João Carvalho defende centro de alto rendimento para o basquetebol: "Há muito que merece"

João Carvalho, candidato à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol
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Em entrevista à TSF, o atual secretário-geral da federação explica que concorre à presidência do organismo com um propósito "reformista"
Criar um centro de alto rendimento dedicado ao basquetebol, consolidar a presença das seleções de Portugal em campeonatos da Europa e aumentar o número de federados em 30% até ao final do mandato, 2029. Estas são algumas das ideias defendidas pela candidatura liderada por João Carvalho, que tem como lema 'O futuro do basquetebol português começa agora'.
O antigo vice-presidente e atual secretário-geral da Federação Portuguesa de Basquetebol concorre contra Mário Barroca, ex-vice-presidente de operações da NBA. As eleições - sem Manuel Fernandes, que atingiu o limite de três mandatos - dividem-se em duas fases: a primeira acontece este sábado, com a definição dos delegados à Assembleia Geral; e no dia 25 de abril, os delegados eleitos escolhem os órgãos sociais.
O que o motiva a candidatar-se à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol?
O primeiro motivo tem que ver com a oportunidade que surge com o fim de ciclo do atual presidente, que atingiu o terceiro mandato e, por isso, está impedido do ponto de vista legal de continuar e apresentar uma nova candidatura. Depois também temos uma boa base de apoio, quer de associações, quer de clubes e de outros agentes, que fizeram com que pensasse e decidisse mesmo avançar com a candidatura. Há também questões pessoais, que têm que ver com o conhecimento real da situação do basquetebol nacional. Tenho toda uma vida feita no meio empresarial e, em 2009, acabei por me ligar à federação, na altura como vice-presidente e atualmente como secretário-geral. Conheço exatamente tudo que tem que ver com a realidade do nosso basquetebol, não só da federação, mas também das associações e dos clubes. Portanto, não preciso de perder tempo com diagnósticos porque, efetivamente, sei qual é a situação atual do nosso basquetebol e dos nossos agentes.
Aproveitando o lema da candidatura, 'O futuro do basquetebol português começa agora', nos últimos anos, sente que a federação não tem preparado o futuro?
A federação preparou o futuro e os resultados são prova disso, nomeadamente nas seleções nacionais seniores e nos sub-19 no último verão. Mas eu e a minha equipa temos uma visão diferente para as coisas e precisamos de ter poder para implementar as nossas ideias e os nossos projetos. Parte da minha equipa trabalha na federação e temos alguma capacidade para tentar influenciar, mas as decisões, como deve calcular, não são nossas. Em última instância, são sempre do presidente e da direção. Depois há aqui outras situações, como a questão financeira da própria federação, que, neste momento, tem de ser alterada, sob pena de pormos em causa a sua sustentabilidade. Há também a existência de simetrias regionais, que têm de ser reduzidas. Eu e a minha equipa sabemos onde a federação não falha. Coloco também o foco na minha equipa. A liderança é muito importante, mas um bom líder que não tenha, de facto, uma boa equipa nunca poderá pôr em prática todas as ideias e opções estratégicas. Tenho uma equipa muito forte em termos de competências. As pessoas não foram escolhidas por simpatia ou por amizade. São pessoas do mundo do basquetebol, como o Nuno Manaia, e o diretor técnico nacional, Paulo Neta. Temos outras pessoas que, de alguma forma, também estiveram ligadas ao basquetebol, mas que, nas suas vidas profissionais, tiveram sucesso e podem agora aportar valor para o desenvolvimento da nossa modalidade. Sabemos exatamente onde estamos, para onde queremos ir e como fazer para chegar a esse destino que, no fundo, são os objetivos estratégicos que temos. Não basta ter ideias. É preciso ter capacidade para pô-las em prática e esta equipa tem essa capacidade. As pessoas do mundo do basquetebol sabem e reconhecem isso. Esta candidatura não vai introduzir uma revolução. Há muita coisa que está feita e nós fazemos parte, de alguma forma, de muitas coisas que foram implementadas, mas temos, sobretudo, um propósito reformista. Não necessitamos de começar do zero, mas sim corrigir o que achamos que não está a funcionar e pôr em prática alguns projetos que temos em mente. Precisamos de poder para isso.
Quer dar um exemplo dessa reforma que pretende introduzir?
Precisamos de reformar ao nível da formação, que é uma pedra basilar do desenvolvimento. Quando falo em formação, não estou a falar apenas em formação de treinadores, mas também de dirigentes. Se tivermos gente mais competente nos clubes, com formação específica na gestão desportiva, temos mais condições para conseguir ter mais sucesso. A própria forma como é feita a formação dos mais jovens também deve ser alterada e nós vamos avaliar isso, nomeadamente ao nível dos próprios centros de treino que existem atualmente. É preciso reformar para crescer e para sermos melhores. E nós começamos exatamente por um modelo de governação da própria federação. A gestão é que determina a estratégia e põe em prática, no fundo, tudo o que tem que ver com aspetos que possam levar à concretização dessa estratégia. Vamos ter uma direção mais curta do que o que tem vindo a ser tradicional. O nosso modelo propõe a existência de um presidente e de cinco vice-presidentes, ao contrário dos oito que tradicionalmente compõem as direções. Queremos criar comissões consultivas e isso significa trazer mais gente para órgãos, que podem ajudar a tomar melhores decisões para o nosso basquetebol. Queremos também criar um modelo de gestão próprio para as ligas. As ligas, embora não sejam propriamente profissionais, têm de caminhar no sentido de se tornarem numa espécie de negócio e, para isso, precisamos de ter uma gestão própria, diferente das outras competições. Ou seja, a visão é essencial, mas a federação precisa efetivamente de ter capacidade de execução. Prometer crescimento é fácil, o difícil é garantir sustentabilidade. O atual modelo de gestão põe em causa, nomeadamente, a subsistência financeira.
Falava há pouco da questão dos jogadores da base, da formação. Tem um número de praticantes como meta?
Queremos chegar a um valor, a uma taxa de crescimento na ordem dos 30%.
Até que ano?
Achamos que é exequível até ao final do mandato. Temos de definir objetivos que sejam concretizáveis e achamos que este valor é realista. Temos algumas dificuldades em termos de um crescimento mais expressivo desse número, que tem que ver com a limitação que existe ao nível das infraestruturas desportivas. Sabemos que não há grande investimento nas infraestruturas desportivas e cada vez há mais modalidades que também crescem, que, naturalmente, reclamam tempo e espaço. Portanto, torna-se difícil ter um modelo sustentado de crescimento do número de atletas.
Falta ao basquetebol em Portugal um centro de alto rendimento condizente com as aspirações que a modalidade tem?
Há várias modalidades que têm centros de alto rendimento próprios. A federação, com o papel e com o lugar que ocupa em termos do desporto nacional, já há muito que merecia, de facto, ter um centro de alto rendimento específico para o desenvolvimento das suas atividades.
Já está identificado um local que poderia ser apropriado?
Tudo quanto possa vir a ser desenvolvido nesse domínio terá sempre que, do nosso ponto de vista, ter o apoio de uma autarquia. E a localização também é importante. Temos, neste momento, o Centro Nacional de Treino de Ponte de Sor, cuja avaliação que fazemos é que foi importante determinada altura, mas agora penso que já não cumpre com todos os requisitos e com os objetivos que tinha subjacentes.
O que falta?
Tem um aspecto crítico, que é a localização. A localização é extremamente importante. Entendemos que há aqui um eixo do litoral, onde faz todo o sentido termos um centro de alto rendimento. Até porque a maior parte dos atletas é proveniente de equipas que estão situadas no litoral. É isso que faz sentido. Não temos um local propriamente definido, ainda é prematuro, mas é algo que depois, naturalmente, vamos desenvolver.
Norte, Centro ou Sul?
Idealmente, gostaríamos de ter um centro de alto rendimento numa zona próxima de Aveiro, que é bem servida em termos de transportes e é acessível para quem está no norte e para quem está em Lisboa, Setúbal, etc. Achamos que uma localização que poderia ser muito interessante. Tem também as infraestruturas escolares que são necessárias. É possível os mais jovens fazerem a sua formação escolar e depois, eventualmente, progredir para uma formação no ensino superior, sem terem que sair daquele local onde está o centro de alto rendimento. Portanto, está em aberto.
Já falou da base e da importância que tem para o desenvolvimento da modalidade. Quanto ao topo da hierarquia, Portugal conseguiu estar no último Campeonato da Europa, tanto no masculino como no feminino. O objetivo agora é avançar para a afirmação no patamar europeu ou pensar já em mundiais ou Jogos Olímpicos, algo que nunca aconteceu?
Sabe que temos de ser realistas quando definimos objetivos. Os objetivos devem ser ambiciosos, naturalmente, mas devem ser realistas porque objetivos que não sejam realistas rapidamente desmotivam e desmobilizam as pessoas. Quanto ao cenário de apuramento para Jogos Olímpicos ou campeonatos do mundo, são patamares que, neste momento, ainda são inacessíveis para a realidade do nosso basquetebol. Temos é de consolidar, manter uma presença assídua das nossas principais seleções nas fases finais dos campeonatos europeus, mas há aqui um aspecto determinante. Para conseguirmos ter o futuro assegurado, precisamos de trabalhar muito a base e exatamente na deteção e no desenvolvimento de talentos. Os centros de treino, os clubes e as associações têm de desempenhar um papel importante em todo esse desenvolvimento. Há um aspeto que nos preocupa: pela primeira vez em vários anos, em 2026, não vamos ter nenhuma seleção nacional a disputar uma divisão A de um campeonato da Europa de formação. Isto significa que há qualquer coisa que, provavelmente, não está a ser feita da forma mais correta e temos de perceber se é uma situação conjuntural ou se, de facto, é uma situação que poderá tender para ser estrutural. Não podemos, de facto, não ter equipas na divisão B quando queremos depois manter uma seleção nacional sénior nas fases finais dos campeonatos da Europa. Esta é uma área em que vamos ter de investir bastante.
