Simplesmente... Eusébio!

Felino, imprevisível no campo, dotado de uma força descomunal naquele pé direito... consensual e respeitado no mundo fora!

Eusébio da Silva Ferreira, nascido em 1942, entre muitos outros adjectivos poderia ser definido através destes.

Num tempo em que Portugal estava fechado em si, em que as suas relações diplomáticas com a grande maioria do mundo eram limitadas ao essencial, o futebol aproximava o país dos povos e dos sistemas políticos democráticos. Eram os tempos do Benfica europeu de Gutmann, do Sporting vencedor da Taça das Taças, daquela selecção dos Magriços que encantou Inglaterra no Mundial de 66! Em dois destes factos, um denominador comum: um avançado esguio, não muito alto, que jogava com um sorriso nos lábios e que encarava as maldosas entradas que era alvo com a condescendência dos predestinados! Era, simplesmente, Eusébio!

A história começou em Maputo, por esses dias, ainda denominada de Lourenço Marques. No Bairro da Mafalala, a Dona Elisa tinha mais um filho: chamar-lhe-ia Eusébio.

O petiz, desde cedo, mostrou ao que vinha e num tempo, em que a pobreza andava de mãos dadas com os ídolos dos cromos da bola, foi essa que rapidamente o seduziu, o enfeitiçou, piscou-lhe o olho como a dizer haveremos de alcançar a fama juntos! E essa seria feita de ciclos... do situacionismo micro, em que se começou a destacar no clube " Os Brasileiros" do seu bairro, até ser uma verdadeira figura mundial, capaz de fazer um estádio irromper em aplausos só pela sua imagem ser difundida num écran!

Mas, voltemos aos Brasileiros... aí, golos, muitos golos...a indiciar que o seu futuro seria no futebol. Por essa razão, começaria a praticar a modalidade, de modo mais sério, no Sporting local, depois de ter sido recusado no Desportivo, por supostos problemas num joelho. Apesar de não corresponder à verdade, tal seria um prenúncio do que seria a vida do jogador, ao ter que suportar 7 operações aos joelhos (seis ao esquerdo e uma ao direito) durante a sua carreira.

A sua fama de talentosa esperança chegaria à metrópole e o Sporting, imediatamente, tentaria resgatar o jovem. Mas, a verdade é que não estava isolado nesses intentos. Conjuntamente, com os leões, Benfica, Belenenses, FC Porto tentavam seduzir o adolescente através de sua mãe.

Seria o Benfica a conseguir garantir os préstimos de Eusébio, a troco de 250 contos pagos a Dona Elisa. Porém, o segredo era a alma do negócio e os Leões ainda sonhavam, nem que fosse através das vias judiciais, fazer valer os seus direitos sobre o jogador! Para contornar isso, os encarnados usaram de toda a sua argúcia. Colocaram Eusébio no avião com a identidade falsa de Ruth Malosso (o que, inclusivamente, mereceu recentemente a realização de uma película cinematográfica) e, mal chegado, enviaram-no para o Algarve, até que a sua situação contratual pudesse ser deslindada.

A 23 de Maio de 1961, a lenda apresentar-se-ia à Europa. Num desafio particular frente ao Atlético, começaria com um hat-trick...que melhor cartão de visitas para um futuro que se antevia radioso?

A primeira coroa de glória essa chegaria depois... naquela final da Taça dos Campeões europeus frente ao Real Madrid. Um duelo em que os Merengues eram favoritos e em que queriam recuperar a taça que, até à temporada anterior, era quase propriedade sua! Para isso contavam com nomes inolvidáveis do desporto rei... Santamaria, Gento, Puskas e... Di Stéfano, La Saeta Rubia. Mas, nesse dia, como em tantos outros, foi dia de Eusébio! Dia de dois golos que ajudaram que os encarnados voltassem a subir aos céus da Europa! No final do desafio, um traço indissociável da personalidade do "King." Assim, apesar de ser o nome mais pronunciado daquela final, de ter sobre si os holofotes da fama e do sucesso todos sobre si, humildemente, foi pedir a camisola ao "senhor Di Stéfano", como reconhecimento que ainda tinha um longo caminho para chegar ao Olimpo dos heróis do futebol!

Contudo, era já nome grande...tão grande que continuava a encabeçar um Benfica que projectava o nome de Portugal para o mundo. Um Benfica que continuava a enfrentar as potências das nações mais ricas de modo ousado, descomplexado e que, apesar de não mais vencer uma prova europeia, sempre teve participações assinaláveis chegando a mais três finais nessa década de 60.

Além da afirmação no clube, a prova que faltava! Eusébio ia para além das cores do clube, era de todos nós! Se assim não fosse, como poderíamos catalogar a inolvidável caminhada dos Magriços na sua estreia em fases finais de competições de selecções, naquele mundial de impossível esquecimento?

Portugal surpreenderia o mundo ao conquistar um terceiro lugar! Eusébio alcançaria o estatuto de divindade, ao tornar-se o melhor marcador da prova com 9 golos. Além disso, conseguiria proporcionar imagens que se tornaram lendárias no futebol português e mundial. Na verdade, quem nunca viu a Pantera Negra a correr com a bola na mão, em direcção ao centro do campo, após marcar o golo que encetou a mais bela reviravolta das nossas selecções, frente aos desconhecidos, misteriosos e voadores coreanos? Ou, a dor de lhe terem roubado o sonho, na meia-final frente à Inglaterra, em Wembley, e da qual saiu lavado em lágrimas?

Aliás, o King nunca teve boa relação com o templo dos templos...em Wembley perderia o sonho mundial, mas também perderia a final da Taça dos Campeões Europeus de 1963 frente ao AC Milan e em 1968 perante o Manchester United... aqui, com a dor, de nos últimos minutos, ter acontecido o que raramente sucedia. Eusébio falhou um golo, que em cem vezes falharia uma... foi naquele dia e o Benfica cairia no prolongamento!

Mas seria injusto dar demasiada ênfase a esse momento... Eusébio foi o homem que de águia ao peito apontou 638 golos em 614 desafios!

Quando em 1975 abandonou o Benfica, jamais se pensou que pudesse envergar outros camisolas. Nada mais errado! O seu amor ao jogo bem como a abertura do exótico mercado norte-americano fez com que passeasse o seu talento por terras de Tio Sam, onde era amado! Aliás, sê-lo-ia sempre, mesmo depois de acabar a sua carreira. Nos entretantos, ainda continuava a aterrorizar guardiões incautos em Portugal, ao serviço do Beira Mar ou do União de Tomar, onde o seu pontapé letal ainda realizava as delícias de quem amava o jogo.

Retirar-se-ia em 1979, com 37 anos e com os joelhos em profundo estado de degradação. Começava aí a segunda fase do King. Primeiro nos escalões de formação do Benfica, onde um dia numas captações, um tal de Rui Manuel César Costa (leia-se Rui Costa) o inebriou e que o levou a antever-lhe futuro promissor e depois como embaixador do futebol português nas selecções.

E aí, com o seu amuleto, a sua inseparável toalha branca enrolada na mão, viveria inúmeras peripécias. Seria ele que em 96 consolaria os nossos Infantes após a chapelada de Poborksy a Vítor Baía no Villa Park, como seria ele a consolar a revolta da selecção de 2000, aquando da mão de Abel Xavier, na meia-final frente à França.

O King era o repositório da glória do futebol português... e, para ele, nada terá sido mais duro do que aquele 04 de Julho de 2004, quando no seu estádio (a Luz), os seus rapazes (a nossa selecção) foram derrotados por uma cabeçada de um tal de Charisteas... As Quinas perdiam o sonho e ficaria famosa a imagem do Rei a consolar o Príncipe Herdeiro. Sim, Eusébio a consolar um imberbe Cristiano Ronaldo e quase a sussurrar-lhe que ainda teria muitos títulos para ganhar, inclusivamente, levar o vermelho e o verde do nosso coração até ao topo da Europa.

Tal sucederia em 2016, já Eusébio tinha partido há dois anos e meio. Porém, no meio da loucura proporcionada pelo golo de Éder, não houve uma alma que não tivesse dedicado aquele título ao King... o homem que tudo daria para viver aquele momento de suprema alegria de um país que ele ajudou a libertar do obscurantismo e até da tacanhez de estar orgulhosamente só...porém, verdade seja dita, provindo das colónias, numa curiosa bissectriz do que era e do que haveria de ser!

Eusébio já não está entre nós fisicamente... porém, em cada remate, em cada golo do seu clube e da nossa selecção, há quase a certeza de pairar sobre nós, de percecionarmos aquele inconfundível sorriso, de antes de qualquer desafio a sua desarmante humildade nos inspirar... além de um dos melhores do mundo, era simplesmente...Eusébio!

Vasco André Rodrigues (A Economia do Golo)*

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

* Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior acordo ortográfico.

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