Futebol para amputados. Quando a perda de uma perna abre uma "porta permanentemente fechada"
Autor: Tiago Barquinha Gonçalves
Miguel Barbosa ficou sem a perna esquerda num acidente de comboio. O mês de fevereiro virou "uma nota em branco" e, como "ficar a olhar para trás não muda nada", decidiu criar um projeto pioneiro em Portugal, em conjunto com Iuri Nunes. O futebol voltou a ser uma realidade na vida de Miguel, dois anos depois de ter terminado a carreira por causa de uma lesão nas costas.
Já começou mais um treino do projeto Futebol para Amputados - Portugal. Passe e receção. A bola vai e volta, tal como os pensamentos. A situação parece estar ultrapassada, mas é um tema que não se apaga totalmente.
"O acidente foi no dia 10 de fevereiro. Não me lembro de nada dos dias anteriores e dos seguintes. Para mim, fevereiro é uma nota em branco". O presente e o futuro de Miguel Barbosa estão agora a ser reescritos com muletas e com uma bola no pé direito, após 12 dias de coma na sequência de um acidente com um comboio.
"Ia a correr, a atravessar uma passagem de nível, pedonal, em cima de uma curva, e, pelos vistos, não vi o comboio e levei com ele. Não consigo dar mais detalhes porque não me lembro de nada", conta.
Durante o treino, ouve-se, por vezes, o som do comboio a passar. "Se calhar foi este", aponta e brinca com a situação. Curiosamente, o acidente aconteceu numa linha que fica perto da zona onde decorre o treino, nas instalações da Academia do Sporting, em Barcelos. As coincidências não param, já que foi neste local que Miguel começou a dar os primeiros pontapés na bola, em criança.
As transições são um dos focos do treino: defesa-ataque e ataque-defesa. Neste exercício trabalha-se o tempo de reação. "Ficar a olhar para trás não muda nada", salienta Miguel, que garante que, assim que acordou do coma, foi "fácil abraçar e perceber as novas oportunidades".
Em menos de um ano, Miguel foi campeão de juniores, treinou com a equipa principal e acabou a carreira... por causa das costas
A porta do futebol voltou a abrir-se. Estava "permanentemente fechada" há duas épocas. O antigo lateral-direito fez a pré-temporada com a equipa principal do FC Famalicão em 2022/2023 e foi um dos capitães dos juniores que viriam a ser campeões nacionais pela primeira e única vez na história do clube.
Contudo, uma lesão nas costas só lhe permitiu fazer um jogo nessa temporada e ditou o fim precoce da carreira de Miguel. "Fiz 90 minutos no primeiro jogo e depois nunca mais joguei. Fiz uma cirurgia, reforço muscular todos os dias e, mesmo assim, as dores não passavam. Portanto, cortei o mal pela raiz e acabei com o futebol", recorda.
O treino desenvolve-se num terço do relvado e com balizas pequenas. É preciso pensar, agir rápido e manusear as muletas com perícia para a bola continuar sempre em jogo.
Em pouco tempo, a vida trocou as voltas duas vezes a Miguel: terminou a carreira de futebolista, a perna foi amputada e, inesperadamente, voltou aos relvados. No futebol para amputados, as próteses são proibidas - é obrigatório o uso de muletas -, mas foi graças a elas que tudo (re)começou.
Projeto nasceu numa clínica de próteses
Já com experiência adquirida no Brasil, Iuri Nunes mudou-se há cerca de três anos para Portugal à procura de melhores condições de vida, mas sempre com o futebol para amputados no pensamento. "Na clínica onde fiz a prótese, falei da ideia de criar um projeto deste género e deixei lá o meu contacto", refere.
Demorou, mas o telemóvel lá tocou e Iuri e Miguel começaram o projeto.
É tempo de pausa no treino. Enquanto alguns jogadores bebem água, Iuri não pára de dar toques. Apoiado em duas muletas, o pé esquerdo movimenta-se sempre ao mesmo ritmo e sem deixar a bola tocar no relvado. É como se todo o talento que emanava do pé direito tivesse sido transferido para o pé esquerdo.
Iuri perdeu a perna por causa do rompimento de uma artéria e de um diagnóstico errado do médico. Tinha 17 anos e sonhava ser futebolista profissional. Só voltou a ter contacto com a bola duas décadas depois. "Fiquei um pouco resistente porque sou destro e fiquei com a perna esquerda. Então tive de reaprender tudo com a mente e com muita força de vontade".
Se Miguel ainda não tinha praticado a modalidade, Iuri já tem quase uma década e vários feitos acumulados, tanto no Brasil, como em Espanha, ao serviço do Flamencos - equipa que passou a representar desde que rumou à Europa -, com quem já chegou à final da Liga dos Campeões.
Apoio da Fundação FPF permite sonhar com criação da seleção nacional
Iuri com a perna esquerda e Miguel com a perna direita começaram os treinos em setembro e, nas semanas seguintes, juntaram-se mais nove elementos. "Para já, estamos a reunir pessoas, que é a parte mais complicada", confessa Miguel, explicando que depende do passa a palavra e das redes sociais.
"Tinha o prazo de conseguir, dentro de um ano e meio ou dois, criar uma equipa, mas, ao fim de dois, três meses, já temos 11 jogadores a reunirem-se de forma regular. Acho que isto é esclarecedor do potencial que a modalidade tem em Portugal", vinca, acrescentando que os treinos acontecem não só em Barcelos, como também em Famalicão e Braga.
Se o ritmo continuar assim, a ideia é criar duas equipas na próxima época e constituir a seleção nacional. Equipamentos não vão faltar porque a Fundação da FPF - Federação Portuguesa de Futebol já cedeu camisola, calções e meias para usarem, para já, nos treinos. Através dessa parceria, os antigos futebolistas Alan, João Tomás, Raúl Silva e o ex-árbitro Artur Soares Dias associaram-se ao projeto e apadrinharam o primeiro jogo de futebol para amputados em Portugal. O pontapé de saída deu-se a 7 de dezembro, na Academia do FC Famalicão.
Atletas aprendem com antigo selecionador de Inglaterra: "É certo que perderam uma perna, mas tudo o resto é igual"
"Play, play, play". A voz de Owen Coyle Jr. ecoa em todo o lado. Desta vez e de forma excecional, o treino está a ser dado pelo antigo selecionador de Inglaterra de futebol para amputados.
No futebol tradicional, o escocês é responsável pelos jogadores emprestados pelo Nottingham Forest e foi acompanhar Omar Richards e Eric da Silva Moreira, que estão cedidos ao Rio Ave. Por esse motivo, esteve uns dias em Portugal, foi conhecer o novo projeto e dar umas dicas.
"Há uma série de razões para o facto de terem perdido a perna. Alguns por causa de cancro, outros perderam em acidentes de viação.... são histórias e vivências diferentes. O ponto mais importante é que eles querem ser tratados como atletas. Não podemos ser macios com eles nem demasiado gentis. Eles querem trabalhar no duro, melhorar e crescer. É certo que perderam uma perna, mas tudo o resto é igual. Encaro da mesma forma como se fosse futebol tradicional", explica Owen.
Se em Portugal ainda se contam pelos dedos das mãos o número de treinos, o antigo selecionador de Inglaterra leva no currículo a participação em dois Mundiais e três Europeus de futebol para amputados, incluindo uma final perdida em 2017 contra a Turquia, no Vodafone Arena, estádio do Besiktas, e perante... 42 mil espetadores.
"Rápido, rápido, rápido". Esta é a única palavra que Owen conhece em português, embora tenha treinado um atleta luso, Hélder Silva, que se naturalizou e começou a jogar por Inglaterra, face à inexistência de uma seleção em Portugal. À medida que o treino avança, a intensidade cresce.
Na última década, o número de praticantes de futebol para amputados aumentou de 10 para 70 em Inglaterra. A evolução está à vista, embora ainda abaixo do nível de potências como a Turquia e a Polónia, onde já existem competições profissionais.
Ainda assim e apesar da criação da Federação Mundial de Futebol para Amputados em 2003, Owen alerta que é preciso, em primeiro lugar, mais "consciência" da sociedade sobre o tema e, depois, haver "mais financiamento".
"Às vezes discute-se se é bola na mão ou mão na bola"
As regras não são assim tão diferentes em relação ao futebol de 11 tradicional, mas há adaptações. Cada equipa tem sete jogadores e a duração da partida é de 50 minutos. Os guarda-redes só podem usar um braço e o outro, caso exista, com alguma deformação, tem de ficar junto ao peito. Já os jogadores de campo só podem utilizar uma perna, mesmo que tenham outra, com alguma deficiência.
A prótese fica no balneário e as muletas são obrigatórias, mas só podem funcionar como apoio para os braços. Caso as utilizem para jogar a bola, é falta. E, também aqui, há polémica à mistura. "Às vezes discute-se se é bola na mão ou mão na bola", atira Iuri.
Com ou sem a ajuda indevida da mão ou da muleta, o treino encaminha-se para o fim. Faltam só os remates à baliza. "Muitas vezes, as pessoas acham que está tudo perdido quando há algum tipo de trauma, como os que nós tivemos, e que nunca mais vão jogar (...), e, por isso, é uma alegria ver esta gente a jogar em Portugal, assim como vi no Brasil", refere Iuri.
Miguel falhou o primeiro remate, mas não vão faltar mais oportunidades. "Há pessoas mais recentes, como eu, mas há pessoas que já vivem com amputações há 20 ou 30 anos. Esta partilha de experiências ajuda a direcionar a nossa vida e a perceber certas coisas que, sozinhos, não descobrimos ou demorámos muito tempo a descobrir".
Soa o apito para o fim do treino. Owen está de regresso a Inglaterra, mas promete continuar a acompanhar a evolução do projeto em Portugal. "Podemos não perceber exatamente porque não estamos por dentro do processo de cada um, mas poder voltar a jogar futebol, em alguns casos, a nível internacional, é incrível. Isso funciona como um forte propósito para a vida, um forte propósito para a comunidade e um forte propósito para todos os envolvidos".
