Futebol

Ainda se lembra de Saltillo? Há 30 anos a seleção nacional entrava em greve

O Mundial de 86 fica para a História do futebol português, mas não pelas melhores razões. Saltillo, no México, entrou no mapa e foi palco de uma das maiores polémicas da seleção. Veja as fotos.

Ainda antes de partir para o México, a seleção vive o primeiro contratempo. Veloso acusa positivo num teste de doping e acaba por ficar em terra. É substituído por Fernando Bandeirinha, sob protesto dos colegas, que acreditavam que o defesa estava inocente. Mais tarde, uma contraprova vinha provar que o teste estava errado.

Seguiu-se uma viagem longa. De Lisboa a equipa voa para Frankfurt, de Frankfurt para Dallas, paragem na Cidade do México, daí para Monterrey e finalmente Saltillo, quartel-general da seleção durante o Mundial, onde chegaram a 12 de maio.

Os trabalhos começaram, mas as condições não eram as melhores. Os jogadores queixavam-se do terreno, das instalações e até da falta de adversários. Reza a História que a seleção terá até feito um jogo de treino contra uma equipa constituída por funcionários de bares e hotéis locais.

E depois, explodiu a bomba. A 25 de maio de 1986, a equipa anuncia a greve - não ia comparecer no encontro particular com a equipa mexicana dos Tigres.

O enviado especial do Diário de Notícias para acompanhar a seleção, Silva Pires, escrevia na edição do dia seguinte: "A recusa de participar no jogo-treino com os tigres, previsto para a tarde ontem, em Monterrey foi a grande «bomba» que estalou no seio da seleção portuguesa".

Arquivo DN

Em conferência de imprensa, Bento assume o papel de porta-voz do grupo e lê um comunicado com exigências. Os jogadores queriam um aumento da remuneração diária (de 4 para 7 contos) e dos prémios de presença (de 300 para 700 contos). Exigiam também receber pela publicidade que usavam nos fatos de treino e nas camisolas e pediam garantias de que todos os atletas teriam direito a cartão vitalício da Federação.

A insatisfação vinha de trás. A equipa queixava-se de "falta de diálogo" por parte da Federação e dizia que estava à espera há cinco meses de uma reunião para discutir os interesses dos jogadores.

No dia da conferência de imprensa, o presidente da Federação, Silva Resende, não tinha ainda chegado ao México e toda a comitiva estava na capital, a mil quilómetros de Saltillo.

Apesar das reivindicações, a seleção garantia "a normalidade da preparação", mas o que aconteceu foi tudo menos normal.

Os treinos continuaram, mas os jogadores vestiam as camisolas do avesso para esconder a publicidade ou preferiam o tronco nu. A Portugal chegavam imagens da seleção a apanhar sol, sombrero na cabeça e bebidas na mão, junto à piscina. As "chicas de Saltillo" eram companhia frequente e os membros mais efusivos da claque nas bancadas.

Finalmente, a 3 de junho, Portugal faz o primeiro jogo contra Inglaterra e vence por 1-0.

Mas as boas notícias acabam por aí. Depois do encontro, durante um treino, o guarda-redes Bento parte uma perna e fica afastado do Mundial.

Poucos dias depois, a 7 de junho, chega a derrota frente à Polónia por 1-0.

A 11 de junho a seleção despede-se do sonho, depois de perder com Marrocos por 3-1. O Mundial de 86 terminava para os Infantes.

À chegada a Lisboa, José Torres apresentou a demissão e a maior parte dos jogadores foi excluída da seleção, ficou "indisponível".

Portugal esteve afastado de competições internacionais nos 10 anos seguintes, até ao Euro 96.

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