“Medo – Trump na Casa Branca”

Impulsivo, anárquico e perigoso. Um livro sobre Trump que dá medo

Quis o destino, ou a ironia que muitas vezes anda de mão dada com ele, que o título do livro (ou parte dele) saísse da boca do próprio Trump. Numa entrevista a Bob Woodward, em 2016, quando ainda era apenas candidato a ocupante da Casa Branca, disse-lhe que "o verdadeiro poder era o medo". Estava dado o mote.

"Medo - Trump na Casa Branca", que hoje chega às bancas nacionais pela mão da D. Quixote, abre com uma história quase anedótica que o autor descreve como um golpe de Estado administrativo.

"No princípio do mês de setembro de 2017, o oitavo mês da presidência de Trump, Gary Cohn, o antigo presidente da Goldman Sachs e principal conselheiro económico do presidente na Casa Branca, dirigiu-se cautelosamente para a secretária Resolute, na Sala Oval." (página 17).

Em cima da secretária, Cohn encontrou algo que o deixou boquiaberto: a minuta de uma carta de Trump, dirigida ao Presidente da Coreia do Sul, a terminar o Acordo Comercial de Comércio Livre com aquele país.

"Ao abrigo de um tratado que remontava à década de 1950, os Estados Unidos tinham 28 500 efetivos militares norte-americanos estacionados no Sul e operavam os mais secretos e confidenciais programas de acesso especial (SAP - Special Access Programs), que forneciam sofisticadas informações codificadas e recursos militares ultrassecretos. Os mísseis ICBM norte-coreanos já tinham a capacidade de transportar uma ogiva nuclear, talvez até ao território americano. Um míssil lançado da Coreia do Norte demoraria 38 minutos a chegar a Los Angeles. Esses programas permitiam que os Estados Unidos detetassem o lançamento de um ICBM na Coreia do Norte em sete segundos. No Alasca, a capacidade equivalente demorava 15 minutos - um enorme diferencial de tempo. A capacidade de detetar um lançamento em sete segundos daria tempo às Forças Armadas dos Estados Unidos para intercetar um míssil norte-coreano. É, talvez, a operação mais importante e mais secreta do Governo dos Estados Unidos. A presença americana na Coreia do Sul representa a essência da segurança nacional." (página18)

Perante a iminência do rasgar de um acordo desta importância, o que decide fazer Cohn?

"Roubei-a da secretária dele", contaria mais tarde a um associado. "Não podia deixar que ele a visse. Ele nunca vai ver aquele documento. Tenho de proteger o país." Na anarquia e desordem da Casa Branca, e da cabeça de Trump, o presidente nunca reparou na carta desaparecida."

Woodward nem nos deixa passar do prefácio para mostrar que o conselheiro económico se entende com Rob Porter, o secretário da Presidência e organizador dos documentos presidenciais, ensaiando juntos várias estratégias, sempre com o mesmo objetivo.

"Cohn e Porter trabalharam em conjunto para fazer descarrilar aquelas que consideravam as ordens mais impulsivas e perigosas de Trump. Aquele documento, e semelhantes, simplesmente desapareceram. Quando Trump tinha uma minuta na secretária para rever, por vezes Cohn tirava-a e o presidente esquecia o assunto. Todavia, se estivesse na sua secretária, assinava-a. "Não é o que fizemos pelo país", diria Cohn em privado: "É o que o impedimos de fazer." (página 19)

Estes são os casos que mostram a resistência silenciosa na Casa Branca para refrear os impulsos de Donald Trump.

"Membros da sua equipa tinham-se unido para bloquear de forma premeditada o que acreditavam serem os impulsos mais perigosos do presidente. Era um esgotamento nervoso do poder executivo da nação mais poderosa do mundo." (página 22).

Lembram-se de Watergate?

Este não é o primeiro, nem será o último livro sobre Trump. O que o tornou então um best-seller desde que foi anunciado e um sucesso comercial desde que chegou às bancas (nos Estados Unidos vendeu um milhão de exemplares logo no primeiro dia)?

Em primeiro lugar, o autor. Bob Woodward é uma referência do jornalismo político há mais de 40 anos. Para ele, Trump é "apenas" o nono presidente com quem lida.

Editor do Washington Post, tem dois Pullitzer - e um deles pela investigação que levou à destituição de um Presidente em funções: Richard Nixon, em 1974. E este, diga-se o que se disser, é um carimbo de inegável qualidade.

O livro, lançado em setembro nos Estados Unidos, tornou-se um embaraço político para o Presidente que, furioso lhe chamou ficção. E a isto Bob Woodward respondeu, numa entrevista à cadeia norte-americana ABC: "Tenho 47 anos como repórter e muitas vezes só nos livros de memórias é que as pessoas reconhecem os factos."

Sem contar com a bibliografia, Woodward descreve em 414 páginas uma Casa Branca a que poucos têm acesso. Revela muito, mas porventura, o entusiasmo editorial é mais sobre o que confirma: que há uma Casa Branca disfuncional e à beira de um esgotamento.

Bannon, a impressão de dinheiro e a quase guerra por causa de um tweet

Em 2010, Steve Bannon - que ainda só realizava pequenos filmes de propaganda de direita - e Donald Trump conheceram-se. O episódio marcou aquele que viria a comandar a sua campanha e que se tornou um dos seus principais conselheiros, mas não pela positiva. Saiu desse primeiro encontro a garantir que Trump nunca seria Presidente.

"Não tem hipótese. Zero", repetiu Bannon(página 34).

O mesmo Bannon que, a 3 meses das eleições, ainda acreditava que Hillary Clinton ganharia por uma diferença de dois dígitos.

Outra das histórias contadas por Woodward dá-se numa conversa com o homem que viria a ser o seu conselheiro económico nacional.

"Cohn ficou espantado com a falta de conhecimentos básicos de Trump. Tentou explicar. Se a Administração, como Governo Federal, pedisse dinheiro emprestado através da emissão de obrigações, estaria a aumentar o défice dos Estados Unidos. "Como assim?", perguntou Trump. "Basta ligar as máquinas... imprimir dinheiro." "O senhor não pode fazer isso assim", disse Cohn. "Temos enormes défices e eles são importantes. O Governo não faz as contas dessa forma." (página 87).

As explicações não seriam suficientes, porque, segundo o que conta Woodward, Trump voltaria a insistir, mais à frente na conversa: "Porque não? Porque não?"

O livro revela ainda um Trump horrorizado com os gastos na Defesa, e incapaz de perceber os seus objetivos, fosse na Coreia ou na Nato.

"Em várias conversas telefónicas seguras com o presidente Moon Jae-in da Coreia do Sul, Trump tinha intensificado as críticas ao acordo de comércio KORUS entre os dois países. Não ia largar a questão do défice comercial de 18 000 milhões: "(..) Vocês estão a esfolar-nos", disse Trump, que pretendia que comércio e segurança fossem tratados separadamente. "Estou farto de vos dar dinheiro de borla!" (página 357).

A insistência do Presidente norte-americano e a aparente incapacidade para perceber ou distinguir questões questões vitais para a governação, levavam o seu próprio pessoal ao desespero. Um dos episódios relatados envolve o Secretário da Defesa.

"Mattis mostrava sinais de cansaço diante daquele desprezo perante os meios militares e os serviços de informações. E perante a recusa de Trump de perceber a relevância das duas coisas. "Estamos a fazer isto para evitar a Terceira Guerra Mundial", declarou Mattis. Foi sereno, mas brutal. Aquela declaração era de cortar o fôlego, era um desafio ao presidente ao insinuar que ele estava a arriscar uma guerra nuclear. Vários dos participantes gelaram." (página 359).

O livro mostra algumas lacunas de Donald Trump - graves, quando se é Presidente da maior potência do mundo. E particularmente assustadoras, como as do capítulo 36.

"Os tweets do presidente Trump podem ter estado perto de desencadear uma guerra com a Coreia do Norte no início de 2018. O público nunca soube a história toda dos riscos que Trump e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un correram ao envolverem-se numa batalha pública de palavras. Tudo começou no dia de Ano Novo, num discurso de Kim, que lembrou ao mundo e ao presidente norte-americano que tinha armas nucleares: "Não é uma mera ameaça, mas sim uma realidade: tenho um botão nuclear na secretária do meu gabinete", declarou o líder norte-coreano. (página 352).

A ameaça, grave e provocatória como classifica o autor, não ficaria no entanto sem resposta.

"Trump publicou um tweet insultuoso, ao melhor estilo "a-minha-é-maior-que-a-tua", que chocou a Casa Branca e a comunidade diplomática: "O líder norte-coreano Kim Jong Un disse que tem um botão nuclear na sua secretária. Alguém do seu regime miserável e faminto faça o favor de o avisar de que eu também tenho um botão nuclear, mas é muito maior e mais poderoso do que o dele. E o meu botão funciona!", escreveu Trump no Twitter às 19h49. Isto mexia com as inseguranças de Kim. Nos últimos seis anos, segundo o Centro James Martin para os estudos da não-proliferação, 18 dos 86 testes com mísseis tinham fracassado." (página 353).

Mas se o episódio do discursos seguido de tweet foi acompanhado pelo público, há uma história de bastidores, uma espécie de sequela, agora revelada por Woodward.

"Dentro na Casa Branca, mas não publicamente, Trump propôs que fosse publicado um tweet declarando que estava a ordenar a todos os dependentes de militares norte-americanos - milhares de membros das famílias dos cerca de 28 500 soldados - que saíssem da Coreia do Sul. A retirada dos familiares da Coreia do Sul iria seguramente ser interpretada pela Coreia do Norte como um sinal de que os Estados Unidos se estavam a preparar seriamente para uma guerra. (...) A hipótese de haver tweets sobre o assunto deixou de cabelos em pé a liderança do Pentágono, Mattis e Dunford. Uma declaração de intenções nesse sentido por parte do comandante-supremo das Forças Armadas norte-americanas no Twitter era quase inimaginável." (página 354).

Para alívio de quase todos, o tweet nunca chegou a ser publicado.

Histórias da formação do Governo e de inúmeras decisões por impulso. Uma Casa Branca frequentemente paralisada pela investigação do Procurador especial Robert Mueller à ingerência russa nas eleições de 2016. A gestão dos dossiers mais sensíveis como o Afeganistão, Síria, Coreia.

Razões para ter "Medo"? Woodward declara que não tem agenda política nem lhe compete dizer se Trump é o homem certo no lugar para o qual foi eleito. À ABC admitiu que juntou informação para permitir juízos informados. E, à CNN, deixou uma garantia: As centenas de horas de gravações das entrevistas que suportam o livro - com os intervenientes diretos ou testemunhas em primeira mão de tudo o que relata -, bem como centenas de documentos estão numa caixa. Que se poderá ser aberta no futuro, para confirmar a veracidade do presente.

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