O Alentejo a preto e branco. E o alentejano que Tréfaut transforma em Marlon Brando

Estreia esta quarta-feira "Raiva", o novo filme de Sérgio Tréfaut. Uma adaptação de "Seara de Vento" de Manuel da Fonseca, um livro que "é um western e um épico". A TSF conversou com o realizador e o protagonista.

O Alentejo sempre esteve presente na vida de Sérgio Tréfaut. Filho de pai alentejano e de mãe francesa, o cineasta chegou ao livro de Manuel da Fonseca quando gravava "Alentejo, Alentejo", um documentário sobre a identidade da região e o cante.

Em entrevista à TSF, na Casa do Alentejo, em Lisboa, o realizador conta que, na preparação do documentário, perguntou a várias pessoas o que devia ler para perceber melhor o Alentejo profundo. A resposta repetiu-se: "Seara de Vento". "Caí nas mãos de um livro que era um verdadeiro western, por um lado, e um épico por outro lado", uma obra publicada em 1958, inspirada numa tragédia ocorrida em 1933 e que ficou conhecida como "a tragédia de Beja".

Numa noite, um camponês pobre sai de casa e assassina dois homens a sangue frio. Depois enfrenta a guarda e o exército numa luta desigual. Mas o que terá levado aquele homem a arriscar tudo?

O filme, rodado a preto e branco, com fotografia de Acácio da Fonseca, deixa de lado romantismos e redundâncias. Sérgio Tréfaut explica que quis fazer uma obra depurada, "não queria fazer o que se faz na televisão, um telefilme, queria fazer uma obra honrando a memória de Manuel da Fonseca". Filmar a preto e branco, acrescenta, "era procurar, de alguma forma, de verdade, que eu não encontro quando vejo o Alentejo filmado a cores e que, para mim, parece uma publicidade de azeite".

Neste Alentejo de "Raiva", a pobreza, a injustiça e a opressão moldam as personagens. Sérgio Tréfaut quis despojar os cenários para concentrar-se nas pessoas e nas suas faces. Não há "distrações" como música, "a casa quase não tem nada porque não me interessava mostrar a casa, mas as pessoas que lá estão dentro".

O filme tem um elenco de luxo, com Isabel Ruth, Leonor Silveira, Adriano Luz, Diogo Dória, Rita Cabaço, Kaio César, Rogério Samora, Luís Miguel Cintra, Catarina Wallenstein, Lia Gama, o espanhol Sergi López, entre outros. Mas quem concentra em si a força de "Raiva" é um não-ator, Hugo Bentes, que Sérgio Tréfaut conheceu quando filmava o documentário "Alentejo, Alentejo".

Tréfaut admite que imaginou primeiro o espanhol Jarvier Bardem no papel de Palma. Chegaram a acontecer várias reuniões mas o filme não ia ser rodado em espanhol ou inglês e a verba era curta. "Não tinha nem dinheiro para o pequeno-almoço de Javier Bardem", diz a rir. Foi nessa altura que se lembrou de Hugo Bentes, cantor de cante, e teve a certeza que era ele o seu Palma. "Representava o orgulho identitário do Alentejo, conhece aquela história, tem aquela cara muito poderosa, e uma star quality que não se aprende", diz Tréfaut que acrescenta que um dos diretores de produção achou que ele "estava louco" por escolher um não-ator".

Hugo Bentes, o "Marlon Brando português"

A designação é de Sérgio Tréfaut, que considera que Hugo Bentes, que foi jogador de futebol, tem preparação militar, é músico e faz parte de grupos corais alentejanos, é afinal um ator nato. "Conseguia vê-lo fazendo de Stanley em "Um Elétrico Chamado Desejo", conta.

Hugo Bentes não tem tanta certeza e quando Sérgio Tréfaut o convidou para protagonizar "Raiva" não queria acreditar, mas aceitou ser Palma. "Aceitei este grande desafio que o Sérgio me propôs porque é uma história verídica que aconteceu no Cantinho da Ribeira, no concelho de Beja, que fala concretamente do povo alentejano, da maneira como se vivia nos anos 30, o sofrimento que existia nas famílias".

Admite que não leu ainda o livro de Manuel da Fonseca porque "não quis ser influenciado, preferi guia-me pelo guião que é soberbo", e conta que foi "muito bem recebido pelo resto do elenco". "Incentivaram-me muito e foi aí que acreditei mais em mim, que me agarrei com unhas e dentes".

"Raiva estreou no Festival Internacional de Cinema de Moscovo, onde obteve dois prémios: Júri Internacional e Imprensa Independente. Depois encerrou a edição 2018 do IndieLisboa, integrou a seleção oficial do Filmfest Munchen, do Festival de Cinema Europeu de Sevilha e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, entre outros. Recebeu ainda o prémio do público no Festival Transfronteira Periferias (Portugal-Espanha).

Depois de Portugal, "Raiva" estreia comercialmente em dezembro, no Brasil.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de