Agricultores temem que acordo UE-Mercosul "coloque em causa a soberania alimentar" de Portugal

Por enquanto, o Movimento Civico de Agricultores do Alentejo Litoral e Vale do Tejo não admite protestos
David Borrat/EPA (arquivo)
O representante do Movimento Cívico de Agricultores do Alentejo Litoral e Vale do Tejo José Estêvão diz à TSF que o acordo de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul é negativo porque vai afetar setores específicos da agricultura
O Movimento Cívico de Agricultores do Alentejo Litoral e Vale do Tejo assume preocupação perante o acordo de comércio livre entre União Europeia e Mercosul. Além de entender que a Europa "não consegue" concorrer com os preços praticados na América Latina, assinala que o "consumidor português vai sair muito prejudicado".
Milhares de agricultores juntaram-se este sábado em Athlone, no centro da Irlanda, e em Ourense, Espanha, para protestar contra o acordo de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul. Cartazes com "Não ao Mercosul" e "Apoio à agricultura irlandesa" estavam pendurados em alguns dos muitos tratores que convergiram para a pequena localidade situada a meio caminho entre Dublin e Galway, no dia seguinte à aprovação do acordo pela Comissão Europeia, ao qual o Governo irlandês se opôs. Já em Espanha, cerca de cem agricultores subiram aos seus tratores e bloquearam este sábado a autoestrada A-52, em Trasmiras (Ourense), no quilómetro 188, em protesto contra o acordo, que consideram prejudicial para o setor primário e para os consumidores.
O Movimento Cívico de Agricultores do Alentejo Litoral e Vale do Tejo posiciona-se do mesmo lado de irlandeses e espanhóis. À TSF, o representante do movimento José Estêvão refere que os agricultores portugueses estão preocupados, em especial com os setores da carne e dos cereais: "Os países europeus não conseguem concorrer com os países da Ámerica Latina, que produzem a custos muito inferiores."
José Estêvão refere ainda que os países do continente sul-americano também não cumprem com as obrigações ambientais, sanitárias ou de bem-estar animal. E destaca que o mais provável é que se avizinhem perdas de rendimento e que se perca a "soberania alimentar do país, num contexto de instabilidade global".
Dezenas de agricultores enfurecidos protestaram durante a semana em frente ao parlamento francês, após conduzirem cerca de cem tratores até Paris. Em Espanha, houve protestos em cidades como Tarragona, Santander e Vitoria-Gasteiz, enquanto Bruxelas também foi palco de manifestações.
Diversos grupos de agricultores alemães protestaram esta quinta-feira contra o acordo, bloqueando as estradas em vários pontos do país, incluindo algumas vias de acesso à capital, Berlim, enquanto na Grécia os agricultores intensificaram os protestos em todo o país, iniciando um bloqueio de 48 horas nas principais estradas.
Por enquanto, o Movimento Civico de Agricultores do Alentejo Litoral e Vale do Tejo não admite protestos, preferindo esperar por avanços do Ministério da Agricultura.
José Estêvão esclarece, por isso, que os agricultores "não têm prazer em contestar" e que querem, sim, trabalhar. "Se não forem tomadas medidas, os nossos produtos de qualidade vão para o exterior e nós vamos receber produtos sem qualidade", avisa.
E garante que, com a assinatura do acordo do Mercosul, "o consumidor português vai sair muito prejudicado".
