
José Carmo/Global Imagens
O FCP e o futebol juntaram Sérgio Conceição e Domingos Paciência em 1996. Os dragões fizeram a dobradinha, mas os jogadores tiveram sortes diferentes. Puxemos a fita atrás depois do regresso de Gonçalo Paciência.
Quando Sérgio Conceição chegou avisou que não aterrou no Porto para aprender, antes para ensinar, embalado pelo amor ao clube. Os homens de azul (re)aprenderam o encanto pela agressividade e a arte do ataque rápido venenoso, com uma nova abordagem explorando as costas dos aventureiros que querem encurtar as linhas mais à frente no campo. Claro que pelo caminho também aprendeu a que sabem certas derrotas, como tapar o que foi destapado e até a importância de um intervalo como aquele contra o Vitória de Guimarães, que provavelmente teria um remake no Estoril.
Uma coisa é certa: Sérgio não dá rebuçados a ninguém. E recebeu poucos, pois teve de montar uma equipa com jogadores emprestados e da casa. No ataque está uma frente quente vinda de África especialmente com o pé quente, com Aboubakar e Marega em destaque. Brahimi é o talento da equipa, enquanto Soares perdeu protagonismo depois de meio ano prometedor em 2016/17. Waris chegou do Lorient em janeiro, mas Sérgio Conceição quis mais: chamou Gonçalo Paciência de volta, o miúdo de 23 anos que já leva 11 golos esta época em todas as competições.
"O Gonçalo [regressou] não foi pela prestação dele na Taça da Liga, estava a ser seguido, conheço-o desde a formação do Porto, conheço a qualidade dele, conheço os pais do Gonçalo", explicou esta segunda-feira em conferência de imprensa. "Não foi em cima do joelho, não foi por ter marcado um golo frente ao Sporting. Tem a ver com a sua evolução, capacidade e qualidade que demonstrou nestes meses. Depois tem a ver com encaixar o Gonçalo, que tem características diferentes dos nossos outros avançados."
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O regresso do rapaz formado no FC Porto, que durante os Jogos Olímpicos desabafou ao Observador que tinha parecenças com Zlatan Ibrahimovic, faz-nos puxar a fita atrás, para lembrar o que aconteceu quando Sérgio Conceição chegou à equipa principal do FCP, em 1996, onde Domingos já era o senhor do golo. Apesar do vento a favor, a chegada de Mário Jardel complicaria a vida ao avançado que não ficaria nas Antas muito mais tempo.
Na primeira vez que se cruzaram num relvado com a mesma camisola Sérgio viu Domingos Paciência ser o herói da partida. Jogava-se então a Supertaça Cândido de Oliveira, nas Antas, contra o eterno rival. O futuro avançado do Tenerife empurrou para dentro da baliza do Benfica, depois de uma dormência de Jamir perante Artur, e lá esticou o dedo que dava voltinhas pela primeira vez na época. O jovem Conceição viu o único golo da partida do banco, mas a 24 minutos do fim saltou lá para dentro, por Edmilson. O segundo duelo dessa competição foi um passeio no Estádio da Luz: 5-0 para os dragões. Domingos ficou de fora da convocatória, Sérgio Conceição foi titular.
Como escrevemos em cima, Domingos teria dificuldades com Jardel por perto, jogando apenas 651 minutos no campeonato, com apenas cinco jogos de início e dois golos, segundo o foradejogo.net. Conceição somou 2181 minutos na liga, que seria vencida pelo FC Porto de António Oliveira, com mais 13 e 27 pontos do que Sporting e Benfica. Na Liga dos Campeões o trajeto foi igualmente interessante, com cinco vitórias e um empate num grupo com AC Milan, Rosenborg e Gotemburg. Os portugueses caíram apenas nos "quartos", contra o United de Eric Cantona e companhia (0-4, 0-0). Enquanto Sérgio Conceição esteve praticamente em todas, Domingos não teve direito a qualquer minuto na aventura europeia.
Conclusão: Sérgio e Paciência venceram uma Supertaça e um campeonato, a que juntaram uma bela campanha no Velho Continente. Domingos, com pouco espaço, seguiu para o Tenerife no verão; o extremo ficou mais uma época, a tal de confirmação, e daí saltou para a Serie A, onde jogaria na Lazio, Parma e Inter.
O que disse Domingos aquando da contratação do ex-companheiro de equipa? "Sérgio Conceição é a pessoa certa e não o digo por ser meu amigo", começou por dizer, aqui citado pelo Sapo Desporto. "No entanto, este será um ano de muita pressão para os três grandes. O Benfica quer fazer história com a conquista do pentacampeonato, enquanto o Sporting, desde a aposta em Jorge Jesus, tem tido uma pressão cada vez maior para voltar a ganhar o título. E depois há o FC Porto, que pretende recuperar aquilo que perdeu para o Benfica. O Sérgio terá a responsabilidade de ganhar praticamente com os mesmos jogadores que ganharam nada nos últimos anos. É um trabalho de risco, mas ele é a pessoa certa."
Mais ou menos 20 anos depois de terem jogado juntos, o agora treinador volta a cruzar-se com um Paciência. Como disse à TSF o presidente do Vitória de Setúbal, Gonçalo quis regressar ao clube do coração. O avançado, já internacional português, terá agora a concorrência de jogadores como Aboubakar, Marega, Waris e Soares. O apelido no cartão de cidadão pode ser um bom conselho...
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