FC Porto-Sporting

A lei de Brahimi

FC Porto aumenta para oito pontos a vantagem sobre Sporting e Benfica (menos um jogo), depois de uma vitória no clássico frente aos leões por 2-1. Marcano, Rafael Leão e Brahimi fizeram os golos.

Quando pesquisamos por "sola" aqui num dicionário online a descrição é pobre: "Parte do calçado que assenta no chão". Isso soa apenas a rude, áspero e vazio de sentimento. Quem usa a sola no futebol está praticamente a escrever uma carta de amor à bola. A caneta tem o bico fininho, elegante, com perfume silencioso incorporado e uma cor perfeita. Quando o relógio apitava os 49 minutos, Otávio desatou a correr, deixou para Paciência, que inventou espaço pela direita e fez o cruzamento.

A bola, vaidosa e caprichosa, serena também, passou por vários jogadores e sobrou para quem estava ao segundo poste, um tal de Yacine Brahimi, que nem assinou uma grande exibição. O argelino passou os pitons pela bola, deixou-a tranquila, olhou para a baliza e meteu com muita classe na baliza de Rui Patrício. O FC Porto venceu o Sporting por 2-1 e aumenta para oito pontos de vantagem na liderança do campeonato.

FC PORTO: Casillas; Maxi Pereira, Felipe, Marcano, Diogo Dalot, Herrera, Sérgio Oliveira, Otávio, Brahimi, Marega e Gonçalo Paciência
SPORTING: Rui Patrício; Ristovski, Coates, Mathieu, Fábio Coentrão, William, Battaglia, Bryan Ruiz, Acuña; Bruno Fernandes e Doumbia

Este foi um jogo de ausências importantes. Danilo, Ricardo, Alex Telles, Aboubakar (banco), Soares, Gelson, Bas Dost. Uff. Não é brincadeira, e também não era um bom prenúncio para quem, em quatro clássicos, celebrou apenas um golo. Foi Soares, no jogo da primeira mão das "meias" da Taça de Portugal.

O Porto começou melhor, com mais bola, mais valentia para ocupar o meio campo adversário. Marega esteve muito perto do golo aos 14', acabando por falhar como, às vezes, só ele sabe. Isto para um avançado que leva 20 golos no campeonato. O avançado do Mali voltaria a falhar isolado pela direita (pouco ângulo, é certo), depois de um excelente passe de Gonçalo Paciência. Falta qualidade técnica a este avançado, que faz muita mossa pela direita. O Sporting melhorou quando Bruno Fernandes saiu da direita e começou a jogar pelo meio, ou em todo o lado. O que interessa é que a bola o procurou mais vezes, é muito influente este jogador na equipa de Jorge Jesus. E ele bem tentou, de longe e tudo. É o mais inconformado.

Do lado dos verdes, William era, como sempre, o jogador mais confortável com a bola no pé, embora sem grande capacidade e tempo para pensar o jogo, ou explorar espaços. Ele bem faz a tal pausa, para atrair rivais, permitir aos colegas definirem posições e movimentações, tal e qual como no futebol americano, mas este Sporting não está virado para o futebol posicional.

Doumbia, aos 20', apareceu na cara de Casillas, após belíssima assistência de Bruno Fernandes, mas o guarda-redes foi muito rápido e fechou a porta. Marcano facilitou e foi ultrapassado pelo ex-avançado da Roma. As defesas estavam subidas, por isso era normal uma ou outra vez este tipo de situação. Com Marega em campo, o FCP estava sempre em vantagem nesta conversa. Sporting não tinha muita velocidade e potência na frente, faltando Gelson. Mas isto foi algo que mudou antes do intervalo...

Marcano fez o um-zero aos 29', depois de Maxi Pereira dar numa de Rivaldo (aquela finta de fingir uma coisa qualquer e puxar para dentro) e devolver a Herrera na linha. O mexicano, qual alfaiate, tirou as medidas e meteu a bola na área, nomeadamente na cabeça de Marcano, 1-0. Com Marega com aquele problema de expressão (golo) e Gonçalo Paciência fora dela, talvez ainda a adaptar-se à nova dinâmica, foi preciso um central meter a bola lá dentro. Uma nota para um agente secreto bem secreto, discreto, pacato: Otávio. É preciso gostar do futebol do toque, do passe, da simplicidade, para perceber o que vai fazendo aqui e ali, embora naquela zona 10 seja obrigatório ter mais influência no jogo da equipa.

Quando o intervalo já se estava a vestir, Doumbia saiu lesionado e Jorge Jesus decidiu entre Montero e Rafael Leão, o menino de 18 anos que já se estreou na Europa. Entrou o miúdo. Caro leitor, conte aí três minutos no cronómetro. Tic-tac. Pronto, aqui vamos nós. O FC Porto perde a bola, Bryan Ruiz resgata-a, cuidando dela como ele gosta, com uma subtileza lenta, e abre os olhos. O costa-riquenho viu um Leão a galgar metros, a atacar uma zona de ninguém, em diagonal, um movimento tão bonito de se ver num avançado. Bryan meteu, Rafael disse sim senhora: 1-1. Bola por baixo das pernas de Casillas. Intervalo no Dragão.

A segunda parte arrancou praticamente com o golo do FC Porto. Brahimi, que andava escondido, com pouca bola e sem lances de génio que levam a duvidar das articulações e joelhos, recebeu na área depois de um bom trabalho de Otávio e Gonçalo Paciência. "Recebeu" é eufemismo. Brahimi aceitou a bola como um cavalheiro, acariciando-a com a sola do pé direito. Depois, o argelino tinha a baliza à mercê e meteu com classe, com a canhota. Este senhor é craque, mas isto é uma lengalenga já gasta... Nem estava a fazer uma grande exibição, nem faria, mas o futebol é muitas vezes justo com os craques.

O empate esteve perto de acontecer por Coates aos 64', depois de um livre lateral (sim, foi Rafael Leão que sofreu falta e obrigou ao amarelo a Felipe). No canto que se seguiu, Bryan cabeceou sozinho ao primeiro poste. Que perigo. Na mesma altura Jorge Jesus dava indicações a Rúben Ribeiro. Corona, idem. Vem aí técnica e irreverência (sairiam Otávio e Ristovski). Ou seja, Battaglia passou para defesa direito. A utilidade deste médio é uma incógnita. Nem é um recuperador monstruoso (ficou bem na fotografia na altura vs. Juve e Barça), muito menos é alguém que cria e inventa espaços, que liberta colegas. Apetece lembrar que na véspera o City jogou no Emirates com Gundogan, David Silva, Kevin de Bruyne, Bernardo Silva, Sané e Agüero. O futebol, senhoras e senhores, joga-se com a bola, com técnica e inteligência (ou ideias). E, arriscando sermos injustos, Acuña e Battaglia sofrem mais nestes jogos em que há mais qualidade alheia.

Os últimos 20 minutos ofereceram um jogo mais partido, com mais espaço, com mais transições, bola cá, bola lá. Muita correria também de um ou outro jogador, para queimar linhas. Seria uma ponta final de sacrifício, o que prejudica quem precisa de decidir e jogar bem. O juízo esfuma-se muitas vezes no corpo castigado. A seguir, aos 88', Rúben Ribeiro ofereceu a felicidade eterna a Rafael Leão, mas o miúdo vacilou desta vez: tapou a cara com a camisola e não queria acreditar. O Sporting esteve vivo e pressionou até ao fim.

Aos 80' Marega voltou a estar muito perto do golo, fazendo a bola passar por cima de Rui Patrício. Gelando o coração dos sportinguistas, Battaglia deixou a bola bater na relva, para se equilibrar e abordar o lance da melhor maneira, e lá aliviou, já muito perto da linha. Haja coração... O avançado do Mali magoou-se neste lance (lesão muscular na coxa), acabando por ser substituído por Diego Reyes.

A cinco minutos do fim, Fredy Montero decidiu lembrar que Iker Casillas tem uma alcunha dos tempos do Real Madrid: "san Iker". Ora bem, foi mesmo isso que se viu: o guarda-redes lançou aos pés do colombiano e evitou o que estava para acontecer: o bailarico das redes. Aos 88' foi Rafael Leão, que rejeitou a felicidade eterna, depois de um grande cruzamento de Rúben Ribeiro. O miúdo, ao segundo poste, chutou para as nuvens e, sem jeito, tapou a cara, desanimado.

Ponto final no Estádio do Dragão. Finalmente um clássico com golos e muita emoção: o FC Porto venceu o Sporting por 2-1, com golos de Marcano e Brahimi. Rafael Leão entrou perto do intervalo e ainda empatou, mostrando que chegou à elite para ficar. Tem muito talento, este miúdo. Os dragões aumentam para oito pontos de vantagem para os leões e encarnados (jogam sábado vs. Marítimo na Luz).