Carlos Barroca aponta à presença do basquetebol português em Mundiais e Jogos Olímpicos: "É preciso pôr isso no mapa"

Carlos Barroca
Créditos: Reprodução Instagram
Em entrevista à TSF, o antigo vice-presidente de operações da NBA para a Ásia diz que se candidata à presidência da Federação Portuguesa de Futebol para fazer "mais, melhor e diferente"
Aumentar o número de federados de 30 mil para 45 mil até 2028, criar novas competições nacionais nos escalões de formação e colocar as seleções de Portugal na alta roda do basquetebol nacional. Estas são algumas das medidas defendidas pela candidatura encabeçada por Carlos Barroca, que tem como lema 'Mudar para um basquetebol fantástico'.
O ex-treinador e antigo vice-presidente de operações da NBA para a Ásia concorre contra João Carvalho, atual secretário-geral da Federação Portuguesa de Basquetebol. As eleições - sem Manuel Fernandes, que atingiu o limite de três mandatos - dividem-se em duas fases: a primeira acontece este sábado, com a definição dos delegados à Assembleia Geral; e no dia 25 de abril, os delegados eleitos escolhem os órgãos sociais.
O que o motiva a candidatar-se à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol?
A ambição de transformar o nosso basquetebol em algo que seja, melhor e diferente. Um basquetebol dinâmico, ativo, ambicioso, com visão, com propósitos, com objetivos e, do ponto de vista pessoal, é a minha oportunidade de devolver ao meu país tudo o que eu sou como profissional e como adulto. Tudo o que sou devo ao basquetebol pela estruturação da minha vida. Devolver isso ao meu país é o meu objetivo.
O lema da candidatura é "Mudar para um basquetebol fantástico". Com recurso a uma palavra que utilizava muito enquanto comentador de basquetebol, pode-se depreender que discorda do caminho que tem sido traçado nos últimos tempos anos pela federação?
Não cabe a mim discordar, cabe a mim aproveitar o que foi feito de bom. Agora que falou do Carlos Barroca comentador, posso fazer a seguinte alusão: em vez de alguém que perdeu a posse de bola, posso ir pela positiva e dizer que alguém fez um excelente roubo de bola. Prefiro falar pela positiva do que pela negativa. O que há que fazer é capitalizar o bom que tem acontecido ao longo dos anos no basquetebol português, que, para o ano, festeja 100 anos - não é uma pequena história, é uma grande história -, aproveitar as coisas boas e fazer ainda melhor e fazer outras coisas que não foram feitas até aqui. Portanto, não é um papel destrutivo em relação ao que foi feito, é um papel de melhoria.
No site da candidatura do Carlos Barroca, há um alerta para o facto de o basquetebol ter menos praticantes do que o andebol, o voleibol e a natação em Portugal. Já definiu a meta dos 45 mil federados até 2028. Há o objetivo de o basquetebol ser a segunda modalidade com mais praticantes no país, atrás do futebol?
Há esse objetivo, como é óbvio. É crescer, crescer e crescer. Já trabalhei em 44 países e isso permite-me ter algumas noções do basquetebol em termos de popularidade pelo mundo fora.
Quando falamos de basquetebol, não estamos a falar só das equipas federadas. Há o basquetebol informal, o basquetebol das crianças e o basquetebol das famílias. Há muito basquetebol para lá do basquetebol que a gente tenta categorizar como basquetebol federado. E, nesse capítulo, posso dizer que, no mundo inteiro, nunca houve tantos praticantes de basquetebol como há hoje. Mesmo a Covid-19 serviu para despertar esta realidade de que praticar desporto é ótimo. Portanto, o que temos de fazer é aproveitar esta popularidade no mundo inteiro e tentar encontrar os nossos caminhos em Portugal para que o nosso basquetebol volte a ter uma maior penetração nas escolas, que haja uma consolidação entre municípios, escola e desporto federado, que haja uma conciliação de esforços e não que cada um trabalhe para o seu lado. Esse é o grande objetivo: unir as pessoas.
É possível definir o objetivo de colocar o basquetebol no segundo lugar da tabela de desportos com mais praticantes?
Antes desse processo, que é para 12 anos e além do de quatro anos, que é chegar aos 45 mil, o mais importante é a qualificação do nosso produto e a qualificação dos nossos agentes. Temos de fazer um esforço enorme para que todos os nossos agentes - atletas, clubes, dirigentes, treinadores e juízes - tenham mais qualificação. Temos de qualificar o nosso produto para vendê-lo melhor porque, se não qualificarmos o produto, se não tivermos visão e metodologia, não interessa termos metas ambiciosas. Há também um significado especial no sentido de pensar que o coração da nossa modalidade é os clubes. Temos de incentivá-los para continuarem a crescer e melhorarem.
A candidatura do Carlos Barroca defende a redução do custo do curso de treinadores em 50%, De que forma pode ser materializado?
A minha perspetiva tem que ver exatamente com o que tenho aprendido ao longo da minha vida, com os melhores, que é transformar o processo da formação em menos quantidade, menos custo, mais qualidade e acompanhamento mais intenso entre cursos e durante a formação genérica de qualquer treinador. Há quem tenha hoje ferramentas digitais fantásticas nesta matéria e eu como felizmente tenho acesso a essas ferramentas todas e aos países onde trabalhei, tenho facilidade em trazer esse tipo de conceitos, esse tipo de ideias e esse tipo de produtos para o nosso país. Para quê? Para ajudar a qualificar os nossos treinadores com menos custos, com menos tempo e com mais qualificação. Eu sei que é difícil quase conciliar uma coisa com a outra, mas eu não tenho culpa de ser ambicioso e não tenho culpa de olhar para a frente e perceber exatamente onde que quero chegar, como quero chegar e quais são as formas de lá chegar. Isto não são pilares de desenvolvimento, são metodologias de desenvolvimento.
Há esse cuidado, como referiu, de apostar na base, mas há também o topo da pirâmide. Já assumiu o objetivo de colocar Portugal nos Jogos Olímpicos na vertente de 3x3. A ideia é fazê-lo já em 2028?
Estabelecemos como objetivo chegar lá entre 2028 e 2032. Se conseguirmos fazer em 2028, faremos. Se não, trabalharemos para 2032. O meu projeto não é para quatro anos, é para mais de uma década, para 12 anos de transformação. As coisas não se transformam de um momento para o outro, levam o seu tempo, até porque há uma massa humana muito grande, com muitos treinadores, clubes.... gostávamos de ter mais? Gostávamos. Gostávamos de duplicar, mas isso não se faz de um ano para o outro, é preciso criar todo o processo. É preciso olhar para a frente. Queremos também que as nossas seleções tenham todas as condições estruturais para que para que as idas a campeonatos da Europa, como aconteceu em 2025 - estamos orgulhosos desse feito - e ao Campeonato do Mundo sub-19 feminino não aconteçam de gerações em gerações, mas que aconteçam, se possível, em todos os campeonatos. Temos de assumir a ambição de participar nas fases finais, até porque, no ano passado, isso aconteceu não só com todo o mérito que houve, mas pelo facto de a FIBA ter aberto o número de equipas que participavam na fase final do Europeu. Temos de aproveitar essa janela para querer estar dentro e não perder o comboio. Em relação aos Jogos Olímpicos, é um sonho imediato no 3x3, mas temos de sonhar mais alto também com o Campeonato do Mundo, masculino e feminino, e apontar para lá. Se a gente não aponta para lá, nunca lá chegamos. É preciso criar todo esse processo, de unir toda a gente no basquetebol, para toda a gente saber: este é o nosso objetivo. E todos fazemos parte do mesmo objetivo.
Nesse sentido, em que fala do basquetebol clássico e da possibilidade de um dia Portugal chegar ao Mundial ou aos Jogos Olímpicos, algo que nunca aconteceu, o objetivo é a curto/médio prazo ou o foco está virado na consolidação de Portugal no patamar europeu?
Sim, primeiro tem que partir do continental, que é repetir presenças e dar mais internacionalizações aos nossos jovens. Não só aos jovens que temos na seleção, mas estimular os próprios clubes a terem mais participação internacional porque isso é decisivo para a maturidade. Internamente, temos de resolver problemas de alguma incapacidade de pôr os nossos melhores jogadores a jogar contra os melhores. Há sempre questões estruturais e financeiras, isto custa mais, isto custa menos... isto é a Federação Portuguesa de Basquetebol e tem vários objetivos. Um deles é que quem joga basquetebol chegue o mais longe possível, seja o melhor jogador possível, que as equipas sejam as melhores possíveis, portanto, não podemos não ter campeonatos nacionais de sub-18, sub-20, sub-23. Temos que rapidamente evoluir nisso para que os melhores joguem com os melhores. É assim que os jogadores da NBA ficam melhores porque jogam com os melhores todos os dias, treinam com os melhores todos os dias. Não faz sentido em Portugal que acabemos por nos limitar na produção da nossa pipeline de talento. São muito poucos os jogos que fazem ao longo do ano em que há uma qualidade semelhante. E qualidade semelhante ou superior faz-nos sempre evoluir. É isso que temos que fazer também internamente.
Define para um horizonte de 12 anos a presença num Mundial ou nuns Jogos Olímpicos, nos dois géneros?
A tarefa mais complicada é essa dos Jogos Olímpicos, que é a prova que atualmente recorre a menos equipas para lá chegar, mas obviamente que, olhando para o panorama de 12 anos, é preciso pôr isso no mapa. Chamem-me maluco se quiserem, mas nós temos jogadores tão bons como outros de qualquer país. Temos que melhorar a qualificação dos nossos atletas internamente e por aí passa também a questão da nossa liga, masculina e feminina, criar condições para que o produto, de acordo com os intervenientes que temos nessa matéria, se caminhe, na minha opinião, o mais rapidamente possível para uma profissionalização. Não é no sentido da palavra de tornar o campeonato já profissional porque há diferenças grandes entre as equipas, mas, em relação às que participam neste campeonato, há que encontrar a forma de desenvolvimento e de qualificação do produto para que valha mais e que constitua também um modelo de referência para a evolução de um jogador português.
Até que ponto referências como o Neemias Queta e Ticha Penicheiro de servir de alavanca para esse futuro?
É a lógica dos heróis. Esses heróis não vão ser criados por mim. Esses heróis já existem. A Ticha é o que é há décadas e o Neemias está a ter finalmente um papel de relevo e já é campeão da NBA, o que é fantástico. A federação tem feito coisas com eles, em parceria com empresas como a Betclic. Agora, se me perguntar se é possível fazer mais e melhor, diria que sim. Eu trabalhei 10 anos como vice-presidente da NBA e, se a NBA é especialista numa matéria, é o marketing do seu próprio produto. Se eu for presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol, iremos capitalizar ainda mais sobre esses atletas e outros que entretanto possam aparecer porque o bom do desporto é isto: renovação e continuidade. Nunca devemos esquecer os heróis do passado e não são só os que se distinguem ao mais alto nível. São aqueles que devemos continuar a seguir como estrelas e agradecer porque, se chegámos onde chegámos, toda a gente fez por isso. Para o bem e para o mal.
