A feitiçaria futebolística búlgara em Portugal

Numa altura em que os clubes portugueses começavam a abrir portas aos jogadores estrangeiros, especialmente nos finais dos anos 80 e início dos 90, um mercado emergiu no panorama futebolístico nacional, que, não sendo propriamente endinheirado, era astuto. O mercado búlgaro foi, então, visto como tendo um brutal potencial para as pretensões dos clubes lusos, por forma a fazerem frente aos tradicionais grandes mercados europeus.

Atualmente na modesta 59.ª posição no ranking FIFA, a par do Burquina Faso, a Bulgária já viveu momentos glamorosos. E glamorosos rima com gloriosos.

A situação atual da Seleção Búlgara é um espelho do que têm sido os últimos anos. Uma verdadeira travessia no deserto, cuja qualificação para o Euro 2020 está, ainda assim, em aberto, apesar do penúltimo lugar no Grupo A, só à frente de Montenegro, algo que contrasta sobremaneira com o que foram os dourados anos 90, cuja Seleção era verdadeiramente, como é alcunhada, "Os Demónios da Europa".

Estávamos no Mundial 1994 quando pontificavam jogadores como Hristo Stoichkov, Ivanov, Letchkov, o guardião Mihaylov, Emil Kostadinov, Ivaylo Iordanov, Petar Mihtarski, Krasimir Balakov, entre tantos outros. O que tinham estes últimos cinco citados mundialistas dos EUA 94 em comum? Todos passaram pelo futebol português.

Jogadores de grande qualidade que embelezaram o Campeonato Nacional e que deixaram, cada um à sua maneira, muito do perfume exibido, com aromas muito próprios, do que era, na altura, o emergente futebol búlgaro, que culminou mesmo, nesse fantástico Mundial, numa fabulosa 4.ª posição!

Uma constelação de talentos que, ainda bem antes desse célebre Mundial, começou a despontar em solo lusitano. E não nos clubes denominados grandes. Nos anos 80, em Trás-os-Montes, o Desportivo de Chaves conseguiu resgatar para as suas fileiras provavelmente os dois estrangeiros mais talentosos da sua história: Radi e Slavkov. Radoslav Zdravkov, ou "Radi", como era carinhosamente tratado, era um craque dos pés à cabeça e esteve seis temporadas em Portugal (três em Chaves, uma ao serviço do SC Braga, uma em Paços de Ferreira e uma em Felgueiras). Slavkov esteve meia década, na sua totalidade ao serviço do clube transmontano. Brilhou, como Radi, em Aquae Flaviae, tendo o poderoso dianteiro, anos antes, mais concretamente em 1981, cravado o seu nome numa galeria restrita de craques a nível planetário. Como Cristiano Ronaldo, Messi ou Eusébio. Nesse ano, ao serviço do Plovdiv, Slavkov foi coroado como melhor marcador europeu, tendo conquistado, assim, a mítica Bota de Ouro.

Foi uma espécie de desbravar caminho que alastrou (e inspirou) os restantes clubes nacionais em busca deste apetecível mercado. Iordanov será para sempre uma das grandes figuras estrangeiras do Sporting Clube de Portugal, tendo a sua estada de leão ao peito durado precisamente uma década. "Iorda" foi o perfeito exemplo de esforço, dedicação, devoção e glória preconizada pelo clube leonino, ficando eternamente a imagem, em 2000, a subir à estátua do Marquês de Pombal e colocar, triunfalmente, o cachecol do Sporting, que acabara de sagrar-se campeão nacional ao cabo de 18 anos de jejum.

Ainda por Alvalade, Balakov. Um 10 de essência pura. Classe magistral. Demoníaco com a bola nos pés. Monumental craque. Cinco anos de verde e branco e uma imagem que vale por mil palavras: em Setúbal, diante do Vitória FC, em 1993/94, a aguentar a carga de um adversário, passar no meio de dois com total desplante e fintar, por fim, o guardião setubalense, para concluir verdadeira obra-prima!

Nas Antas, também no início dos anos 90, aterrou Emil Kostadinov. Um goleador nato que deliciou os portistas entre 1990/91 e o início de 1994/95. Deixou saudades no velho Tribunal das Antas, que tantas vezes se levantou para festejar os tentos do dianteiro búlgaro.

Mihtarski também passou pelo FCP, mas de forma mais discreta, tendo-se exibido a grande nível ao serviço do Famalicão, por empréstimo dos dragões. Borislav Mihaylov defendeu as redes búlgaras em mais de uma centena de jogos (102), tendo sido titularíssimo pela sua Seleção nos Mundiais de 1986 e 1994 e no Europeu 1996, tendo ainda sido chamado para o Mundial de França (98). Guardou as redes do Clube de Futebol "Os Belenenses" em 1989/90 e 1990/91, sendo ainda hoje considerado um dos melhores de sempre das balizas azuis.

Mladenov foi, igualmente, um avançado temível que pisou os relvados portugueses. Terminou a carreira em Portugal, completando 8 anos neste Jardim da Europa à beira-mar plantado. Espalhou o terror pelas balizas adversárias em Belém durante três anos, dois em Setúbal, outros tantos ao serviço do Estoril Praia e um em Olhão, tendo sempre mantido um registo goleador de bom nível.

Outro que por cá passou foi o centrocampista internacional búlgaro, por 35 vezes, Ilian Iliev. Venceu uma Taça de Portugal ao serviço do Benfica, onde esteve duas temporadas, e, anos depois, voltou pela mão do Marítimo, onde esteve três épocas, antes de rumar ao Salgueiros. Outro entre tantos que ajudaram a preencher de qualidade o na altura Campeonato Nacional da 1.ª Divisão. Eram os anos do apogeu do futebol búlgaro e que os clubes portugueses souberam aproveitar da melhor forma. Jogadores de alto gabarito que contrastam com o panorama desolador atual, em que o porventura mais promissor é Bozhidar Kraev, atleta de grande valia que representa, atualmente, o recém chegado à 1.ª Liga Gil Vicente Futebol Clube. Em Barcelos, o jovem de 22 anos, já internacional A pelo seu país por 14 ocasiões, começa a fazer furor e a candidatar-se a fazer parte de um legado de peso deixado pelas grandes figuras do futebol búlgaro do passado, arriscando-se, por isso, a ser o enviado especial do presente para, quem sabe, ser a estrela mais cintilante do futuro.

Até lá, perdurarão no imaginário dos adeptos os voos de Mihaylov, a magia de Radi, os feitiços de Balakov, o espírito guerreiro de Iordanov e os instintos letais de Kostadinov e Slavkov.

André Rodrigues (A Economia do Golo)*

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

* O autor opta por escrever ao abrigo do anterior acordo ortográfico.

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