Quando o Karate quebra barreiras: a inclusão que nasce da vontade e não dos Governos "sejam eles quais forem"
Autora: Maria Ramos Santos
No Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, a TSF entrou no pavilhão do Externato AlmaSã, onde uma turma de pessoas com trissomia 21 e outras deficiências treina parakarate. Durante 45 minutos, não há rótulos nem limites. Só há movimento, empenho e sorrisos. Enquanto o país discute inclusão, aqui ela acontece, muitas vezes apenas graças ao voluntariado e à resistência de quem recusa que estes atletas fiquem sentados à margem. "Os Governos, sejam eles quais forem, não querem saber."
São 11h00 de uma quinta-feira. É dia de treino de parakarate no Externato AlmaSã, em Almada, ou como por aqui se ouve: "É um dos momentos favoritos da semana." A TSF entra no pavilhão, onde está uma turma de pouco mais de dez pessoas já equipadas e prontas para ouvir as orientações do mestre José Chagas, que, sem mais demoras, dá início ao treino.
"Bom dia! Antes de mais quero dar os parabéns ao Rodrigo e à Helena que estiveram presentes no Campeonato do Mundo."
Entre aplausos e sorrisos, vão-se alinhando em frente ao mestre. No tapete, há quem tenha cintos brancos, amarelos e laranjas. Há pessoas em cadeiras de rodas, com trimossia 21 e outras deficiências cognitivas. José Chagas conta-nos que este projeto de voluntários existe há 12 anos e tem um único objetivo: "Trazer um pouco daquilo que o karaté tem para dar a cada um de nós. A mobilidade, a compreensão. Acima de tudo, melhor saúde física, mental e social."
E há melhorias visíveis?
"Sim, vê-se perfeitamente. Quando começam pouca mobilidade têm. Não têm equilíbrio, não conseguem ter coordenação motora, não conseguem fazer exercícios simétricos corretos. Eles passam muito tempo sentados, a desenhar e a fazer atividades. E, apesar de aqui também haver exercício físico durante a semana, nós conseguimos ajudar um bocadinho a desenvolver as articulações, a mobilidade e, acima de tudo, a fazer com que os músculos trabalhem um pouquinho."
O treino dura sensivelmente 45 minutos. Começa com exercícios de mobilidade, porque aqui o combate não é corpo a corpo. Vão para a frente e para trás. "É importante, bora, bora!", ouve-se. Depois param, respiram e seguem para o próximo. "A mão direita em cima e depois a esquerda. Vamos colocar a perna esquerda à frente e continuar a movimentar as nossas articulações."
Observamos atentamente. Há um sorriso na cara de todos. Nota-se que, acima de tudo, estão a divertir-se, mas nada melhor do que confirmar junto dos próprios.
Helena, Mafalda, Rodrigo e Telma foram alguns dos que mal viram o microfone da TSF não perderam a oportunidade para deixar claro:
"É uma aula muito fácil. Gosto muito de fazer karate."
"A terça-feira e a quinta-feira são os meus momentos preferidos da semana."
"O karate é fixe. É muito bom treinar, é bom para fazer movimentos."
Faz bem? Entre risos: "Ai não que não faz bem."
O ambiente continua animado. Deixamos a turma terminar a aula com o mestre e aproveitamos para falar com a presidente deste centro de educação especial em Almada, Luísa Bexo, que não perde tempo para reforçar tudo o que os alunos já disseram: "Quando eles ouvem a campainha, por exemplo às quintas-feiras, já sabem que é o mestre e já ninguém os segura na sala."
"Isto dá-lhes oportunidade de mostrarem aquilo que também sabem fazer e saírem da instituição. Como foi agora exemplo do Mundial de karate ou do Europeu, no Meo Arena, onde fizeram uma demonstração muito aplaudida por todos. São estes momentos que eles precisam e que a sociedade ainda lhes nega."
Luísa Bexo explica-nos como "o parakarate tem resultados muito positivos para estes jovens" e como estes momentos são necessários. Para a responsável, é com "gente solidária" (como é o caso de José Chagas) que há inclusão, porque "os Governos, sejam eles quais forem, não querem saber".
"Não lhes passa pela cabeça como são as vidas destas pessoas, logo excluídas pela sociedade. As próprias famílias lidam com os miúdos que deixam de ser convidados para ir a uma festa de anos. As poucas mudanças que vão acontecendo são de 'carolices' de pessoas que gostam daquilo que fazem, como o mestre", atira.
Neste momento, a questão que a TSF coloca é se quer isto dizer que a aposta na inclusão é, em parte, feita à base do voluntariado, à qual nos responde o mestre e também vice-presidente da Federação Nacional de Karate - que já se despediu dos jovens atletas e está junto a nós: "Fala-se muito da inclusão, mas faz-se muito pouco. (...) Se não houver apoio financeiro, não há disponibilidade de professores para irem às escolas, quando isto acaba por ser um fator importante para dissuadir também os jovens depois mais tarde a entrarem numa prática desportiva regular. Não falo só no karate, falo em todas as modalidades."

Esta quarta-feira, dia 3 de dezembro, assinala-se o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Uma das grandes dificuldades no desporto adaptado em Portugal é conseguir chegar aos mais novos.
O parakarate é uma modalidade oficialmente reconhecida pela World Karate Federation e integra competições nacionais e internacionais, embora ainda não faça parte dos Jogos Paralímpicos. O objetivo é claro: oferecer um espaço de prática desportiva regular, promovendo mobilidade, autonomia e inclusão social, tudo fatores que, para muitos destes atletas, continuam a ser conquistas que a sociedade tende a atrasar.
