobre o que é que o medo pode fazer com uma pessoa", afirma Lúcia Murat, a realizadora de Praça Paris, filme que estreia esta semana nos cinemas portugueses.

Praça Paris aborda a relação entre Camila (Joana de Verona), uma psicanalista portuguesa que está numa Universidade do Rio de Janeiro a realizar uma pesquisa sobre violência e uma paciente, Glória (Grace Passô), que é ascensorista da Universidade, vive no Morro no Rio de Janeiro e tem uma história familiar complexa.

Lúcia Murat, entrevistada pela TSF, conta que a ideia do filme passa por uma situação que lhe foi descrita por uma amiga, coordenadora de um centro de terapia dentro de uma universidade.

"Ela contou que estava tendo problemas com as meninas da faculdade. Normalmente quem atende nesses centros são meninas que estudam psicologia, que estão no último ano ou que fazem mestrado, são meninas jovens, e na relação com pessoas que viviam uma violência muito extrema nas favelas começaram a ter uma relação de contra transferência e algum tipo de paranoia", revela a realizadora.

"O medo vai fazer com que uma pessoa que tem as melhores das intenções se transforme numa pessoa perversa e numa pessoa racista". É isso que acontece num filme que aborda a questão da violência, uma violência que se sente, mas não se vê de uma forma muito explícita.

"O filme é um thriller, ele trata essa questão da violência, mas a gente não trabalha com a violência de uma forma voyeurista", sublinha Lúcia Murat.

"Costumo dizer que às vezes sai-se à rua e cai uma folha, porque é outono, e tu assustas-te, porque a qualquer momento pode acontecer qualquer coisa, porque existe o medo. A cidade é violenta e depois também existe um pouco a paranoia do medo", conta Joana de Verona.

A atriz lusobrasileira revela que teve bastante tempo de ensaios no Rio de Janeiro onde se criou um clima de tensão que teve impacto na forma como passou a sentir o exterior.

"Eu nasci no Brasil, já morei no Brasil alguns anos, costumo lá ir várias vezes por ano, tenho lá trabalhado, é uma realidade que conheço, mas a verdade é que, com este filme e com o trabalhar desse clima de tensão, eu própria estava mais alerta e suscetível a alguns sinais, tornei-me mais assustadiça".

Depois de ter sido exibido em Portugal, na edição deste ano do Festin, onde foi distinguido com o prémio de Melhor Atriz, atribuído a Grace Passô, atriz brasileira que contracena com Joana de Verona, o filme estreia dia 4 de outubro nos cinemas portugueses, dois dias antes das eleições no Brasil.

"Quando o medo toma conta da pessoa, ela pode passar a aceitar propostas fascistas e racistas, que é o que está acontecendo hoje no Brasil. Por medo e por falta de conhecimento, uma grande parte da população brasileira está apoiando um candidato que tem propostas racistas e violentas", conclui a realizadora brasileira.

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