Cinema

Variações, o homem cheio de mundos que foi "a metáfora de uma época"

Há plumas em cima do balcão, panos brilhantes no teto e um pequeno palco com um espelho dourado atrás. No Trumps já arrancaram as filmagens de "Variações: o filme", uma das longas-metragens mais aguardadas do cinema português.

Quem descer a escadaria do Trumps, por estes dias, encontra um cenário diferente do habitual e consegue, com alguma imaginação, recuar aos anos 1980 - mais precisamente ao dia em que António Variações se estreou enquanto cantor naquele bar lisboeta. O espaço recebe agora as filmagens de algumas cenas da longa-metragem "Variações: o filme", uma homenagem a um dos artistas mais influentes do século XX.

Foi cantor, barbeiro e uma das principais figuras da movida lisboeta. Nasceu no Minho, viveu em Nova Iorque e em Amesterdão, mas foi em Lisboa que fez da música uma forma de viver e alcançou uma curta - mas fulgurante - carreira. Variações foi um homem do mundo e com muitos mundos. Tantos que contá-los seria um atrevimento. João Maia, contudo, decidiu correr o risco.

"Este projeto já começou há muitos anos. Eu estava a preparar alguma coisa sobre o rock português no princípio dos anos oitenta e, de repente, comecei a interessar-me muito sobre ele. Pareceu-me que ele podia ser a metáfora de uma época. Comecei a ficar fascinado pela vida dele, fui pesquisando e acabei por escrever um guião", começa por contar o argumentista e realizador.

A maquilhagem extravagante e o estilo alternativo chamavam a atenção para um homem que para uns era o músico irreverente, que não sabia sequer ler uma pauta, e que para outros era apenas o amigo ou o barbeiro.

"O António tinha uma vida um bocadinho compartimentada. Os músicos conheciam pouco da vida pessoal dele, os amigos da barbearia conheciam pouca da vida musical dele. Para os amigos próximos foi um bocadinho uma surpresa quando ele apareceu como cantor. Para os clientes dele foi muito surpreendente", desvenda João Maia.

O Variações que o filme retrata é o homem antes da fama, quando regressa a Portugal em 1977, vindo de Amesterdão. "É o António que tenta arranjar repertório, que tem um contrato, mas não consegue gravar e tenta arranjar músicos para tocar a música dele. É este António um pouco solitário a tentar ser artista, uma pessoa ambiciosa, mas com algumas dúvidas se poderia chegar onde acabou por chegar".

Da ideia do filme ao início da rodagem, a empreitada foi longa. A primeira versão do guião foi fechada em 2006, mas as filmagens só arrancam agora. Um desentendimento entre o argumentista e o produtor fez com que se passasse mais de uma década até o sonho se tornar matéria. Sérgio Praia, o ator que dá corpo à personagem principal, acredita que o tempo foi um bom mestre.

"Eu estou há uns dez anos no projeto e tem sido uma construção. Não sou nada da opinião de que se devia ter feito o filme naquela altura. Acho que hoje a experiência toda que tivemos e as dificuldades que tivemos tornaram também mais forte este António e esta possibilidade que queremos passar às pessoas de um António pouco conhecido", assegura o ator.

Os gestos e a imagem de Variações são ímpares, mas Sérgio Praia tem o desafio de lhe vestir a pele e a voz: "A voz é minha. É uma outra experiência. É evidente que o António é o António, mas a nossa ideia também é dar se calhar outras visões de outros Antónios que as pessoas não conhecem."

Há muito aguardado, "Variações: o filme" é uma espécie de mito que habita o imaginário dos profissionais do meio, como é o caso de Luís Tavares Alves. Com quase 13 anos de carreira, o chefe de produção sente-se um privilegiado por fazer parte da equipa responsável por transformar a Lisboa atual na cidade dos anos 1980.

"Eu já ouço falar deste filme praticamente desde que comecei. Eu poder ter evoluído na minha carreira e, de repente, chegar ao ponto de ser convidado para poder produzir o filme é um bocado o realizar de um sonho", revela Luís Tavares Alves com entusiasmo.

A rodagem vai na terceira semana e deve terminar a meio de agosto. O filme, contudo, só deve chegar ao cinema em 2019 e, nessa altura, o realizador espera que os espectadores saiam da sala com vontade de sonhar. "Eu queria que o filme fosse um filme aspiracional, queria que o espectador tivesse a sensação de que tudo é possível, de que é possível ter um sonho e ir atrás dele", remata João Maia.

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