Memórias de um "corpo estranho"

Construir o Museu Judaico de Lisboa vai custar dois milhões de euros, diz a Câmara Municipal. Guiada pela vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, a TSF visitou a antiga Judiaria de Alfama, a poucos metros do futuro museu.

É uma das três judiarias que existiram em Lisboa, na Idade Média. Uma rua, dois becos, dois pequenos largos, um arco que servia de porta ao "bairro" onde viviam os judeus. À distância de tantos séculos, o espaço parece pequeno. Mas Esther Mucznik lembra que "Lisboa cabia dentro das muralhas do castelo".

Uma visita guiada à antiga Judiaria de Alfama

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Da "porta" da Judiaria, hoje resta apenas o Arco do Rosário. "Provavelmente, o portão ficava aqui mesmo". Na parede, ainda são visíveis marcas que vincam esse fechar das portas: "há quem diga que isto seriam as grandes traves de ferro que fechavam o portão". Mas não há certezas, porque sobra ainda muito por estudar sobre os judeus portugueses.

Os passos levam-nos por um túnel, curto, baixo... até ao pequeno largo onde começa a Rua da Judiaria. Também ela estreita, escura, fria, como ditavam as regras: "as judiarias fechavam ao pôr-do-sol e abriam as portas só ao amanhecer, ao toque dos sinos".

Durante o dia, fazia-se vida normal, com muito comércio, com os cristãos a procurarem os produtos vendidos pelos judeus. Mas à noite, era obrigatório ficar na judiaria.

Proteção real

Ao fundo, junto ao atual Largo de São Rafael, um portão azul num edifício amarelo, não deixam adivinhar o passado. Era aqui que funcionava a Sinagoga. Dizem os documentos conhecidos que, "no Beco das Barrelas, número 8",existia o local de culto judaico.

Reza a História que a Sinagoga de Alfama foi construída sem autorização do rei. Mas a anunciada multa não passou de uma "ameaça de castigo": foi perdoada. Porque, apesar das muitas restrições, Esther Mucznik lembra que os judeus eram úteis.

A vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa afirma que os estudos que existem, revelam uma certa "proteção" real aos judeus até ao século XV. Muitas profissões, como as da atual administração pública, estavam-lhes vedadas. Por isso, era preciso "compensá-los" de alguma forma.

"Os grandes financeiros do reino eram judeus; os grandes médicos dos reis eram judeus; e, portanto, era preciso fechar os olhos" a alguns eventuais incumprimentos.

Uma "sã convivência" com um "corpo estranho"

Nesses tempos, a maioria cristã e a minoria judaica conviviam tranquilamente. Apesar disso, havia regras bem definidas. Entre elas, estavam a "marcação, ou seja, o sinal distintivo" para que ficasse bem claro que alguém era judeu; e os "bairros apartados", a obrigação de viver em locais bem definidos e destinados exclusivamente à comunidade judaica.

Os judeus tinham também leis específicas. Esther Mucznik fala numa espécie de "corpo estranho à sociedade, um estado dentro do Estado, que dependia diretamente do rei. O Rabino-Mor, por exemplo, era nomeado pelo rei".

A poucos metros da antiga Judiaria, no Largo de São Miguel, o futuro museu quer contar a história dos judeus portugueses. Não será apenas uma história de perseguições e de expulsão, promete a dirigente da Comunidade Judaica.

"Os judeus já estavam no território que hoje é Portugal antes da nacionalidade. Há vestígios. Há inclusivamente legislação do tempo dos visigodos" que comprova a presença judaica nesses tempos longínquos.

E, para contar essa história, Esther Mucznick quer que o museu saia para a rua, com um percurso que inclua a antiga Judiaria de Alfama.

Lisboa, "cruzamento de culturas"

A Câmara Municipal de Lisboa anunciou recentemente que pretende abrir o Museu Judaico no primeiro semestre de 2017. O projeto é antigo de duas décadas; foi apresentado pela Comunidade Israelita em 1996, ao tempo de João Soares como presidente da câmara.

Agora, o município disponibilizou um edifício no Largo de São Miguel, em Alfama, um local simbólico para os judeus portugueses. A vereadora da Cultura revela à TSF que a construção do museu vai custar dois milhões de euros.

Catarina Vaz Pinto revela à TSF que a construção do museu vai custar dois milhões de euros

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São verbas que vão sair do orçamento municipal, em parceria com parceiros institucionais e privados. Catarina Vaz Pinto concretiza que o projeto vai receber dinheiro do EEA Grant, um fundo norueguês que financia a Rede Sefarad, a rede portuguesa de judiarias, que junta cidades onde existe uma "memória judaica muito importante".

A câmara diz também que está a negociar com parceiros privados, mas apenas para a parte de exploração de um museu cuja coleção terá uma parte significativa de bens doados por elementos da comunidade judaica.

A vereadora da Cultura na CML entende que é preciso "reavivar a História"

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Catarina Vaz Pinto promete um projeto interativo, com uma componente multimédia muito forte. A vereadora da Cultura na CML entende que é preciso "reavivar a História", trazer à luz uma "História multicultural, com os vários povos que ajudaram à construção" de Portugal e da sua identidade cultural.

A câmara entende que é necessário "valorizar" Lisboa como "cidade de cruzamento de culturas".

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