Futebol

Lembra-se de Mauro Airez? Do Benfica ao cinema numa cambalhota

Há exatamente 25 anos o avançado argentino festejou o único hat-trick da carreira, num Belenenses-Tirsense (3-0). Em entrevista à TSF, Mauro Airez lembra craques com quem jogou e como o corralito o afetou.

Sábado, 10 de abril de 1993. O Belenenses de Abel Braga recebia o Tirsense de Rodolfo Reis naquela tarde, com três mil nas bancadas do Restelo. Os lisboetas estavam em sexto lugar, depois do empate em Paços de Ferreira, e aquele jogo era uma oportunidade para voltar a agarrar o quinto. E foi isso mesmo que aconteceu, graças a um avançado de Buenos Aires que já tinha trocado umas bolas na Argentina com Redondo, Bochini e... Maradona. Em entrevista à TSF, Mauro Airez, de 49 anos, recorda vários momentos da sua vida, que teve capítulos em português no Belenenses, Benfica (marcou ao Sporting no Jamor em 96, celebrando com umas acrobacias), Estrela da Amadora e Estoril Praia.

Começamos pelo hat-trick ao Tirsense em 93, karaoke ou cinema?
Olha, vamos fazer assim: começamos pelo hat-trick, se não pudermos falar no karaoke, não falamos, e passamos para o cinema. O que é que achas? (risos)

Faz 25 anos daquele Belenenses-Tirsense, que acabou 3-0. Foi o único hat-trick do Mauro em Portugal. Lembra-se de tudo?
Lembro. Estava uma tarde linda para a prática do futebol. Depois de ter tido o teu contacto, fui reviver aquele momento, por acaso tenho os vídeos. Foram três golos bem conseguidos. Nessa altura, no Belenenses, tínhamos uma equipa acima da média e dava para fazer, de vez em quando, aqueles brilharetes. Lembro-me do primeiro golo ter sido em voo de cabeça, cruzamento do Taira, na primeira parte. Depois faço dois golos na segunda parte: um numa tabela com o Gonçalves, que defino por baixo do guarda-redes; e o outro depois de um cruzamento, salto e cabeceio no bico da pequena área e mudo a trajetória da bola.

Foi o dia mais feliz em Portugal?
Não, não vou dizer que foi o mais feliz. Mas obviamente que, para um avançado, marcar um hat-trick é um dia especial. Não foi na altura em que se ficava com as bolas, podia ter ficado com essa (risos).

Voltou a fazer algum hat-trick?
Não, não, não. Nem me lembro. Acho que depois foi assistências, golos e assistências, mas nada parecido.

Quando chegou em 91/92 o Belenenses subiu de divisão e o Mauro foi o melhor marcador da equipa com 11 golos. Foi uma boa época de estreia.
Sim, foi uma boa época, porque, contando com os golos da Taça e do campeonato, se não me engano foram 17 ou 16. Foi um grande trabalho do nosso mister Abel Braga. Nesse momento [o treinador] estava avançado para o que se vivia em Portugal. O homem já treinava por setores, já treinava a parte de meio campo defensivo com defesa e depois com avançados; trabalhos diferentes, tanto físico e técnica. Passámos praticamente 25 jogos sem perder e conseguimos subir antes de o campeonato acabar.

O Yekini marcou 22. Era um craque, o nigeriano?
O Yekini era terrível! Era um poço de força e acho que o Benfica também se deve lembrar dele, daquele célebre jogo de Setúbal, onde marcou dois golos (5-2). Era um avançado terrível. Na altura, no futebol português, tínhamos avançados bons. Havia Yekini, Ricky no Boavista, com quem depois tive o prazer de jogar no Belenenses, Domingos no Porto, Rui Águas e Yuran no Benfica; Juskowiak no Sporting. Havia qualidade, eu acho que havia mais qualidade.

Como foi chegar ao Benfica e ter alguém no ataque como João Pinto?
Foi um grande salto. Como se costuma dizer aqui, é outro campeonato, não é? Em termos de objetivos e pressão, tanto dos adeptos como a pressão saudável dentro do grupo. São equipas com mais jogadores, mais qualidade, para poderem fazer a época toda. A percentagem de erro tem de ser mínima, porque me aconteceu, principalmente no Benfica, ter dois ou três jogos não muito bons e quando saía [da equipa] demoravas bastante para ganhar a titularidade.

Jogar ao lado do João foi uma coisa maravilhosa. Era um jogador excelente em todos os sentidos: tecnicamente, fisicamente; fazia golos de cabeça impossíveis para um jogador da minha altura. Tínhamos uma coisa em comum, que era o poder de impulsão. Éramos considerados baixinhos no futebol. Nesse momento o João estava em grande forma. Tínhamos uma excelente equipa, com Preud'homme na baliza, Ricardo Gomes, Valdo, Dimas... Eram jogadores com muita qualidade também.

No Estrela, depois, foi treinado por Fernando Santos. Como era o atual selecionador português?
Tive um ano com o Fernando antes de o engenheiro sair para o FC Porto. Foi bom, foi bom. O Fernando é um treinador muito exigente, acho que ele continua a ser. É muito convicto daquilo que quer. É um treinador que consegue transmitir. Muitas vezes um treinador pode saber muito teoricamente e não ter capacidade para transportar aquilo que é a sua ideia, o estilo de jogo, a forma como quer que um jogador finalize, a tática... Há muitos treinadores que na teoria são muito bons e quando querem levar aquilo para a prática falha muita coisa. É muito objetivo dentro do seu estilo de jogo, que nós sabemos que não é muito bonito e ofensivo. Acho que a passagem na Grécia ajudou-o muito, em termos táticos, cresceu muito. E isso deu resultado com a conquista do Europeu.

Antes, na Argentina, jogou com Ricardo Bochini no Independiente, que era só o ídolo do Maradona, e com Redondo no Argentinos Juniors, que tinha mais ou menos a mesma idade do Mauro. Como é que eles eram?
O Redondo é um ano mais novo do que eu. Quando fui vendido do Gimnásia La Plata para o Argentinos Juniors foi a transferência mais cara do futebol argentino nesse momento. Se te disser o valor, uma pessoa até dá uma gargalhada. Na altura foi 387 mil dólares e foi a transferência mais cara do futebol argentino nesse ano.

Como os tempos mudaram...
(Risos) E muito, e muito. Nessa altura, o Argentino Juniors era uma equipa jovem, estava o irmão do Maradona, Redondo, [Silvio] Rudman, Leonardo Rodriguez, que eram jogadores de seleção. Tínhamos um central muito bom, que era o [Fernando] Cáceres, que agora está a viver, há alguns anos, um momento muito mau. Foi vítima de um assalto e levou um tiro na cabeça, tem a bala alojada na cabeça. Está numa cadeira de rodas. Tínhamos jogadores bons. Mais de metade da equipa, passados um ou dois anos, saíram todos para a Europa.

O Bochini aqui em Portugal não o conhecem, tem de ser um fanático do futebol sul-americano para poder saber o que era Bochini. O Bochini no Independiente era como o Eusébio no Benfica. Era um jogador fino, com classe, uma pessoa olhava para ele e parecia um jogador muito frágil, mas a verdade é que ele conseguia passar por aqueles buraquinhos que nenhum jogador consegue passar. E fazia passes para a baliza nos ângulos. Era uma coisa impressionante.

Quem foi o jogador mais talentoso com quem jogou?
Posso dizer-te que não cheguei a jogar, mas cheguei a treinar. Eu fiz a pré-época com a seleção argentina quando vem de ser campeã do mundo em 86. Obviamente que o jogador com mais talento com quem treinei foi o Maradona (risos). Está fora de questão.

Eu apanhei muitos... Entre os 18 e 20 anos apanhei o final de carreira de muitos craques. Cheguei a fazer um Flamengo-Argentino Juniors no Maracanã com cento e tal mil pessoas. O Flamengo tinha nomes como Júnior, Zico, Josimar, Leandro e eu era um miúdo. Jogadores já consagrados, joguei contra Passarella, joguei com o Valdano; joguei contra o Chalana aqui em Portugal, ainda estava no [Estrela da] Amadora. Grandes nomes do futebol.

Como era Maradona?
O Maradona é uma pessoa excelente. Tudo o que tem acontecido na sua vida privada devia ficar no extra futebol. Como pessoa e jogador era fora de série. Principalmente como jogador, tinha um espírito de ajuda impressionante, não era aquele jogador fino que só jogava e não gostava de correr, suar e marcar [o rival]. Quem se lembra do Maradona sabe que ele estava em todos os cantos do campo, como os jogadores que têm passado pela seleção argentina: Batistuta, Caniggia... São jogadores acostumados a correr o campo todo.

Era como ele dizia, certo? "La pelota no se mancha..."
Claaaro (risos)! E é verdade. Obviamente que uma pessoa a esse nível tem de ter certos cuidados, porque não somos só nós adultos que o vemos como ídolo, também são as crianças e obviamente que para eles, sim, fica manchada a imagem do seu ídolo...

Nos Jogos Olímpicos em 88 foi difícil cair com o Brasil?
Foi difícil. O Brasil, nesse momento, tinha uma equipa fortíssima. A Rússia também tinha. Nós, de certa forma, éramos sub-20 e sub-22, o Brasil já vinha com uma equipa com jogadores com mais rodagem.

Bem, vamos lá mudar a agulha. Que história é essa de fazer noites de karaoke?
Naquela altura fiquei sem trabalho e a família da minha ex-mulher vivia disso. Comecei a acompanhar e depois fiz, durante alguns anos, trabalho na noite. Entre dia e noite, escolho dez vezes o dia (risos). Foi uma passagem depois de ter ficado desempregado quando aconteceu o famoso corralito na Argentina, entre 2000-2002. Os bancos ficaram com o dinheiro todo e eu ainda estava numa empresa de futebol, do Duscher e do Quiroga. Fiquei desempregado de um dia para o outro, porque a empresa ficou com alguns milhões dentro e falhou. Foi impressionante. Foi mais que nada uma via de escape nesse momento, até entrar na área da publicidade, cinema e televisão.

Explique lá o que anda a fazer...
Faço isto desde 2007. Tinha um amigo que, uma vez, lhe faltou uma pessoa para trabalhar. Foi na altura que eu tinha ficado desempregado e perguntou-me se não queria fazer alguma coisa. "Sim, não tem problema, mas não percebo nada disso", disse-lhe. "Olha, começas a perceber" (risos). Foi assim que entrei no ambiente da televisão. Comecei como estagiário, uns dois ou três anos, agora sou assistente de iluminação. Faço séries, faço o que vier. Neste momento estou a fazer uma série até final de maio, já fiz vários filmes, longas, curtas, publicidades. Tudo o que há para fazer.

E saudades do futebol? Há tantos treinadores argentinos...
Tenho, tenho. O bichinho do futebol nunca sai, principalmente quando vemos alguns jogos e jogadores e nos lembramos do que foi a nossa carreira toda. Uma pessoa vai ao estádio, vê a relva, a bola, o som da bola... Há quem goste de carros e começa a ouvir um motor e para a orelha. Nós ouvimos um chuto e fazemos o mesmo, o bichinho não sai.

O barulho das botas na tijoleira...
(risos) Eh, pá, o futebol é uma coisa que vai connosco a vida toda. Se te disser que não gostava de entrar no futebol, era mentira. Mas hoje em dia está complicado, o futebol mudou muito dos tempos que nós jogávamos. A forma como é conduzido, hoje em dia com SADs. Falo do Belenenses, SAD para um lado, clube para o outro. Gostava, mas não como treinador. Gostava de estar perto de uma primeira equipa, estar dentro de uma SAD, na prospeção de jogadores, principalmente na América do Sul, onde tenho muitos contactos.

A última história que contei sobre jogadores foi o tema do Acuña. Eu ofereci o Acuña há quatro anos ao Sporting. Na altura custava entre 800 mil e um milhão de euros, estava numa equipa que tinha descido e falida. Não obtive resposta nenhuma. Não foi só ao Sporting que ofereci, ofereci também ao FC Porto. É difícil entrar no negócio de jogadores, principalmente quando andam três ou quatro empresários a dominar o mercado. Na altura apresentei o negócio bem clarinho e ao não obter resposta dos grandes até falei com o Belenenses, para ver se não queriam fazer uma parceria com um clube grande, já que não tinha resposta deles. Nesse momento disse a Rui Pedro Soares que podia fazer, num ano e meio ou dois, quatro ou cinco milhões. A verdade é que não estava enganado, porque o Sporting o comprou por nove...

Dizia há pouco que o futebol mudou bastante. Se pudesse congelava o futebol nos anos 90?
Eu diria que tudo o que for inovação e para melhorar é bem-vindo. Hoje em dia, de certa forma, estão a tirar muito protagonismo ao verdadeiro artista, para ganhar tempo de antena quem devia estar um bocadinho mais na sombra. O verdadeiro artista deste desporto é o jogador. Está a falar-se muito, é presidentes, é diretores, é árbitros, eu nunca ouvi questionar arbitragem como nos últimos quatro ou cinco anos. Isto virou um circo autêntico e não vamos mais longe. É inadmissível.