"Este é o preço da nossa dignidade." Atleta ucraniano desqualificado dos Jogos de Inverno por usar "capacete da memória"

O "capacete da memória" homenageia os membros da família desportiva ucraniana que morreram desde a realização dos últimos Jogos Olímpicos
Créditos: Hahn Lionel/KMSP/AFP
O equipamento personalizado violava, segundo o Comité Olímpico Internacional, a regra de proibição de "manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial" durante a competição olímpica
Vladyslav Heraskevych é o nome do atleta ucraniano que, após ser proibido de usar um capacete personalizado com fotografias de vários atletas do país mortos na invasão da Rússia, foi desqualificado dos Jogos Olímpicos de Inverno 2026 pelo comité da competição. A decisão, tomada esta quinta-feira, foi criticada pelo Presidente da Ucrânia.
A saga começou quando o atleta de skeleton apresentou-se na competição com uma peça - um "capacete da memória", como o mesmo o intitula - que "homenageia os membros da família desportiva ucraniana que morreram desde a realização dos últimos Jogos Olímpicos". O uso do equipamento de homenagem começou a levantar ondas durante os treinos da modalidade, três dias antes das provas oficiais.
O Comité Olímpico Internacional (COI), logo na segunda-feira, não aprovou o uso do capacete, alegando que violava as regras da Carta Olímpica. No artigo 50.º do documento, pode ler-se: "Nenhum tipo de manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida em qualquer local olímpico, local de competição ou outras áreas."
Perante a proibição do COI, o atleta de skeleton afirmou que a "decisão lhe partiu o coração". Numa publicação na rede social X, Heraskevych considerou que o comité "traía aqueles atletas que fizeram parte do movimento olímpico, não permitindo que fossem homenageados na arena desportiva onde esses atletas nunca mais poderão pisar".
МОК забороняє використання мого шолома на офіційних тренуваннях та змаганнях
- Vladyslav Heraskevych OLY (@heraskevych) February 9, 2026
Рішення, яке просто розбиває серце. Відчуття, що МОК зраджує тих спортсменів, які були частиною Олімпійського руху, не даючи можливості вшанувати їх на спортивній арені, куди ці спортсмени більше... pic.twitter.com/rCAoeTxcUn
Na terça-feira, o comité enviou uma carta a Heraskevych sugerindo que usasse uma braçadeira preta durante a competição para prestar a homenagem, referindo, então, que o capacete não estava conforme as regras.
Sem ceder ao pedido, o ucraniano considerou "injusta" a decisão. No mesmo dia, em conferência de imprensa, confirmou que continuaria a usar o "capacete da memória", abrindo a onda de desacordo com o COI.
Diversas vezes, Heraskevych e o comité conversaram, sem cedências de nenhuma das partes.
Numa das publicações que o atleta ucraniano fez na rede social X, na quarta-feira, protestou a insistência do COI: "Amanhã começam as provas de skeleton nos Jogos Olímpicos de 2026. Mas, em vez de nos prepararmos para as partidas, somos obrigados a lutar pelo direito de competir com o 'capacete da memória'".
Ainda no dia anterior ao início oficial das provas de skeleton, Mark Adams, porta-voz do comité, em declarações aos jornalistas, comentou a proibição: "Não podemos ter 130 conflitos diferentes em destaque, por mais terríveis que sejam."
O COI acabou por decidir, nesta quinta-feira, juntamente com a Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton, que o atleta de skeleton pode permanecer na competição olímpica, mas sem competir nem usar novamente o capacete em causa.
Depois de se reunir com o atleta, a presidente do COI, Kirsty Coventry, justificou a decisão com o regulamento: "Ninguém, especialmente eu, discorda da mensagem. A mensagem é poderosa. É uma mensagem de recordação. É uma mensagem de memória. Não se trata da mensagem em si; trata-se literalmente das regras e regulamentos."
Em resposta ao desfecho da sua prestação na competição, o atleta escreveu nas redes sociais: "Este é o preço da nossa dignidade."
Це ціна нашої гідності.
- Vladyslav Heraskevych OLY (@heraskevych) February 12, 2026
This is price of our dignity. pic.twitter.com/00h3hlZs6i
Durante momentos em frente às câmaras, as seleções nacionais da Ucrânia e da Letónia levantaram os capacetes em protesto contra a desqualificação de Heraskevych.
"Nenhuma regra foi violada." Zelensky defende atleta
O caso chegou à Presidência ucraniana, que saiu em defesa do atleta do país.
"O desporto não deve significar amnésia, e o movimento olímpico deveria ajudar a parar as guerras, e não jogar nas mãos dos agressores. Infelizmente, a decisão do Comité Olímpico Internacional de desqualificar o atleta ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych diz o contrário", acusa Volodymyr Zelensky.
Sport shouldn"t mean amnesia, and the Olympic movement should help stop wars, not play into the hands of aggressors. Unfortunately, the decision of the International Olympic Committee to disqualify Ukrainian skeleton racer Vladyslav Heraskevych says otherwise. This is certainly... pic.twitter.com/gGXizj5C5m
- Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) February 12, 2026
Numa publicação na rede social X, o Presidente ucraniano agradeceu ao atleta "pela sua postura clara", reivindicando que "o seu capacete, que leva os retratos de atletas ucranianos caídos, é sobre honra e memória" e "um lembrete para o mundo inteiro do que é a agressão russa e do custo de lutar pela independência".
Zelensky afirmou que, "neste caso, nenhuma regra foi violada": "Temos orgulho de Vladyslav e do que ele fez. Ter coragem vale mais do que qualquer medalha."
Segundo a publicação, "660 atletas e treinadores ucranianos foram mortos pela Rússia desde o início da invasão em grande escala".